3 de dezembro de 2012

Do Pároco

Imagem: Lotto Lonrezo. Natal
Com a crise económica que grande parte do mundo está a viver – e nós, portugueses, conhecemos bem os contornos dessa realidade tão dura – é possível que entre no nosso coração uma espécie de depressão contagiante, que retire o optimismo, a segurança, a paz, o gosto por viver e a confiança no futuro.

    Sentimos uma espécie de necessidade incontornável de gemer lamentações, que, se não tivermos cuidado, pode transformar-se numa forma sub-reptícia de egoísmo pessoal. “Não há nada a fazer”, “isto vai de mal a pior”, “a injustiça é inevitável”, “sei lá se vou dar esmola a um aldrabão” etc., etc., etc...

    O pessimismo não é cristão. Manifesta uma falta de confiança na justiça divina, um esquecimento imperdoável de que a verdadeira felicidade não pertence a este mundo, e oculta que a nossa atitude não leva a alegria a ninguém. É cómodo lamentar-se, mas nada resolve e como que “perdoa” que vivamos encafuados em nós mesmos, com esquecimento de que nos devemos “amar uns aos outros” como Jesus nos amou. Pensamos em nós, procuramos o menor número de compromissos generosos possíveis e vivemos como se fôssemos um falso Noé, que se embaúca numa arca, a fim de nos safarmos – a nós, sem pensar nos outros – do dilúvio de desgraças em que se transformou o mundo em que vivemos.

    No próximo dia 25, comemoramos o dia de aniversário da Pessoa que menos conformista se manifestou com as maldades do homem e as suas crises, com o seu egoísmo, o seu desejo de poder tirânico, a insensibilidade dos que só pensam em si e no seu lugar na humanidade, os escandalizadiços com quem faz o bem, os críticos de tudo e de todos com excepção de si mesmos e, bem assim, com os pobres que não têm que comer, os que estão doentes, etc.

    A todos eles tratou, com todos eles se enfrentou, não de modo violento, mas procurando convencer que é possível viver em concórdia e em paz, observando, no entanto, que não devemos andar atrás dos tesouros que a traça pode corroer, ou seja, os bens deste mundo como objectivo fundamental, pois são caducos por natureza. A nossa perspectiva de felicidade tem de se fundamentar naqueles tesouros que nos levam à vida eterna. Estes, como Jesus observava, não são corroídos pelas traças tão destruidoras desta terra onde vivemos de momento.

    Reparemos que o Senhor não quis aparecer na sua Encarnação como um ET esquisito, vindo duma região etérea e misteriosa, ou um personagem real a quem todos prestassem homenagem pelo mero facto de ter nascido. Foi uma criança inerme e pobre, um bebé recém-nascido, que teve nos seus pais terrenos os principais educadores: alimentaram-nO enquanto foi necessário à sua sobrevivência, ensinaram-nO a falar, a rezar a Iavé, a lidar com os outros, a portar-Se socialmente de acordo com as normas de boa educação do seu tempo e dos seus coetâneos e, com o crescer da idade, a trabalhar como artesão para os ajudar a ganhar a vida simples na aldeia de Nazaré. Por maternidade, conheceu um curral de animais, pois Maria e José, naqueles momentos críticos e prévios ao seu nascimento, não foram admitidos na estalagem, certamente muito concorrida na altura, porque eram uma espécie de “Zés Ninguém”, forasteiros simplórios e humildes, que não mereciam a atenção de qualquer atitude excepcional.

    Jesus não precisou das riquezas nem dos pelouros sociais deste mundo para fazer valer a sua doutrina, o seu exemplo, a sua Pessoa, a nossa Redenção. Pelo contrário, a insignificância inicial com que surge na Palestina e a sua pobreza optativa são um exemplo e um acicate para todos nós pensarmos seriamente que, do mesmo modo que Jesus Se entregou à salvação de todos os homens de todos os tempos, também nós não podemos ignorar os outros, sobretudo nestes momentos os mais necessitados economicamente, que mereceram tanto o seu Sangue redentor na Cruz como as mais importantes figuras da humanidade. Decerto que Jesus nos recomenda que evangelizemos para tornarmos acessível o Reino dos Céus a todos e não nos deixemos prender pelas riquezas terrenas. Mas jamais esqueçamos que a condição de carência material com que vivem vizinhos nossos pode ser uma forma de, nesta quadra natalícia, vivermos a caridade, socorrendo-os no que mais precisarem. Quando o Senhor Se deparou com uma multidão faminta fez a multiplicação dos pães, sinal taxativo de que o seu bem estar material, naquela situação, mereceu o seu poder de realizar um milagre.

    Que bela ocasião para olharmos para a pobreza de Jesus no seu presépio e pensarmos nos que sofrem carências económicas tão grandes actualmente. Não poderemos acudir-lhes com a generosidade do nosso contributo? Se o fizermos, como é nossa obrigação, sentiremos pena e até vergonha das vezes em que, com um pessimismo doentio e inoperante, nos transformamos num simulacro do “Muro das Lamentações”, atribuindo ao Estado as falhas sociais, aos outros a incapacidade de serem generosos e a nós a impossibilidade de fazermos o que quer que seja, porque os “tempos actuais são muito maus”.

    Um Santo Natal para todos, incluindo para aqueles que, por negligência eventual nossa, não puderem festejar condignamente, também com um conforto material mínimo, os anos de Jesus!

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