1 de fevereiro de 2011

O SINAL LITÚRGICO (III): Comunhão de joelhos e na boca (1)

A prática mais antiga de distribuição da Comunhão foi, muito provavelmente, a de dar a Comunhão aos fiéis na palma da mão. Porém, a história da Igreja mostra como também teve início muito cedo o processo de transformação desta prática (2). A partir da época dos Padres da Igreja, vai nascer e consolidar-se a tendência de restringir cada vez mais a distribuição da Comunhão na mão e de favorecer a distribuição na boca. O motivo da preferência que se apresenta é duplo: por um lado, evitar ao máximo a dispersão dos fragmentos eucarísticos; por outro, favorecer o crescimento da devoção dos fiéis à presença real de Cristo no sacramento.

Também S. Tomás de Aquino se refere ao costume de só receber na boca a Comunhão ao afirmar que a distribuição do Corpo do Senhor pertence só ao sacerdote ordenado. E isto, por diversos motivos, entre os quais indica o respeito para com o sacramento, que “não é tocado por nada que não esteja consagrado, e daí se consagrarem o corporal, o cálice e também as mãos do sacerdote para poderem tocar neste sacramento. A ninguém mais, portanto, é permitido tocar nele, fora dos casos de necessidade: para impedir, por exemplo, de cair no chão ou outras situações semelhantes” (3).

Ao longo dos séculos, a Igreja sempre procurou caracterizar o momento da Comunhão com sacralidade e suma dignidade, esforçando-se constantemente por desenvolver da melhor maneira gestos externos que favorecessem a compreensão do grande mistério sacramental. Com este atento amor pastoral, a Igreja contribui para que os fiéis possam receber a Eucaristia com as devidas disposições, entre as quais figura compreender e considerar interiormente a presença real d'Aquele que se vai receber (4). Entre os sinais de devoção próprios dos que comungam que a Igreja do Ocidente estabeleceu está a posição de joelhos. Uma célebre expressão de Santo Agostinho, citada há pouco pela Papa (5), ensina que «Ninguém come desta carne [o Corpo eucarístico] sem antes a adorar […], pecaríamos se não a adorássemos» (6). A posição de joelhos significa e favorece a necessária adoração prévia à recepção do Cristo eucarístico.

Nessa perspectiva, o então Cardeal Ratzinger afirmou que “a Comunhão alcança a sua profundidade só quando é sustentada e compreendida pela adoração” (“Introdução ao Espírito da Liturgia”). Por isso considerava que “a prática de ajoelhar-se para a Sagrada Comunhão tem a seu favor séculos de tradição e é um sinal de adoração particularmente expressivo, de todo apropriado à luz da verdadeira, real e substancial presença de Nosso Senhor Jesus Cristo sob as espécies consagradas” (7).

João Paulo II escreveu na sua última encíclica: “Dando à Eucaristia todo o realce que merece e procurando com todo o cuidado não atenuar nenhuma das suas dimensões ou exigências, damos provas de estar verdadeiramente conscientes da grandeza deste dom. A isto nos convida uma tradição ininterrupta desde os primeiros séculos, que mostra a comunidade cristã vigilante na defesa deste «tesouro». […] E não há perigo de exagerar no cuidado que lhe dedicamos, porque, «neste sacramento, se condensa todo o mistério da nossa salvação» ” (8).

Em continuidade com o ensinamento do seu Predecessor, a partir da solenidade do Corpo de Deus de 2008, o Santo Padre Bento XVI começou a distribuir aos fiéis o Corpo do Senhor directamente na boca e estando de joelhos.

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(1) Para completar o esclarecimento de algumas questões que nos foram apresentadas, publica-se um estudo publicado pela Oficina para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice (título original: “La Comunione ricevuta sulla lingua e in ginocchio”):

(2) Nos séculos VII-VIII, nalguns lugares, e a partir do século XI em quase todos.

(3) Cf. Summa Theologiae, III, 82, 3.

(4) Cf. Catecismo de S. Pio X, nºs 628 e 636.

(5) Cf. Sacramentum Caritatis, nº 66.

(6) Cf. Enarrationes in Psalmos, 98,9.

(7) Citada na Carta “This Congregation” da Congregação para o Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos, do dia 1 de julho de 2002.

(8) Cf. in “Ecclesia de Eucaristia”, nº 6.

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