11 de fevereiro de 2012

Do Pároco

Vivemos frequentemente com o nosso olhar fixo nas coisas materiais, como se elas fossem as únicas que Deus deixou para nós. Decerto que não podemos descurá-las. São dádivas que o Senhor pôs à nossa disposição para nos servirmos e vivermos. No entanto, não são as únicas e nem sequer as mais importantes.

considerava S. Paulo que, aqui, neste mundo, não temos morada permanente, salientando que o nosso fim não é terreno, porque nos espera o Céu, onde Deus, a Trindade Santíssima, nos quer e para ele nos criou.

Para que a nossa existência não seja um contínuo dobrar os joelhos perante o mundo material, precisamos de ter em conta uma virtude muito apreciada, alicerçando na a sua vivência concreta. Fala-se da virtude do desprendimento, que tem uma relação muito íntima com a pobreza. Não a pobreza resultante das desigualdades sociais, da distribuição das riquezas, da falta de emprego, das injustiças, das guerras, ou das chagas humanas do alcoolismo, da droga, da ignorância, etc. Mas daquela que é assumida voluntariamente, a fim de que não nos deixemos subjugar pelo que os bens materiais nos podem oferecer e têm de atractivo.

As coisas, como atrás referíamos, são uma dádiva divina que devemos usar, sempre contando que elas são boas em si mesmas, se o seu uso nos conduz ao céu; e más se nos atrasam essa meta ou no-la fazem esquecer, não desejar, ou mesmo não lhe dar a mínima importância.

Lembremos que o homem é capaz de “perder a cabeça” por um prato de lentilhas, como Esaú, irmão do Patriarca Jacob, segundo nos conta a Escritura. E evoco a consabida observação de um velho advogado, experiente nos conflitos humanos que nascem da forma mais inesperada, quando, um dia, um seu cliente lhe dizia que, felizmente, os membros da sua família eram muito unidos, pelo que nunca havia problemas entre si. Perguntou: “E já fizeram as partilhas?”

Vive-se o desprendimento, sempre que se trata a realidade material com aquela distância que nos permite servir-nos dela sem ficarmos seus escravos. É um meio de subsistência para a nossa salvação. Não a levamos para o outro mundo e acaba quando o nosso corpo deixar de ser animado pela alma.

A pessoa que se agarra de forma desmedida ao que é terreno, acaba por viver centrado em si, preocupado demasiadamente com o que tem e o que não tem, e esquecendo facilmente quem o rodeia e as suas necessidades. Vive como se Deus não fosse providente, incapaz de prestar atenção às necessidades dos seus filhos, e tudo o que consegue para aumentar os seus bens materiais dificilmente partilha com os outros, indiferente à sua sorte. Recordo, a este propósito, uma anedota ilustrada numa revista de humor, onde se via, por detrás de uma grande e rica janela, dois ou três homens fumando charutos, com grandes anéis nos dedos e alfinetes de gravata cheios de brilhantes. Fora, numa espécie de largo ou pequena praça, uma grande multidão com um aspecto esfaimado, gritava: “Haja justiça! Temos fome!” E um dos ricaços, olhando o seu relógio de oiro, observava para os seus colegas: “Têm razão. É uma hora da tarde. Vamos almoçar!”

Esta frieza caricatural é, naturalmente, condenável e ninguém gostaria de a ver nas atitudes que toma. No entanto, é bom que eu faça exame de consciência sobre as minhas disposições para com os outros e, bem assim, se me preocupo, nestes tempos de dificuldades, com quem sofre apertos económicos ou com quem não consegue, desde há algum tempo, fazer com tranquilidade aquilo que era uma regra habitual do seu dia a dia: ter dinheiro para dar de comer a toda a sua família.

Lembremo-nos dos desempregados, nomeadamente daquelas situações em que pai e mãe ficaram sem trabalho aos quarenta anos. Tanta gente que anda à procura de emprego, nessa faixa etária, e não o consegue. Não tenhamos a veleidade, como às vezes se ouve dizer por , de pensar que quem está desempregado é porque não quer trabalhar. Pura e simplesmente, não é verdade e não tem nada a ver com a realidade social dos nossos dias.

Amar o próximo como a nós mesmos” é mesmo um mandamento para tomar a sério. Não o posso pôr de lado, como se Deus estivesse a brincar com a realidade humana. E o mesmo se diga da obra de misericórdia material: “Dar de comer a quem tem fome”. Um cristão deve estar atento ao que se passa à sua volta. Não se pratica a caridade cruzando os braços e atribuindo ao estado ou às entidades que se dedicam à solidariedade social a resolução destes problemas.

Um cristão não pode nem deve ser insensível aos apuros dos outros. Se dificuldades, derramará a sua oração, a sua dedicação e, se lhe é possível e fugindo a todo o comodismo e egoísmo, a sua contribuição económica para ajudar a saldar alguma situação dolorosa.

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