3 de abril de 2010

A virtude da alegria

A alegria é, em primeiro lugar, um sentimento. E os sentimentos são movimentos da sensibilidade que se produzem de um modo não voluntário mas segundo um certo automatismo. Na literatura teológica chamam-se paixões. As paixões podem ser directas ou indirectas, por coisas boas ou por coisas más. As paixões directas por coisas boas são três: o amor, o desejo e a alegria. O amor é a paixão que se desperta pela consideração de um bem. O desejo aquela que inclina a possuí-lo. E a alegria aquela que se verifica quando se possui esse bem.

A alegria, no entanto, é também uma virtude cristã. São Paulo exortava os cristãos de Filipos: «Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!» (Fp 4,4). Esta insistência do Apóstolo deve ajudar-nos a entender que a alegria, para um cristão, não é só um sentimento; é algo que se procura, que se busca usando da própria força da alma, quer seja sentida quer não seja, e é a isso que se chama virtude. O mesmo Apóstolo explica noutras epístolas: «Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9,7) e aos Gálatas diz que a alegria é um fruto do Espírito Santo (cf. Ga 5,22).

Como é que se pode transformar um sentimento numa virtude? Como é que se pode transformar uma ocorrência momentânea numa disposição habitual? A prática da alegria exige que se considere de um modo frequente aquilo que já possuímos e aquilo que ainda não possuímos mas temos uma esperança firme de vir a possuir.

O Papa Bento XVI na Encíclica Spe salvi explica que a esperança consiste naquilo que a fé dá ao crente segundo a definição de fé da Epístola aos Hebreus (cf. Hb 11,1), i.e., há um penhor, uma realidade objectiva que nós já possuímos e que se nos dará em plenitude mais tarde (cf. n. 7). A consideração frequente da felicidade futura alimenta a alegria.

O exercício desta virtude é, portanto, uma prática cristã. O cristianismo não pode ser nunca uma religião de tristeza porque isso seria identificá-lo com uma realidade má. A fé ensina-nos que já somos filhos de Deus e que ainda não se manifestou plenamente o que havemos de ser (cf. 1 Jo 3,2) mas essa esperança não defrauda porque o amor de Deus já foi derramado nos nossos corações (cf. Rm 5,5). Ao ser virtude a alegria exige o esforço: o esforço por sorrir, o esforço por ser optimista, o esforço por retirar peso às coisas más que a vida traz necessariamente consigo.

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