3 de março de 2012

Coisas práticas: A SANTA MISSA (IV)



   No Cenáculo, Jesus antecipou sacramentalmente a morte e a ressurreição que actualiza ao longo dos tempos na Missa, também de modo sacramental: o coração foge para lá.

   “Bendito sejais, Senhor, Deus do universo” pelos dons da criação que entregamos e que se converterão no seu Corpo e Sangue. Para simbolizar todos – materiais e espirituais – Jesus escolheu dois alimentos, elaborados pelo homem: “frutos da terra e do trabalho do homem”.

   Escolheu o pão e o vinho, um básico e outro mais característico da alegria das festas. Não se trata só de sobreviver mas da razão de ser da nossa existência, da Vida eterna: “Venho para que tenham vida e a tenham em abundância” (cf. Jo 10,10), disse Jesus.

   "Neste gesto humilde e simples, encerra-se um significado muito grande: no pão e no vinho que levamos ao altar, toda a criação é assumida por Cristo Redentor para ser transformada e apresentada ao Pai" (Bento XVI, Sacramentum caritatis, 47).

   A Missa é holocausto, sacrifício universal, cósmico, onde se restitui a Deus a criação afastada pelo pecado, por meio dos fiéis em união com Cristo. É resgate de todas as tribos e línguas e povos e nações (cf. Ap 5,6).

   “Levamos ao altar também todo o sofrimento e tribulação do mundo, na certeza de que tudo é precioso aos olhos de Deus. Este gesto não necessita de ser enfatizado com descabidas complicações para ser vivido no seu significado autêntico. Permite valorizar a colaboração originária que Deus pede ao homem para realizar nele a obra divina e dar assim pleno sentido ao trabalho humano que, através da celebração eucarística, fica unido ao sacrifício redentor de Cristo” (Bento XVI, Sacramentum caritatis, 47).

   Compete aos cristãos conseguir que o Evangelho ilumine os ambientes de trabalho, familiares e sociais, elevando Cristo ao cume de todas as actividades da terra. Por outro lado, tudo o que é recto na vida da humanidade faz parte da oferenda, é "hóstia viva, santa, grata a Deus: este é o vosso culto racional" (Rom 12,1). Do lugar onde estivermos, podemos colocar o que fazemos na patena e no cálice dando-lhe relevo sobrenatural, valor corredentor. Assim Jesus irá juntando a Si tudo o que de bom vá surgindo até ao Fim do Mundo.

   Graças ao sacerdócio comum, baptismal, a entrega de cada fiel é assumida na de Cristo, e "Deus Pai, ao olhar a oferenda da Cabeça unida ao Corpo místico, não quer distinguir entre Jesus e nós: em tudo contempla o amor e a obediência do Filho muito amado, em que sempre se compraz" (cf. Vivir la Santa Missa, Javier Echevarría, pág. 85).

   O que se possa unir ao sacrifício de Cristo é como gotas de água que se unem ao vinho e pouco o alteram mas, na Missa, são o que a petição do celebrante diz em voz baixa, ao deitá-las no cálice: “Pelo mistério desta água e deste vinho sejamos participantes da divindade d’Aquele que assumiu a nossa humanidade". Deus quer tornar-nos uma só coisa com Ele para nos conduzir ao Pai por meio do Paráclito. Daí provém a fortaleza necessária para a coerência cristã, quer nos martírios, quer nas circunstâncias da vida corrente.

   Perante tanta grandeza, brotam sentimentos de humildade que a oração do celebrante explicita quando se inclina dizendo em voz baixa: "De coração humilhado e contrito sejamos recebidos por Vós, Senhor. Assim o nosso sacrifício seja agradável a vossos olhos". E depois, purificando os dedos: "Lavai-me, Senhor, da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado".

   Por fim, antes da Oração final, um diálogo vem lembrar a importância de uma participação intensa de cada um para se identificar com Cristo: "Orai, irmãos, para que o meu e vosso sacrifício seja aceite por Deus Pai todo-poderoso". E, a uma só voz e pondo-se de pé, como sublinhando a sua plena participação na acção litúrgica, a resposta: "Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício, para glória do seu nome, para nosso bem e de toda a santa Igreja".

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