1 de junho de 2010

A vida do Santo Cura d’Ars (XII)

Quando o santo pároco morreu não houve qualquer sobressalto nem sequer agonia; embora poucos dias antes tivesse temido a desesperação quando chegasse aquele momento, nada disso aconteceu. Passou assim, como em êxtase, vários dias, e o seu biógrafo F. Trochu defende que o demónio, nessa hora, nada pôde.

Tinha escrito três testamentos. No primeiro estabelecia simplesmente que o seu corpo iria para a terra. No segundo que seria sepultado em Dardilly, sua terra natal. No terceiro que se fizesse a vontade do senhor Bispo. No dia 3 de Agosto – véspera do seu falecimento – chegou um notário e perguntou-lhe diante dos presentes onde queria que sepultassem o seu corpo, ao que respondeu: «Em Ars… mas o meu corpo não vale grande coisa». Adivinhamos o seu ligeiro sorriso ao dizer estas palavras.

O Papa Bento XVI propôs o Cura d’Ars como modelo dos sacerdotes neste ano sacerdotal, «verdadeiro exemplo de Pastor ao serviço da grei de Cristo», dizia em 16 de Março de 2009 quando, pela primeira vez, anunciou a proclamação deste ano. E na Carta de 16 de Junho do mesmo ano expunha alguns pormenores que justificam a nossa devoção.

Citando a sua frase «O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus», o Romano Pontífice aproveitava para valorizar o dom do sacerdócio para a Igreja e para a humanidade. Disse ainda: «Eu mesmo guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco junto de quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: deixou-me o exemplo de uma dedicação sem reservas ao próprio serviço sacerdotal, a ponto de encontrar a morte durante o próprio acto de levar o viático a um doente grave. Depois recordo na memória os inumeráveis irmãos que encontrei e encontro, inclusive durante as minhas viagens pastorais às diversas nações, generosamente empenhados no exercício diário do seu ministério sacerdotal» (Carta para a proclamação de um ano sacerdotal por ocasião do 150º aniversário do dies natalis do Santo Cura d’Ars, 16-VI-2009).

Em Fátima, onde esteve recentemente, aproveitou para voltar a referir-se ao Santo: «Bem sabemos que Deus é Senhor dos seus dons; e a conversão dos homens é graça. Mas somos responsáveis pelo anúncio da fé, da totalidade da fé, e das suas exigências. Queridos amigos, imitemos o Cura d’Ars que assim rezava ao bom Deus: "Concedei-me a conversão da minha paróquia, e eu estou pronto a sofrer o que Vós quiserdes, todo o resto da vida". E tudo fez para arrancar as pessoas à própria tibieza a fim de as reconduzir ao amor» (Discurso nas Vésperas celebradas na Igreja da Santíssima Trindade, 12-V-2010).

E acrescentava: «Há uma solidariedade profunda entre todos os membros do Corpo de Cristo: não é possível amá-Lo, sem amar os seus irmãos. Foi para a salvação deles que João Maria Vianney quis ser sacerdote: "Ganhar as almas para o Bom Deus", declarava ele ao anunciar a sua vocação, aos dezoito anos de idade, tal como Paulo dizia: "Ganhar a todos" (1 Cor 9, 19). O Vigário Geral tinha-lhe dito: «Não há muito amor de Deus na paróquia, vós introduzi-lo-eis». E, na sua paixão sacerdotal, o santo pároco era misericordioso como Jesus no encontro com cada pecador. Preferia insistir sobre o lado atraente da virtude, sobre a misericórdia de Deus diante da qual os nossos pecados são «grãos de areia». Mostrava a ternura de Deus ofendida. Temia que os sacerdotes «se insensibilizassem» e habituassem à indiferença dos seus fiéis: "Ai do Pastor – advertia – que fica calado ao ver Deus ultrajado e as almas perderem-se!"» (Ib.).

Retirado de TROCHU, F., O Cura d’Ars, Ed. Theologica, Braga, 1987. Versão online em castelhano:

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