9 de agosto de 2012

Do pároco


   Cristo veio à terra para tornar o homem capaz de, novamente, poder cumprir o fim para que Deus o criou: ser feliz, para sempre, participando da felicidade perfeita das três Pessoas da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Para o efeito, tornou todos os homens filhos de Deus, herdeiros do Céu. 

   Mas quis mais: facilitar a todos nós caminhos que nos ajudam a ir para a sua companhia, na vida eterna. Fundou a Igreja, que é a dispensadora das mesmas acções de salvação que Cristo, na sua passagem pela terra, podia facultar com a sua autoridade divina. O perdão dos pecados, a doação do seu Corpo, Alma e Divindade como alimento espiritual no Sacramento da Eucaristia, o Baptismo que nos torna filhos de Deus, perdoa as consequências gravosas do pecado original na nossa alma e nos faz beneficiar de toda a graça que Ele nos pode dar através do Espírito Santo, etc. 

   O cristão, por todo o Amor que Deus manifesta por ele, deve ter uma atitude optimista e constructiva perante a realidade, mesmo quando esta se apresenta difícil de aceitar ou de suportar. Que pode temer um filho de Deus, se tem o seu Pai a acariciá-lo com tantas manifestações de amor e de carinho, quer com a sua providência ordinária, quer com outras actuações inesperadas, onde o Senhor mostra que não nos esquece e tem em conta as nossas necessidades? Lembremo-nos da multiplicação dos pães que Jesus realizou e tantos outros milagres que fez e continua a fazer, sempre que é absolutamente necessária uma intervenção extraordinária. 

   À atitude optimista e constructiva que se referiu deve corresponder, da parte do cristão, em primeiro lugar, a um sentido de agradecimento profundo pelas possibilidades que nos concedem as nossas potencialidades humanas para resolver os problemas, mesmo à custa de esforço e persistência. Com a nossa inteligência, a nossa vontade, a nossa afectividade e as forças que o nosso corpo nos dá, tantas coisas que se podem realizar! Decerto que o cristão deve pôr toda a sua confiança na ajuda divina, que a graça nos confere, para empreender sempre o que é necessário com rectidão de intenção, isto é, nada fazendo sem que Deus permita e queira. A intenção principal de toda a nossa actuação deve ser corresponder à vontade de Deus, porque só esta é perfeita em si mesma e nada tem de inadequado ou de inconveniente. Recordemos que Jesus ensinou que quem quiser ser seu discípulo tem de pegar na sua cruz de todos os dias. E Ele mesmo, no Jardim das Oliveiras, se enfrentou respeitosamente com o Pai, perguntando-Lhe se era absolutamente necessário sofrer o que previa da sua Paixão e Morte na Cruz. E o que dizer da grande quantidade de mártires que a história da Igreja nos mostra, ao longo dos últimos dois milénios, incluindo o século passado, tão fértil nesta forma de dar a vida por Cristo, sobretudo com as vítimas das perseguições do comunismo e do nazismo? 

   Perante situações tão dolorosas como esta que estamos a viver com a consabida “crise económica”, a nossa atitude não deve, nem por um momento, deixar-se levar pelo pessimismo e a apatia, que habitualmente se casam e são fruto do egoísmo e do comodismo. É tão fácil lamentar-se e criticar, atirando para os outros, sobretudo para os políticos, as culpas de tudo e de todos. Talvez com alguma razão. Mas tem algum sentido cruzar os braços e nada fazer? Deus estará, lá em cima, no Céu, como um Pai desnaturado, indiferente ao sofrimento dos seus filhos, apenas a gozar da sua felicidade perfeita e eterna? 

   Não sejamos injustos com o nosso Pai. Ele indicará os caminhos que devemos trilhar para solucionar, ou, pelo menos, atenuar, as consequências desta situação que deixa tantos pais, que até há pouco punham a mesa do seu lar com o necessário para os filhos comerem, mas que agora, ou não o conseguem fazer, ou, pelo menos, têm de ser muito mais modestos naquilo que podem oferecer. 

   Há problemas? Não nos lamentemos inutilmente. Rezemos para que as situações melhorem. E, tanto quanto estiver ao nosso alcance, púnhamos algo de lado, mesmo com dificuldade, para que os outros gozem duma melhor sorte. Auxiliemos as instituições de solidariedade social – e há tantas e tão boas que a caridade dos membros da Igreja organiza! –, inscrevamo-nos nas acções de solidariedade e de voluntariado, dando o nosso tempo e o nosso contributo para as tornar mais eficazes. 

   Não estejamos insensíveis, como estátuas impotentes. Sejamos verdadeiramente humanos com os outros, vivendo as exigências de caridade que o facto de todos sermos filhos de Deus nos exigem. E recorramos à protecção e auxílio de Nossa Senhora que sabe bem como dói a Cruz, porque esteve, como boa Mãe, a ajudar o seu Filho a suportá-la e a levar até ao fim a incumbência que o seu Pai Lhe pediu. Não esqueçamos: foi no Calvário, junto da Cruz, que Maria se tornou nossa Mãe! Quanta dor sofreu e como entende que a dor é redentora! Está, por isso, atenta às necessidades dos seus filhos, nomeadamente dos que a sofrem agora de um modo que, até há pouco tempo, nos parecia superado, de forma definitiva, pela sociedade humana!

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