12 de janeiro de 2014

Do Pároco

     
A conversão
      Uma notícia referida há pouco por alguns meios de comunicação social e ignorada por outros, informou-nos de que numa igreja próxima da Basílica de S. Pedro em Roma, passarão a confessar altas figuras da Cúria Romana, entre as quais se conta o próprio papa Francisco. Este sacramento tem sido, por vezes, ignorado por uma parte dos católicos dos nossos tempos. Para alguns, uma atitude de fé superior, adulta, parece dar a cada um dos fiéis autoridade para pedir a Deus directamente perdão pelos seus pecados, isentando-os de recorrer a uma confissão formal. Para outros, o desleixo nas suas relações com Deus, leva-os a tratar as suas faltas como uma espécie de relíquias que repousam na consciência sem qualquer relevância para a sua vida cristã. Por outro lado, invocam a cautela que se deve ter com a confissão, não vão aparecer escrúpulos e tornar a pessoa que se reconcilia como um ser complicado, hesitante, despersonalizado, vítima de inquietações e de receios desnecessários, ou mesmo patológicos.

Em ambos os casos, manifesta-se uma desconfiança na capacidade de Nosso Senhor conhecer a nossa natureza – que Ele próprio criou – e de lhe dar os meios que são mais adequados para se poder viver em paz e tranquilidade. Negar que os pecados são importantes e causa de muitos comportamentos constrangentes e perniciosos para todos nós é o mesmo que negar uma evidência. Se os tratamos com consideração, isto é, se os justificamos como uma espécie de conduta inevitável, acabamos por contemporizar com situações reprováveis que causam na vida social problemas complexos e destrutores de realidades fundamentais como a fidelidade matrimonial, a estabilidade da família, a educação dos filhos, o trabalho honesto, as boas relações sociais, etc.

Jesus não instituiu o sacramento da penitência para nos complicar a vida. Pelo contrário: quis que ele fosse o meio habitual de apaziguamento da consciência, confiando que o reconhecimento das nossas faltas e a sua confissão a Quem os pode e quer perdoar seria o mais eficaz remédio para as nossas dificuldades. Lembremo-nos que Deus é um verdadeiro Pai que perdoa, seja qual for a gravidade da ofensa que Lhe façamos. Ao lermos a parábola do filho pródigo, que outra conclusão poderemos tirar? E o que dizer de Cristo na Cruz, que pede ao Pai perdão por aqueles que O condenaram à morte, O enxovalharam, O denegriram, O humilharam até ao extremo. A sua preocupação é que o Pai lhes perdoe, “porque não sabem o que fazem”. 

Nesta perspectiva, compreenderemos a resposta de Jesus a Pedro, quando ele Lhe pergunta, de acordo com os rabis hebreus mais generosos, se devia perdoar até sete vezes. A resposta é taxativa: deverá multiplicar esse número por setenta, querendo com isto significar que o perdão divino é constante, desde que, obviamente, nós tenhamos a coragem e a humildade de lho pedir com arrependimento.

Certamente que a Igreja nos lembra, como boa Mãe, que devemos confessar-nos, ao menos, uma vez por ano, pela Páscoa da Ressurreição, com obrigatoriedade de indicar os pecados graves que cometemos. Mas é um esforço mínimo que ela nos sugere. O que seria de nós se apenas acudíssemos ao banho higiénico do nosso corpo uma vez por ano, apenas com a obrigação de lavar as zonas ou as manchas mais chamativas e mais perniciosas para a saúde?

O hábito virtuoso da confissão frequente – o Papa Francisco indicou há pouco publicamente, com a sua simplicidade habitual, que se confessava cada quinze dias – é um meio objectivo de colocar as nossas relações com Deus no bom caminho. Com ele, retiramos da nossa alma as manchas que a tornam mais opaca à penetração da graça de Deus, aumentamos a visão sobrenatural que devemos ter perante  todas as situações e circunstâncias da nossa vida, nomeadamente se são dolorosas ou difíceis de enfrentar e receberemos a graça própria deste sacramento, que nos ajuda a ser mais fortes na luta pela santidade..
Então o repetido “Ano novo, vida nova”, torna-se no mais empenhativo “Ano novo, luta nova”, expressão que mais agradava a S. Josemaria. Neste princípio de Janeiro, façamos o propósito de nos abeirarmos da confissão com regularidade e frequência, ajudados por  nossa Mãe, Maria Santíssima, que nos dará a força e a persistência necessárias para viver bem este compromisso. 

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