4 de julho de 2011

Do Pároco

Com o mês de Julho, as férias, como tempo de descanso, surgem na sua plenitude. É bom lembrar que foi Deus o autor do descanso e, portanto, das férias. No Génesis, escreve-se que, após ter ultimado a obra da criação, Iavé, ao sétimo dia, descansou “de todo o seu trabalho”(Gén 2, 2). O homem, criado à sua imagem e semelhança (Gén 1, 27), também tem o direito de repousar das suas fadigas laborais. No entanto, há-de ter sempre presente que esse tempo não é só seu, porque foi Deus que o quis para ele, a fim de retemperar forças e poder recomeçar o seu dia a dia com mais capacidade.

As férias falam, portanto, da misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo, do seu perfeito conhecimento da nossa natureza, que necessita de um espaço de tempo mais ameno, onde mude de actividade e passe por cima das suas preocupações habituais. Como dom divino, não faz qualquer sentido passar as férias sem Deus, como se fosse possível metê-Lo num recanto da vida, votado ao esquecimento ou ao abandono. Seria, em primeiro lugar, uma injustiça para com Quem nos proporcionou a necessidade do descanso; e, por outro, uma atitude de orgulho de alguém que deseja viver com autonomia de Deus, sendo uma espécie de senhor absoluto de si mesmo.

Pelo contrário, as férias devem ser ocasião para uma melhoria acentuada das nossas relações com Deus, dedicando-Lhe mais atenção, por ventura com a leitura de algum livro que nos fale d’Ele e do seu Amor misericordioso para connosco e nos suscite um diálogo mais intenso e íntimo com as Três Pessoas da Santíssima Trindade. Há tempo de sobra para o fazermos. Recorramos ao auxílio de Nossa Senhora, sempre pronta a interceder por nós e a velar pelos nossos interesses, como boa Mãe que é, no Reino dos Céus.

Se nos lembramos de Deus em primeiro lugar, não esqueçamos quem é nosso próximo e filho de Deus. Não poderemos descansar com paz e serenidade se não nos dedicarmos aos outros, nomeadamente aqueles que têm relações mais chegadas connosco, quer por laços de família, quer por laços profissionais, quer por laços relacionais. Não devo enquistar-me em mim mesmo e tentar descansar só eu. O egoísmo muitas vezes busca compensações num fecharmo-nos em nós e desprezando quem nos rodeia.

Nas circunstâncias actuais da sociedade em que vivemos, não devemos pôr de lado quem necessita do nosso auxílio monetário. Os tempos de veraneio podem ajudar-nos a viver a virtude da pobreza. Ela começa por ser desprendimento das coisas, nomeadamente das coisas materiais.

Certamente que as férias permitem alguns gastos que não faço enquanto estou a trabalhar. Basta, por exemplo, pensar que, para me deslocar para um sítio diferente, poderei, por exemplo, gastar mais em viagens, comer mais vezes fora de casa, etc. Tudo isto é correcto, desde que não signifique um gasto perfeitamente desmesurado para o bom descanso meu, da família e das possibilidades que existem.

No entanto, é possível sempre poupar, vencendo o capricho de beber mais do que é necessário (não falamos de bebidas alcoólicas, porque as consequências seriam mais duras), ir a pé ou de transportes públicos, sempre que seja compatível com a deslocação da família, privar-se de um bilhete mais caro dum espectáculo, ficando num lugar mais modesto, etc. Se estas atitudes e decisões são acompanhadas por uma espécie de contabilidade em que eu vou juntando todas as poupanças realizadas em prol dos que são mais necessitados, e, inclusivamente, se ela puder ser vivida, de comum acordo, por todo os membros da família, dar-se-á um bom exemplo e viver-se-á o mandamento de amar o próximo como a nós mesmos. Eis um bom projecto familiar, onde, cada membro, ajudado pelos outros, se desprenderá de si mesmo e aprenderá de um modo natural a pensar seriamente nos outros. Boas férias!

Imagem: Ícone oriental do Sagrado Coração de Jesus

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