5 de setembro de 2013

Do Pároco

                 
Imagem: O bom samaritano
   Estamos a recomeçar um ano laboral, num país assolado pelo desemprego e por fortes dificuldades económicas, que trazem muitas famílias em situações de verdadeira perplexidade.

     Temos de confiar no futuro, que a Deus pertence, como diz o povo, mas que deve contar com o esforço de todos para que melhore substancialmente. Não se pode ficar indiferente perante as necessidades alheias. A “crise”, como lhe chamamos, não deve deixar a todos paralisados, a pensar nos seus haveres de uma forma egoísta e com um temor de os perder que assume, muitas vezes, autênticas proporções patológicas. 

    É óbvio que cada um tem de pensar como viver pagando mais impostos e com os preços a disparar e a atrofiar o orçamento familiar. Mas o que não é moralmente correcto é, por causa desta situação, esquecer-se dos outros e olhar a realidade como o avarento de Molliére, ou como aquele que, nos tempos em que fumar era mais liberal, escondia os seus cigarros com medo de “ser cravado” por algum colega a quem tinha acabado, pontualmente, a sua provisão de tabaco.

    Felizmente que há muita gente generosa entre nós, como aquela paroquiana que se referiu no mês passado: por se ter empregado e melhorado a sua situação económica, teve a seriedade de renunciar ao quinhão de auxílio alimentar que a paróquia lhe fornecia mensalmente, a favor de alguém mais necessitado. Se não fosse honesta e generosa, tomaria a mesma atitude do fumador: calar-se-ia e acumularia em sua casa o que conseguia com o seu salário, ajuntando o que a caridade dos outros lhe oferecia, supondo que necessitasse dela como de “pão para a boca”.

    Se, com medo da crise, nos esquecemos que todos são filhos de Deus e têm a estima do Senhor, tanto quanto nós, estamos a praticar uma espécie de racismo classista, querendo que Deus nos ajude e nos salve, e ignorando a sorte daqueles que são atormentados com a carência económica e vivem momentos de angústia e atropelo. Não são filhos de Deus como nós? Deus não os estima? A sua sorte terá a ver com uma espécie de desprezo divino para com os necessitados? Deus é Pai e padrasto no mau sentido ao mesmo tempo?

   Os desacertos económicos são habitualmente ocasionais e revercíveis. No entanto, não podemos deitar-nos na sesta do sofá do nosso egoísmo e deixar que os outros resolvam as coisas, como se eu não tivesse nada a ver com os problemas que me cercam. E atiramos tudo para os outros, nomeadamente para o estado, o poder político, ou ainda para as instituições da Igreja que se dedicam a obras sócio-caritativas. Aforro assim os meus haveres, trato-os como objecto de estimação e de cautela e os outros que cuidem de fazer o mesmo. Melhor dito: tem de haver outros que cuidem destes problemas, mas eu não, porque não são da minha especialidade e competência. 

   Não sejamos hipócritas. Quando aforro ou acautelo o que tenho, decerto que vivo a virtude da prudência. Devo precaver-me e defender as responsabilidades que contraí para comigo e para com quem é o meu próximo mais directo: família, amigos, etc. Mas não enveredemos por uma falsa prudência ou “prudência da carne”, que nada tem a ver com a justiça, porque transforma o que é virtuoso num círculo vicioso que começa em mim, à volta de mim gira e acaba em mim, como centro e referência única. Os outros ficam de fora, porque não dizem respeito ao mundo egocêntrico que eu fabriquei com a minha imaginação.

    Lembremo-nos da parábola do bom samaritano. Havia razões mal interpretadas para que os dois primeiros passantes não socorressem quem estava carente dum auxílio urgente. Só o samaritano tem compaixão.

    Há muita gente a precisar desse auxílio urgente neste momento. Os bens que Deus pôs à disposição dos homens são fartos, embora precisem de ser distribuídos por todos equitativamente. E, na medida das possibilidades que cada um tenha, mesmo mínimas, não as posso esquecer e, muito menos, desprezar, ou, duma forma superficial, ignorar. Em jogo sempre descobriremos o nosso egoísmo. Abramos o coração a horizontes de generosidade.

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