8 de setembro de 2012

Do tesouro da Igreja


A Mãe de Cristo estava junto à cruz (*)

    O martírio da Virgem é recordado tanto na profecia de Simeão como na história da paixão do Senhor. Diz o santo ancião acerca do Menino Jesus: Este foi predestinado para ser sinal de contradição; e referindo-se a Maria, acrescenta: E uma espada trespassará a tua própria alma.

    Na verdade, santa Mãe, uma espada trespassou a vossa alma. Porque nunca ela podia atingir a carne do Filho sem atravessar a alma da Mãe. Depois que aquele Jesus – que é de todos, mas especialmente vosso – expirou, a cruel lança que lhe abriu o lado, sem respeitar sequer um morto aquém já não podia causar dor alguma, não feriu a sua alma mas atravessou a vossa. A alma de Jesus já não estava ali, mas a vossa não podia ser arrancada daquele lugar. Por isso a violência da dor trespassou a vossa alma, e assim, com razão Vos proclamamos mais que mártir, porque os vossos sentimentos de compaixão superaram os sofrimentos corporais do martírio.

    Não foi, porventura, para Vós mais que uma espada aquela palavra que verdadeiramente trespassa a alma e penetra até à divisão da alma e do espírito: Mulher, eis o teu Filho? Oh que permuta! Entregam-Vos João em vez do Mestre, o filho de Zebedeu em vez do Filho de Deus, um simples homem em vez do verdadeiro Deus. Como não havia de ser trespassada a vossa afectuosíssima alma ao ouvirdes estas palavras, quando a sua lembrança despedaça o nosso coração, apesar de ser tão duro como a pedra e o ferro?

    Não vos admireis, irmãos, de que Maria seja chamada mártir na sua alma. Admire-se quem não se recorda de ter ouvido Paulo mencionar entre as maiores culpas dos pagãos o facto de não terem afecto. Como isso estava longe do coração de Maria!
    Mas talvez alguém possa dizer: “Porventura não sabia Ela que Jesus havia de morrer?” Sem dúvida. “Não esperava Ela que Jesus havia de ressuscitar?” Com toda a certeza. “E apesar disso sofreu tanto ao vê-Lo crucificado?” Sim, com terrível veemência. Afinal, que espécie de homem és tu, irmão, e que estranha sabedoria é a tua, se te surpreende mais a compaixão de Maria do que a paixão do Filho de Maria? Ele pôde morrer corporalmente e Ela não pôde morrer com Ele em seu coração? A morte de Jesus foi por amor, aquele amor que nenhum homem pode superar; o martírio de Maria teve a sua origem também no amornado qual depois do de Cristo, nenhum outro amor se pode comparar.  
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(*) Dos sermões de S. Bernardo, abade (Século XII). (Sermo in dom. infra Assumptionis, 14-15.)

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