6 de junho de 2011

Do Pároco

Se olharmos para o calendário litúrgico deste mês, podemos apontar, por ordem cronológica, várias solenidades: Ascensão do Senhor aos Céus (Domingo, dia 5), Pentecostes (Domingo, dia 12), Santíssima Trindade (Domingo, dia 19), Santíssimo Corpo de Jesus (5ª Feira, dia 23), Nascimento de S. João Baptista (6ª Feira, dia 24) e, por fim, S. Pedro e S. Paulo, Apóstolos, (4ª Feira, dia 29). E em Lisboa, também o dia 13 (2ª Feira) recorda o seu filho mais notável, António (que se chamava no mundo, Fernando de Bulhões), e que nós designamos sempre como Santo António, um dos santos mais populares e conhecidos em todo o mundo católico.
Sendo difícil fazer uma escolha entre tantas possibilidades, lembramos ainda que este mês é dedicado pela Igreja à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que sabemos ser o modelo do que deve ser o nosso: “Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29), ensinou-nos o próprio Senhor. Por sinal, em 2011, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus só será festejada no primeiro dia de Julho, 6ª Feira, logo seguido pela celebração do Imaculado Coração de Maria, (Sábado, 2 de Julho), que foi o grande educador e o principal modelo, sob o ponto de vista humano, do Coração do seu Filho. Na verdade, se o coração define o que um homem é moral, espiritual e relacionalmente, ele não se apresenta assim dum modo espontâneo; é sempre fruto de um evolução progressiva, em que tem muita importância a forma e os padrões da sua educação.
Fixemo-nos no Domingo de Pentecostes. Admiremos a mudança profunda que se verificou nos apóstolos, após a recepção do Espírito Santo. Saem para o mundo exterior, deixando o Cenáculo, vencendo o medo e começam a pregar o que Jesus lhes tinha ensinado duma maneira em que podemos notar, imediatamente, uma compreensão da doutrina e da Pessoa de Cristo, que até então não tinham tido. O Espírito Santo, como que lhes ensinou o que haviam de dizer e como haviam de dirigir-se às pessoas para elas aderirem ao Senhor e compreenderem a sua mensagem. Efectivamente, como resultado desta primeira pregação, dizem os Actos dos Apóstolos, baptizaram-se cerca de três mil almas (Act. 2, 41).
Nós não pedimos ao Espírito Santo que nos dê o mesmo tipo de impetuosidade e de facilidades que, naquele momento inicial da Igreja, foi necessário para fazer avançar os apóstolos e alicerçar as primitivas comunidades cristãs. Se queremos falar outras línguas para que sejamos entendidos, temos de as estudar com denodo e paciência. O que devemos pedir, sim, é que Ele, com os seus dons, nos ajude a corresponder em todas as circunstâncias ao que a graça de Deus nos torna capaz de realizar se somos fiéis. Para o efeito, peçamos-Lhe, dum modo especial, que demos muita importância ao dom da piedade, que por vezes é mal entendido e confundido com uma certa atitude menos sensata e agradável, própria das pessoas beatas, em sentido pejorativo.
A piedade é um aspecto ou uma dimensão da virtude da justiça. Procura colocar no devido lugar e ambiente as nossas relações com Deus. Ao sermos suas criaturas, tudo o que somos, temos e podemos vir a ser ou a ter de bom, devemos a Deus, que, decerto, conta com a nossa correspondência ao que nos dá com a sua graça. Por isso, é nossa obrigação aplicar de modo claro e rigoroso o que nos prescreve o 1º Mandamento da Lei de Deus: “Adorar a Deus e amá-Lo sobre todas as coisas”.Ou seja, Ele é o centro e a origem de toda a nossa vida. A Ele, e a partir d’Ele, devemos referir tudo o que pensamos, amamos, desejamos e fazemos.
Se não tenho bem vincada em mim esta disposição, Deus será sempre um ser marginal e secundário. Prevalecerá o meu eu –com todo a sua carga de egoísmo, vaidade, sensualidade, inconstância e limitações, ainda que bem disfarçada por falsas manifestações de virtude.
O dom da piedade conduzir-nos-á à intimidade adequada com Deus, levando-nos a conhecê-Lo melhor e a respeitar as suas exigências, não como algo que devemos temer, desconfiar ou afastar, mas como o que é desejável e o nosso autêntico bem, porque o que Deus quer reflecte a sua absoluta perfeição: Ele quer o melhor sempre e quer o melhor para nós, porque é perfeito nos seus desígnios e Quem mais nos ama e, nessa medida,Quem mais e melhor deseja o nosso bem. Ser piedoso é, de facto, o caminho conveniente que nos leva a amar a Deus sobre todas as coisas.

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