3 de abril de 2010

A vida do Santo Cura d’Ars (X)

O venerável pároco de Ars adquiriu com a sua união com Cristo Sacerdote uma sabedoria que não tem explicação humana e que, por vezes, pode mesmo ser motivo de estranheza para quem não goze da mesma intimidade com Deus. Os seus conselhos não só se revelam proféticos no sentido temporal, de previsão do futuro, mas sobretudo num sentido muito mais profundo, que se prende com a própria etimologia da palavra – prophêtês «aquele que fala em vez de alguém (normalmente em vez de Deus) –: são conselhos verdadeiramente inspirados.

Conta-se que Francisca Lebean, uma pobre jovem de Saint-Martin-de-Commune (Saône et Loire), tinha ficado completamente cega. Empreendeu com a sua mãe a viagem a Ars. Durante o caminho mendigaram o pão de cada dia, e dormiram nos estábulos. O Cura de Ars não temeu descobrir à cega, cuja têmpera valorosa o olhar inspirado do Reverendo Vianney tinha sondado, algo do mistério divino que se esconde no sofrimento. "Minha filha, disse-lhe, poderias curar-te, mas se Deus te devolvesse a vista a tua salvação não seria tão segura. Se, pelo contrário, te conformas com a tua doença, irás para o Céu e garanto-te que terás aí um bom lugar". Esta mesma jovem ainda perguntou se não seria uma carga para os seus irmãos e o Cura de Ars tranquilizou-a: eles chegariam ao seu termo muito velhos e teriam cuidado dela. A cega entendeu tudo; não pediu para ser curada e foi-se embora cheia de resignação.

No entanto, o santo Cura não gostava de que se soubesse que ele era um verdadeiro profeta, até porque se considerava muito miserável (como já vimos). Uma rapariga de Savóia, logo que chegou ao confessionário e antes de que falasse escutou como o Cura de Ars lhe revelou a sua família e a sua alma; ela, impressionada, foi contar ao pe. Toccanier o qual perguntou ao Santo que lhe respondeu: «Ah, é que fiz como Caifás: profetizei sem me aperceber» (Revº TOCCANIER, Processo do Ordinário, p. 145). De facto, São João refere que Caifás, que condenou à morte Jesus profetizou por ser o Sumo Sacerdote naquele ano e não por ser santo (cf. Jo 11,51).

Uma rapariga de Arcinges (Loire), chamada Stephanie Vermorel, foi confessar-se, e, por duas vezes, o Santo fez-lhe notar que se tinha esquecido de alguns pecados; à segunda ela não se conseguia lembrar daquele pecado, mesmo depois dele lho ter descrito com pormenor, e disse-lhe que quando passasse por certo sítio se lembraria, o que aconteceu; deu-lhe a absolvição desse pecado também e disse-lhe que a sua vocação era de virgindade no meio do mundo. O episódio tem interesse não só pelo discernimento e penetração que o Santo revela sobre o passado daquela alma como também sobre o seu futuro e o seu presente, isto é, aquilo para o que Deus a tinha criado, mesmo que essa vocação não fosse comum naquela época (o celibato no meio do mundo).

Retirado de TROCHU, F., O Cura d’Ars, Ed. Theologica, Braga, 1987. Versão online em castelhano:

Sem comentários:

Enviar um comentário