13 de março de 2017

Do Tesouro da Igreja

As duas asas

Na 4ª feira de Cinzas, dia de jejum e 
abstinência, começa a Quaresma.
Está escrito num salmo: «Eu disse: Senhor, tem piedade de mim, cura a minha alma, porque pequei contra Ti» (Ps 4, 5). Esta súplica, irmãos, é segura; mas permanecei vigilantes para atuar bem.
Tocai o saltério, obedecendo aos preceitos; tocai a cítara, suportando os sofrimentos. «Reparte o teu pão com o faminto» (Is 58, 7) ouviste pela boca de Isaías; não penses que o jejum é suficiente. O jejum mortifica-te a ti, mas não remedeia o próximo.
As tuas privações serão frutuosas se as distribuis generosamente com o próximo. Olha como defraudaste a tua alma. A quem vais dar aquilo de que te privaste? Onde vais pôr o que a ti te negaste? A quantos pobres pode saciar a comida da qual hoje nos privamos! Jejua de modo que, alimentando um necessitado, tu te sintas saciado porque foram escutadas as tuas orações.
Diz também Isaías na mesma passagem: «Enquanto estiveres ainda a falar, eu te responderei: aqui estou; se partires de bom ânimo o pão com o faminto» (Is 58, 9-10). Porque com frequência se faz de mau humor, e resmungando, para escapar da insistência do mendigo, em vez de querer saciar o estômago daquele que tem fome.
Mas Deus «ama a quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7). Se dás o pão de mau humor, perdeste o pão e o mérito. Fá-lo, pois, com bom ânimo; assim, aquele que vê o interior, dir-te-á enquanto ainda estás a falar: Aqui estou.
Com que rapidez são escutadas as orações dos que fazem o bem! Eis as boas obras dos homens nesta vida: o jejum, a esmola e a oração.
Queres que a tua oração chegue voando até Deus? Põe-lhe estas duas asas: o jejum e a esmola. Que nos encontre assim, que nos descubra assim tranquilos, a luz e a verdade de Deus, quando vier libertar-nos da morte Aquele que já sofreu a morte por nós. Amen.


Das “Exposições sobre os salmos”, de Santo Agostinho (En. in ps. 42, 7-8)

Sem comentários:

Enviar um comentário