30 de novembro de 2016

Do Tesouro da Igreja

O Deus-connosco

Na cristandade a festa do Natal assumiu uma forma definitiva no século IV, quando substituiu a festa romana do "Sol invictus", o sol invencível. Assim foi evidenciado que o nascimento de Cristo é a vitória da verdadeira luz sobre as trevas do mal e do pecado.
Contudo, a particular e intensa atmosfera espiritual que circunda o Natal desenvolveu-se na Idade Média, graças a São Francisco de Assis, que estava profundamente apaixonado pelo homem Jesus, pelo Deus-connosco.
O seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano, na Vida segunda narra que São Francisco "acima de todas as outras solenidades celebrava com inefável solicitude o Natal do Menino Jesus, e chamava festa das festas ao dia no qual Deus, feito pequeno infante, se tinha amamentado num seio humano" (Fontes Franciscanas, n. 199, p. 492).
Desta particular devoção ao mistério da Encarnação teve origem a famosa celebração do Natal em Greccio. (...) O que animava o Pobrezinho de Assis era o desejo de experimentar de modo concreto, vivo e atual a humilde grandeza do acontecimento do nascimento do Menino Jesus e de comunicar a sua alegria a todos. 
Na sua primeira biografia fala-se da noite do presépio de Greccio de modo vivo e comovedor, oferecendo uma contribuição decisiva para a difusão da tradição natalícia mais bonita, a do presépio.
Essa noite voltou a dar à cristandade a intensidade e a beleza da festa do Natal, e educou o Povo de Deus para compreender a sua mensagem mais autêntica, o calor particular, e a amar e adorar a humanidade de Cristo.
Esta particular aproximação ao Natal ofereceu à fé cristã uma nova dimensão. A Páscoa tinha concentrado a atenção sobre o poder de Deus que vence a morte, inaugura a vida nova e ensina a esperar no mundo que há-de vir. Com São Francisco e com o seu presépio eram postos em evidência o amor inerme de Deus, a sua humildade e a sua benignidade, que na Encarnação do Verbo se manifesta aos homens para ensinar um novo modo de viver e de amar. 
Graças a São Francisco, o povo cristão pôde compreender que no Natal Deus se tornou deveras o "Emanuel", o Deus-connosco, do qual não nos separa barreira nem distância alguma. Naquele Menino, Deus tornou-se tão próximo de cada um de nós, tão próximo, que podemos chamá-lo por tu e manter com ele uma relação confidencial de afecto profundo, assim como fazemos com um recém-nascido. 
De facto, naquele Menino manifesta-se Deus-Amor:  Deus vem sem armas, sem a força, porque não pretende conquistar, por assim dizer, de fora, ao contrário, deseja ser acolhido pelo homem em liberdade; Deus faz-se Menino inerme para vencer a soberba, a violência e a ambição de posse do homem. Em Jesus, Deus assumiu esta condição pobre e desarmante para nos vencer com o amor e nos guiar à nossa verdadeira identidade. 

Bento XVI, Audiência geral 23.XII.2009

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