2 de outubro de 2011

Do Pároco

Com o início do mês de Outubro, tudo parece voltar à normalidade. São as aulas que enchem as ruas de alunos e de juventude, o trabalho profissional que tantas horas de trabalho, de preocupações e de esforço vão custar a todo o que tem emprego e, por fim, como lado negro da vida, a plêiade forte de desempregados que busca vertiginosamente, por todos os meios, uma ocupação, percorrendo páginas e páginas de anúncios, acorrendo, ao mínimo sinal, a alguma entrevista que o enche de esperança... e, depois, de amargo sabor de boca, quando lhe dizem que não há trabalho para ele, que tem de aguardar até se tomar uma decisão que nunca mais surge, etc., etc., etc.

A situação não é nada fácil. Que o digam os serviços socio-caritativos das paróquias, que são procurados por muitos daqueles a quem o desemprego atacou como uma tenaz dura e dolorosa. A chamada pobreza envergonhada aumenta e, em todos nós, a obrigação de atender esses nossos irmãos desditados, certamente de acordo com as nossas possibilidades, que devem fundamentar-se numa generosidade verdadeira. Nunca foi mais urgente a vivência da virtude da caridade, que nos recorda que a velar por todos nós, existe o nosso Pai Deus, que sempre está atento às necessidades de cada um. Ele deu a todos nós a possibilidade de viver esta vida terrena com a dignidade própria do ser humano, criado à Sua imagem e semelhança.

O egoísmo, o comodismo, o ensimesmar-se sobre si mesmo, esquecendo os outros, produz sempre as disparidades entre os homens. E esta conduz à concentração da felicidade que podem dar os bens terrenos nas mãos de alguns, e à maior carência destes na maioria dos outros.

As soluções de justiça social, tão bem estruturadas na doutrina social da Igreja, parecem, por vezes, surgir aos olhos de muita gente como uma utopia irrealizável. E aos de outra, como um conjunto de regras para não se ter em conta, porque partem de princípios que nem todos aceitam e só obrigam os católicos. Supõe-se erradamente que a Igreja vive alheada das realidades terrenas tais como são. Ocultam-se ou despromovem-se os princípios da lei moral natural – que o Magistério procura sublinhar –, como se só as leis positivas tivessem valor de facto para obrigar, sem se cuidar dos seus fundamentos éticos.

Perante este panorama tão pouco animador, a resposta encontramo-la, clara e exigente, no testamento espiritual de Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Todo o ser humano foi criado por Deus à sua imagem e semelhança, pelo que todo o ser humano deve ser tratado com igual dignidade e apreço. As divergências são sempre acidentais e não podem alicerçar uma doutrina ou uma conduta de facção.

E a questão é esta: neste momento, há muitos filhos de Deus que sofrem de carências materiais graves, porque a situação é dura sob o ponto de vista económico. Abunda o desemprego, a carestia das necessidades mais essenciais torna inacessíveis a muitas famílias o que era preciso para o seu viver quotidiano com o mínimo de dignidade. Que fazer? Não é possível cruzar os braços. Pode ser cómodo, mas não é cristão. A caridade leva-nos a pensar nos outros, a tratá-los com o mesmo carinho e amizade com que nós gostaríamos de ser tratados, se estivéssemos em circunstâncias semelhantes. É uma obrigação gostosa que sentimos dentro de nós – obrigação que pode ser difícil de realizar na prática. A primeira arma que temos para amenizar esta questão é a oração: lembremo-nos diariamente dos necessitados. Mas não basta: se está ao meu alcance partilhar os meus bens com quem necessita deles, sejamos homens de boa vontade e desprendamo-nos das razões que sempre nos dá o nosso egoísmo, o nosso comodismo e o nosso bem-estar: Pensemos nos outros e ofereçamos-lhes aquilo que pudermos, sempre na esteira da generosidade.

“Quem dá aos pobres - lembra-me um aforismo da minha infância – empresta a Deus”. Ele nos facultará as maiores recompensas, se enfrentarmos as necessidades dos outros com a coragem que nos incute a caridade.

Imagem: A caridade de Jesus

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