7 de novembro de 2010

Do Pároco

Temos o mês de Novembro para pensar na nossa vida e também, sem medo nem vertigens desnecessárias, na nossa morte. Sabemos que ela é traumática e não foi querida por Deus para o homem no plano inicial da nossa criação. Quando este se afasta de Deus, pelo pecado original, ela surge, inexorável, de acordo com o que havia dito o Criador aos nossos primeiros pais.

Deus, porém, não deixa o homem abandonado ao seu destino. Pelo contrário, promete-lhe imediatamente que, da linhagem da mulher (Gén. 3, 14), virá ao mundo alguém que retirará ao demónio o poder tirânico com que ele ficou sobre a nossa espécie. O "pai da mentira", como lhe chamou Jesus, se ganhou esta batalha inicial, foi depois vencido pela Redenção de Jesus Cristo. Com a sua Paixão e Morte e, depois, com a gloriosa Ressurreição, Jesus reconquistou para o homem a graça de Deus e a filiação divina, o que nos permitiu novamente entrar no Reino dos Céus.

No primeiro dia deste mês, congratulámo-nos com toda a gente santa – entre esta, certamente tantos amigos nossos e familiares – que já goza, no Céu, a felicidade eterna. No dia seguinte, implorámos a compaixão de Deus para todas aquelas pessoas que ainda aguardam, no purgatório, o momento de entrarem no Reino dos Céus de forma definitiva. Depois, fomo-nos lembrando, nesta altura outonal, em que as folhas das árvores caducas vão tombando no chão das nossas ruas e das nossas praças, que um espectáculo semelhante sucede com as almas que caem diariamente na eternidade. Mais ainda: enfrentámo-nos com a realidade de que um dia, uma dessas folhas será a nossa alma, a quem Jesus, com toda a sua justiça e misericórdia, indicará o lugar que havemos de ocupar na eternidade.

Tudo isto certamente nos levou a meditar na vida terrena, que é provisória, e que constitui a oportunidade que Deus nos dá para, com a força da sua graça e a nossa correspondência, chegarmos um dia ao Céu, fim para que Deus nos criou com todo o seu Amor e no qual Se empenha com toda a sua boa vontade e sentido de responsabilidade. O Ser mais interessado e que mais nos incita a entrar no Céu é o próprio Deus, que não se poupa nenhum esforço para nos fazer aí chegar, sempre com um absoluto respeito pela nossa condição de seres livres, criados à sua imagem e semelhança. Se não quisermos o que Deus para nós arquitectou, Ele respeitará a nossa decisão.

Sentimos com esta reflexão que precisamos de melhorar a nossa relação com Deus, de nos aproximarmos mais d’Ele para compreenderemos e saborearmos como bons filhos o seu grande Amor para connosco.

E o final deste mês propicia-nos uma excelente oportunidade para o fazer, porque vamos entrar no tempo do Advento. Em concreto, o primeiro Domingo deste tempo litúrgico é já no dia 28 deste mês. Aliás, como Advento e Natal andam juntos, sentimos já que nas ruas de Lisboa começam as iluminações próprias desta quadra do ano. Por isso, mais uma razão para nos começarmos a preparar com esmero para a vinda do Senhor.

Será bom que nos familiarizemos com as figuras que tornaram possível o nascimento de Jesus, Deus encarnado. Em primeiro lugar, com Nossa Senhora, que aceitou a vontade de Deus incondicionalmente, dizendo de si mesma ser a serva do Senhor para que o Verbo encarnasse e iniciasse o nosso processo de Redenção. Em seguida, com S. José, seu marido, que tudo fez, dum modo calado e humilde, para que Jesus pudesse vir ao mundo, apesar das duras dificuldades dessa sua incumbência. E ainda com S. João Baptista, que só quis ser aquilo que a sua missão divina lhe consignou: preparar proximamente a vinda do Messias prometido.

E preparemos o interior da consciência com uma confissão reparadora dos nossos pecados, sabendo que Jesus não veio chamar os justos, mas os pecadores. Não receemos ter esta condição se, com humildade, nos pusermos integralmente nas mãos do Senhor.

Imagem: Nossa Senhora da Conceição – Pintura de Zurbarán

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