1 de junho de 2013

Do Pároco

Imagem: Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria
“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Estas palavras do Senhor, proferidas publicamente diante dos apóstolos e de muitos discípulos que o escutavam, podem “chocar-nos” pela sua frontalidade. Se fosse dito por qualquer um de nós, escandalizaríamos quem nos ouvisse, pois considerar-nos-iam presunçosos e soberbos. E com razão, porque as nossas acções não são sempre as mais adequadas e reflectem uma dimensão que está sempre unida aos pecados que fazemos. Não somos intocáveis. O ferrete das nossas faltas, mais ou menos graves, sempre acompanham a conduta do dia a dia.
    Jesus teve a coragem de se pôr como exemplo a seguir. A sua afirmação não deixa dúvidas: no seu coração existem duas virtudes que apreciamos nos outros e que, por desejo, gostaríamos que outros apreciassem em nós. Mas quem se sente impecável, como o Senhor, deve afirmá-lo de forma tão categórica? Não será isso um sintoma de soberba ou de vaidade?
    O comportamento de Jesus é a prova mais transparente da sua humildade e da sua mansidão. Nos momentos da vida em que elas foram postas à prova, sobressaem dum modo claro e nítido. Pensemos, em primeiro lugar, na sua oração no Jardim das Oliveiras, quando se “enfrenta” com Deus Pai e Lhe pergunta se é possível que tudo o que vai sofrer na sua Paixão e Morte na cruz possa não acontecer. Logo a seguir, sobrepõe à sua vontade a vontade de Deus, apesar dos horrores e do sofrimento – físico e psicológico – que a sua aceitação implica: “Não se faça, porém, a minha vontade, mas a tua” (Mt 26, 39).
Ensina-nos, ao fim e ao cabo, que Deus sabe mais e melhor a nosso respeito daquilo que é verdadeiramente conveniente para a nossa santificação, isto é, para atingirmos a verdadeira felicidade. Pode parecer-nos que a violência de algumas situações não possa ser querida por Deus. Esquecemo-nos, porém, que o que Ele nos pede tem sempre em vista o nosso fim último ou a felicidade eterna. Esta é um bem – o único e verdadeiro bem – que deve orientar a nossa existência. Por tendência resultante da desorganização em que se encontra a nossa natureza – ferida ou decaída desde o pecado original –, esquecemo-nos muitas vezes de que aqui não temos morada permanente, como lembrou o Apóstolo Paulo, e queremos fazer da vida terrena uma espécie de paraíso onde tudo corre bem, onde o sofrimento não existe e com uma duração interminável. 
    As desilusões e as frustrações são originadas por este logro, pelo que, para se ser verdadeiramente feliz, é necessário que aceitemos o que Deus permite que aconteça, sabendo de antemão que o amor que Ele tem por nós é perfeito e não admite qualquer pitada de mal que nos prejudique realmente. A aceitação da vontade divina exige a humildade que Jesus viveu nessa situação tão dramática que acabámos de considerar.
    A mansidão do coração de Cristo é retratada da maneira mais pedagógica nas horas da cruz. Os seus companheiros de suplício sentem-se frustrados e, por isso, insultam-no, pedem-Lhe sarcasticamente que os tire daquele lugar. Jesus está calado e reza. Pede ao Pai para perdoar a quem O condenou, esquecendo milhares de agravos e ofensas que sofreu no julgamento, na flagelação e, depois, no percurso até ao Calvário. Um dos condenados, perante a atitude sofredora de Cristo, converte-se, convencendo-se de que aquele homem só pode ser um justo. E Jesus prossegue o seu caminho de serenidade, continuando a orar intensamente. Não pensa em Si, mas no bem dos outros. A tal ponto, que Se desprende da sua condição de Filho único de Maria e pede a sua Mãe para se tornar Mãe de todos os homens na pessoa de João Evangelista. Ela aceita tal proposta com total voluntariedade. O coração de Maria, com este gesto, revê-se no coração de Jesus, que ofereceu a sua vida pela salvação de todos os homens. Como poderia recusar-Lhe um pedido que se inseria na missão redentora do Filho?
    O mês de Junho, tradicionalmente, é dedicado pela Igreja à devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Procuremos tirar todo o partido desta devoção, pensando se estamos a aprender bem as lições de humildade e mansidão que Ele constantemente nos dá. E peçamos ao Imaculado Coração de Maria, que nos ensine a modelar o nosso próprio coração com essas virtudes, que ela procurou incutir no Coração do seu Filho com o amor maternal com que sempre tratou Jesus

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