1 de janeiro de 2012

Viver na presença de Deus - I: O minuto heróico

Deus é o nosso grande amigo. A fidelidade do amor que nos devota é total e absoluta. Nunca poderemos pensar, sem cometer um erro e uma injustiça, que Deus pode ter para connosco alguma aversão insuperável, uma predestinação maníaca ou depressiva. A sua atitude é sempre de compaixão e de compreensão. Oxalá saibamos nós corresponder com pedidos de perdão verdadeiro e não interesseiro ou fictício, sempre que cometemos alguma falta.
Para amá-Lo bem, colocando-O acima de todos os outros amores nobres e possíveis, é necessário que com Ele mantenhamos um constante diálogo.
Este não precisa de circunstâncias especiais, únicas ou fora do normal. Pelo contrário, Deus acompanha-nos a pari passu em todos os momentos da nossa vida. Temos de descobri-Lo na normalidade do dia a dia, nas tarefas que realizámos já quase sem esforço, porque se repetem ao longo das nossas horas.
Se assim procedermos, estaremos sempre em contacto com Deus e a não dispensar a sua presença em nós, para nos orientar segundo os seus desígnios.
Decerto que constitui um bom começo da jornada levantarmo-nos prontamente, assim que toca o despertador, sem protelar esse acto tantas vezes heróico para daí a cinco minutos ou dez, que, com frequência acabam por ser bastante mais. Nada ganhamos com o adiamento e a nossa vontade transforma-se rapidamente, com a cedência à preguiça, uma espécie de pudim flã com pouca consistência e nenhuma capacidade de decisão e de mando.
É a primeira vitória do dia que podemos oferecer a Deus, agradecendo-Lhe a ajuda que nos deu para nos levantarmos com prontidão. Tomemos cuidado com o orgulho de quem se sente capaz de vencer esse obstáculo do nosso acordar. Se o não sobrenaturalizamos, isto é, se não pomos nas mãos de Deus os méritos alcançados, perdemos a oportunidade de sermos corredentores e transformamo-nos numa espécie de pedestal de orgulho, satisfeitos connosco mesmos, esquecendo que é a Deus que devemos a vontade e a capacidade de nos vencermos.
Os méritos ficarão num nível rasteiro e balofo: somos como que super-heróis, porque conseguimos sacudir o sono e a moleza dum modo que nos incha o orgulho e nos torna mais vaidosos e contentes com as nossas possibilidades.
Esquecemos a ocasião para oferecer a Deus o esforço. Ficamos com ele todo para nós, tratando-o como uma espécie de objecto de estimação tão meu, que Deus não pode aproveitar-se dele para, através da Comunhão dos santos, alargar e disseminar o bem dos nossos méritos pelas outras pessoas.
Não devemos confundir este minuto heróico com um acto irreflectido e absurdo. Para me levantar prontamente, salvo excepções que às vezes temos de enfrentar, é preciso dormir o que é preciso para mantermos a inteligência lúcida e a vontade pronta.
Por vezes, a falta de vivência do minuto heróico de manhã está relacionado com uma certa desordem caótica ao deitar. Não é verdade que sentimos em certas noites uma espécie de mania de que temos muitas coisas para fazer naquele momento em que devíamos ir dormir? Há o ditado: “Não deixes para amanhã o que podes (ou deves) fazer hoje”. Bem entendido, não nos torna desordenados nem noctívagos inutilmente. Se encurtamos o tempo de descanso sem peso, conta e medida, é natural que o minuto heróico, pela manhã, se transforme num pesadelo de impossíveis.
Deus não nos pede o caos. Quer que sejamos ordenados, pelo que deseja que durmamos o suficiente para podermos exercitar as nossas faculdades intelectuais, volitivas, afectivas e corporais com desenvoltura e eficácia. Mas exige que não cedamos à preguiça tíbia quando o despertador toca. Levantemo-nos com prontidão, sem hesitações titubeantes e improdutivas. Vivamos, em resumo, o minuto heróico. E deixaremos contente o nosso Pai Deus.

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