7 de setembro de 2014

Do Pároco


Um engenheiro santo?


Não sei se a sorte do leitor destas linhas coincide com a minha, num aspecto que muito me emociona: conheci e convivi com um santo!

Este tem o nome de Álvaro del Portillo. Com ele privei de perto em Roma cerca de três anos. E tive ainda a sorte de ser ele o Bispo que me ordenou como diácono e presbítero no ano de 1993. Será beatificado em Madrid, sua cidade natal, em 27 de Setembro próximo.

Era difícil olhar para a sua pessoa e não reconhecer que nos encontrávamos diante de alguém cheio de presença de Deus, que não se traduzia em gestos ou atitudes estranhas, mas numa serenidade e simplicidade que cativava a todos. Por detrás dela, escondia-se uma intimidade muito grande com Cristo, uma fidelidade a tudo o que Ele lhe pedia no dia a dia, que só um conhecimento mais profundo da sua vida permitia deslindar.

Contudo, bastava conviver com ele, conversar com ele, ouvi-lo falar para se chegar à fácil conclusão de que D. Álvaro era um homem totalmente de Deus, cuja biografia se podia compendiar numa afirmação de S. Josemaria Escrivá: “Este lê a vida de Jesus Cristo!” (Caminho nº 3). Eu diria mais: “Este identificou-se com  Jesus Cristo!”

Às vezes, um santo parece-nos um homem muito bom, muito ameno no contacto com os outros, mas falho de exigência e de energia. O futuro beato Álvaro del Portillo era a antítese desta imagem, no que diz respeito ao seguimento do “mas” da frase anterior. A sua vida caracterizou-se por uma completa entrega a Deus em todos os momentos, que o fazia trabalhar intensamente e fazer trabalhar os que dele dependiam ou com ele dividiam uma tarefa. 

Incansável, exigia a todos uma correspondência ao que Deus solicitava. Certamente, cheio de compreensão e de simpatia. Mas o que era preciso fazer para seguir a vontade divina, fazia-se. Por isso, o Opus Dei, durante o período de quase 20 anos em que esteve à sua frente, deu os passos decisivos para encontra
S. João Paulo II e D. Álvaro del Portillo
na beatificação de S. Josemaria (17-05-92)
r na Igreja o lugar jurídico mais adequado de prelatura pessoal e ampliou a difusão da ideia da santificação do trabalho e da vida quotidiana. Uma das maiores alegrias de D. Álvaro del Portillo foi poder ver nos altares o fundador do Opus Dei, que S. João Paulo II beatificou em 1992. Já não estava entre nós quando, dez anos depois, foi canonizado.

D. Álvaro é um exemplo de eficácia e de humildade. Nada do que o Senhor lhe pediu foi por ele posto de lado ou ignorado. Muito ordenado, era engenheiro civil, culto e inteligente, colaborou em várias comissões do Concílio Vaticano II e em tudo aquilo que a Santa Sé lhe requisitou. Olhar para ele era o mesmo que ver um homem de paz e de concórdia. Sempre com um sorriso,  sem se lhe conhecer uma atitude destemperada mesmo perante alguém exaltado. Era frequente que ao ver como sabia responder nessas ocasiões brotasse o comentário: “Este homem é santo”.

Quando faleceu, S. João Paulo II enviou um telegrama em que afirmava: “recordo com agradecimento ao Senhor a vida cheia de zelo sacerdotal e episcopal do defunto, o exemplo de fortaleza e de confiança na Providência divina que ofereceu constantemente, assim como a sua fidelidade à Sede de Pedro e o generoso serviço eclesial como íntimo colaborador e benemérito sucessor". E quando no dia seguinte saía de rezar na capela ardente, ao ver que lhe agradeciam ter lá ido respondeu, em italiano, que o considerava um dever: "Si doveva, si doveva", foram as suas palavras.

Grande devoto de Nossa Senhora, incitava-nos  a metê-la “em tudo e para tudo”, a fim de melhor correspondermos aos desígnios de Deus Encomendemos-lhe todas as situações da vida, incluindo as mais contraditórias. Com o seu olhar calmo e sereno, lá do Céu, não deixará de nos atender.

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