1 de março de 2011

Todos os homens são chamados à santidade

A Igreja reflectiu profundamente, nos últimos cem anos, sobre o chamamento universal à santidade. Em 21 Novembro de 1964, o Concílio Vaticano II publicava a Constituição Dogmática sobre a Igreja, documento conciliar mais conhecido como Lumen Gentium, em que afirmava: “Todos na Igreja, quer pertençam à hierarquia quer façam parte da grei, são chamados à santidade segundo a palavra do Apóstolo: «Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (cf. 1 Tes 4,3; Ef 1,4) ”. E, clarificando, afirmava: “Aos leigos compete, por vocação própria, buscar o reino de Deus, ocupando-se das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, no meio de todas e cada uma das actividades e profissões, e nas circunstâncias ordinárias da vida familiar e social, as quais como que tecem a sua existência. Aí os chama Deus a contribuírem do interior, à maneira de fermento, para a santificação do mundo, através do cumprimento do próprio dever, guiados pelo espírito evangélico, a manifestarem Cristo aos outros (...) A eles compete muito especialmente esclarecer e ordenar todas as coisas temporais” (Lumen Gentium, nn. 31 e 39)

Já no dealbar do século XXI, o papa João Paulo II, considerava que "o Baptismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito" e "seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: «Queres receber o Baptismo?» significa ao mesmo tempo pedir-lhe: «Queres fazer-te santo?» Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: «Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste» (Mt 5,48)".

E referindo-se ao Concílio Vaticano II acrescentava “Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objecto de equívoco vendo nele um caminho extraordinário, percorrível apenas por algum «génio» da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um. (...) “São pessoais e exigem uma verdadeira e própria pedagogia da santidade, capaz de se adaptar ao ritmo dos indivíduos; deverá integrar as riquezas da proposta lançada a todos com as formas tradicionais de ajuda pessoal e de grupo e as formas mais recentes oferecidas pelas associações e movimentos reconhecidos pela Igreja”. (cfr. "No início do Novo Milénio", Carta Apostólica de 6 de Janeiro de 2001, n.31).

"(…) Seria errado pensar que o comum dos cristãos possa contentar-se com uma oração superficial, incapaz de encher a sua vida. Sobretudo perante as numerosas provas que o mundo actual põe à fé, eles seriam não apenas cristãos medíocres, mas «cristãos em perigo»: com a sua fé cada vez mais debilitada, correriam o risco de acabar cedendo ao fascínio de sucedâneos, aceitando propostas religiosas alternativas e acomodando-se até às formas mais extravagantes de superstição.” (Ibidem n. 34).

S. Josemaria Escrivá foi um precursor dessas directrizes que o Vaticano II promulgou, pois já em 1930, numa carta dirigida aos então escassos membros do Opus Dei, dizia: “Viemos dizer, com a humildade de quem se sabe pecador – homo peccator sum (Lc 5, 8), dizemos com Pedro –, mas com a fé de quem se deixa guiar pela mão de Deus, que a santidade não é para privilegiados: que o Senhor nos chama a todos, que de todos espera Amor: de todos, estejam onde estiverem; de todos, qualquer que seja o seu estado, a sua profissão ou o seu ofício. Porque esta vida vulgar, comum, sem brilho, pode ser meio de santidade: não é necessário abandonar o próprio estado no mundo, se o Senhor não dá a uma alma uma vocação religiosa, já que todos os caminhos da terra podem ser ocasião de encontro com Cristo” (Carta de 24/03/1930, n, 1).

Não estranha, pois, que na canonização deste santo em 2002, João Paulo II tenha declarado: "São Josemaria Escrivá foi escolhido pelo Senhor para anunciar a vocação universal à santidade e para indicar que a vida de todos os dias, as actividades comuns, são um caminho de santificação. Poder-se-ia dizer que ele foi o santo da normalidade. Com efeito, ele estava convencido de que, para quem vive segundo uma perspectiva de fé, tudo é ocasião de encontro com Deus, tudo se torna estímulo à oração. Considerada assim, a vida quotidiana revela uma grandeza insuspeitável. A santidade coloca-se verdadeiramente ao alcance de todos." (Discurso de João Paulo II aos peregrinos a Roma para a canonização de S. Josemaria, n 2, dia 7 de Outubro de 2002)

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