11 de fevereiro de 2013

Do Tesouro da Igreja

          Sobre a Quaresma:   
   
    Francisco Fernandez Carvajal, Falar com Deus – Meditações para todo o ano, Vol. 2, Ed. Quadrante, S. Paulo, 1995, p. 7-9

      Começa hoje a Quaresma, tempo de penitência e de renovação interior para prepararmos a Páscoa do Senhor (1). A liturgia da Igreja convida-nos com insistência a purificar a nossa alma e a recomeçar novamente.
      Diz o Senhor Todo-Poderoso: Convertei-vos a Mim de todo o vosso coração, com jejum, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai os vossos corações, não as vossas vestes; convertei-vos ao Senhor vosso Deus, porque Ele é compassivo e misericordioso...(2), lemos na primeira leitura da Missa de hoje. E quando o sacerdote impuser as cinzas sobre as nossas Caneças, recordar-nos-á as palavras do Génese: Memento homo, quia pulvis es...” Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás-de tornar (3).
      “Memento homo...”Lembra-te... E, não obstante, ás vezes esquecemos que sem o Senhor não somos nada. “Sem Deus, nada resta da grandeza do homem salvo este montinho de pó sobre um prato, numa ponta do altar, nesta Quarta-feira de Cinzas, com o qual a Igreja nos deposita na testa como que a nossa própria substância” (4).
      O Senhor quer que nos desapeguemos das coisas da terra para que possamos dirigir-nos a Ele, e que nos afastemos do pecado, que envelhece e mata, e retornemos à fonte da Vida e da alegria. “O próprio Jesus Cristo é a graça mais sublime de toda a Quaresma. É Ele quem se aproxima de nós na simplicidade admirável do Evangelho “ (5).
     Dirigir o coração a Deus, converter-se, significa estar dispostos a empregar todos os meios como Ele espera que vivamos, a não tentar servir a dois senhores (6), a afastar da vida qualquer pecado deliberado. Jesus procura em nós um coração contrito, conhecedor das suas faltas e pecados e disposto a eliminá-los. Então lembrar-vos-eis do vosso proceder perverso e dos vossos dias que não foram bons...(7). O Senhor deseja uma dor sincera dos pecados, que se manifestará antes de mais nada na Confissão sacramental: “Converter-se quer dizer procurar novamente o perdão e a força de Deus no sacramento da reconciliação e assim recomeçar sempre, avançar diariamente” (8).
      Para fomentar em nós a contrição, a liturgia de hoje propõe-nos o salmo com que rei David manifestou o seu arrependimento, o mesmo com que tantos santos suplicaram o perdão de Deus. Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade. E, segundo a imensidão da vossa misericórdia, apagai a minha iniquidade, dizemos a Jesus com o profeta real.
      Lavai-me totalmente da minha falta e purificai-me do meu pecado. Somente contra Vós pequei.
      Ó meu Deus, criai em mim um coração puro e renovai-me o espírito de firmeza. Não me  expulseis para longe do vosso rosto, não me priveis do vosso santo espírito.
      Restituí-me a alegria da salvação e sustentai-me com uma vontade generosa. Senhor, abri os meus lábios a fim de que a minha boca anuncie os vossos louvores (9).
      O Senhor nos atenderá se no dia de hoje repetirmos de todo o coração, como uma jaculatória: Ó meu Deus, criai em mim um coração puro e renovai-me o espírito de firmeza. 
      O Senhor também nos pede hoje um sacrifício um pouco especial: a abstinência e, além dela, o jejum, pois o jejum “fortifica o espírito, mortificando a carne e a sua sensualidade; eleva a alma a Deus; abate a concupiscência, dando força para vencer e amortecer as suas paixões, e prepara o coração para que não procure outra coisa, senão agradar a Deus em tudo” (10). (...) A Igreja pede-nos também que pratiquemos a esmola, que, oferecida com um coração misericordioso, deseja levar um pouco de consolo aos que passam por privações ou contribuir, conforme as possibilidades de cada um, para uma obra apostólica que visa o bem das almas... (11)
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(1) Cfr. Conc. Vat. II, Const. Sacrossantum Concilium, 109 ; (2) Gén 3, 19; (4) J. Leclercq, Siguiendo el año litúrgico, Madrid, 1957, p. 117; (5) João Paulo II, Homillia de Quarta-feira de Cinzas, 28-II-1979; (6) Mt 6, 24; (7) Ez 36, 31-32; (8) João Paulo II, Carta Novo Incipiente, 8-IV- 1979; (9) Sl 50, 3-6.12-14.17; (10) S. Francisco de Sales, Sermão sobre o jejum; (11) S.Leão Magno, Liturgia das Horas, segunda leitura de Quinta-feira depois das Cinzas.

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