1 de fevereiro de 2011

Do Pároco

Quando no já longínquo ano de 1978, do sítio habitual onde o Vaticano costuma dar publicamente as grandes notícias, se anunciou que havia novo Romano Pontífice, uma grande surpresa se espalhou imediatamente por todo o mundo.

Primeiro, porque o seu nome próprio não foi bem ouvido ou percebido por muita gente; depois, porque soava duma forma estranha. Não era italiano, de certeza, quebrando-se assim uma tradição secular de só serem eleitos, por inspiração do Espírito Santo, papas dessa terra que tem Roma como capital.

Na verdade, vinha da Polónia, país então governado por uma elite comunista. Karol Woityla, era esse o seu nome, cardeal muito jovem, tinha sido escolhido como sucessor de Pedro contra a expectativa geral. E vinha na sequência de um antecessor de governo muito efémero, João Paulo I, falecido inesperadamente pouco depois de ter subido à cadeira de S. Pedro, nesse mesmo ano, o que deixou triste todos os fiéis católicos, graças à simpatia e à simplicidade que manifestou nas poucas audiências e intervenções públicas que teve oportunidade de realizar.

Rapidamente, porém, João Paulo II, assim quis chamar-se o novo Pontífice, conquistou o coração de toda a cristandade. Desde as suas primeiras comunicações, onde assinalou com uma voz bem temperada e profunda que era preciso perder o medo de Deus (“Não tenhais medo!”), até ao lema que escolheu para o seu escudo – Totus Tuus! –, que denunciava uma piedade mariana de um homem que se acolhia à protecção da Mãe de Deus para realizar a tarefa nada fácil que o Senhor lhe deixava nas suas mãos.

Passado algum tempo, começa um sem número de viagens a muitos países. Sem dúvida que privilegiou a sua terra natal, causando um mal-estar fortíssimo às autoridades confessionalmente ateias, que não sabiam – nem puderam – suster o entusiasmo popular de uma nação maioritariamente católica, que se via abençoada por Deus com a presença de um seu filho, escolhido para desempenhar as mais elevadas funções da Igreja.

João Paulo II, durante os mais de vinte e cinco anos do seu pontificado, não parou, num esforço tremendo por levar a mensagem de Cristo a tantos lugares do nosso planeta, que até então nunca tinham tido a presença dum sucessor de Pedro no seu território. O Papa não era apenas, porém, uma figura hierárquica que visitava um povo, um país ou uma nação. Era um homem afável, extremamente comunicativo, que sabia cativar o coração de todos pela sua simpatia e pelo dom de se tornar acessível aos mais diversos estratos sociais.

Certamente que esta empatia fez tremer quem não gosta de que Deus, através de um homem por Ele escolhido e protegido, se torne muito próximo de toda a gente. E assim, logo em 1981, a 13 de Maio, tentaram calá-lo para sempre na Praça de S. Pedro com um tiro traiçoeiro. Nossa Senhora, no entanto, amparou-o como boa Mãe e, um ano depois do atentado, João Paulo II, em Fátima, no mesmo dia, aí estava a agradecer a protecção de Maria, que evitou a sua morte.

Depois, sem perder o ritmo de romeiro de Deus, João Paulo II continuou a percorrer todo o mundo, só aligeirando o ritmo quando a doença o obrigou a ser, por assim dizer, mais caseiro, no final da sua vida. O que não quer dizer que este Papa descurasse as suas obrigações de pastor universal por tanto sair de Roma: a quantidade imensa de cartas, encíclicas, motus próprios e outros documentos de governo ou estritamente doutrinais são prova abundante da sua capacidade de trabalho inesgotável que despendeu sem descanso.

Uma nota essencial para compreender João Paulo II e a sua afabilidade não tem uma explicação meramente natural. E a resposta está na sua santidade de vida. Por isso, seis anos após a sua morte, cumprindo os prazos e as normas rigorosas que a Igreja se impõe a si mesma, aí temos a sua autoridade máxima, Bento XVI, a declarar, no próximo dia 1 de Maio, na Basílica de S. Pedro, que João Paulo II é santo.

Curiosamente, o Papa polaco continua a mover multidões. A sua morte não as afasta. Na data da sua beatificação, em Roma, são esperados dois milhões de pessoas.

Sem comentários:

Enviar um comentário