1 de março de 2010

A vida do Santo Cura d’Ars (IX)

Da vida interior do Santo Cura d'Ars pouco sabemos de um modo directo. Tinha o seu confessor ao qual recorria cada semana e, pelos frutos de santidade e de apostolado que obtinha de Deus para os outros, presumimos que a sua alma fosse uma chama ardente de caridade, mas ele não escreveu livros nem revelou muito de si mesmo.

No entanto, entre as poucas coisas que conhecemos algumas dão a entender como seria a sua alma. Numa ocasião, durante a Missa do Galo, enquanto sustinha a Sagrada Hóstia sobre o cálice durante um longo período, como prescrevia o rito lionês, alternava as lágrimas com os sorrisos; ao perguntarem-lhe o porquê daquilo, respondeu que dizia a Jesus: «Se eu soubesse que hei-de ter a desgraça de não Te ver na eternidade, já que agora Te tenho nas minhas mãos, não Te soltaria!» (Irmão ATANÁSIO, Processo apostólico in genere, p. 213).

Dizia na sua pregação: «As moscas afastam-se da água a ferver; só caem na água fria ou tíbia» (Rev.º TOCANNIER, Processo apostólico in genere, p. 170). Com estas palavras queria indicar como deve ser ardorosa a alma que quer agradar a Deus.

Por outro lado, sabemos que as suas ânsias de estar com Deus a sós, coisa que era impossível com o imenso trabalho pastoral que o esperava em cada jornada, o fazia desejar retirar-se para um mosteiro. «Um dia, enquanto explicava o catecismo na igreja, exclamou: "Oh, se eu tivesse sabido o que era ser sacerdote, bem depressa me teria refugiado na Trapa!" Ao que uma voz saída da multidão replicou: "Meu Deus, que desgraça que isso teria sido!"» (Rev.º MONNIN, Processo do ordinário, p. 1115). Embora tal comentário pudesse consolar e alentar a sua alma ela continuava a pedir solidão. Eram desejos duma maior santidade que exprimia a modo da sua época.

Isto explica que o santo pároco tenha fugido de Ars para a sua terra natal com ânimo de ingressar num convento. Estas ideias povoavam o seu espírito e temos dificuldade em entender completamente: queria «chorar a sua pobre vida», assim dizia de si mesmo, e aspirava a poder estar com Deus.

Uma testemunha mostra-nos em que consistiam essas ânsias: «Minha filha, dizia a uma das suas penitentes, não peça a Deus o conhecimento total da sua miséria. Eu pedi-o uma vez e alcancei-o. Se Deus não me tivesse sustido teria caído imediatamente na desesperança» (Baronesa de BELVEY, Processo do Ordinário, p. 246). E outra: «Fiquei tão espantado ao conhecer a minha miséria que pedi logo a graça de me esquecer dela. Deus escutou-me mas deixou-me luz suficiente sobre o meu nada para que entenda que não sou capaz de coisa alguma» (Irmão ATANÁSIO, Ib., p. 804).

Na sua ausência as pessoas que o necessitavam choravam e pediam a Deus que ele voltasse. No seu regresso; à chegada a Ars, prometeu entre lágrimas nunca mais abandonar o seu rebanho; muitos daqueles homens e mulheres, que o esperavam para se confessar nunca o tinham visto antes, mas eram verdadeiramente o seu rebanho e qualquer deles se sentia querido com ternura e com exigência pelo Cura de Ars. Tal não seria possível se a alma do sacerdote não fosse um habitáculo do Espírito Santo e se ele não vivesse em plena união com o seu Hóspede.

Retirado de TROCHU, F., O Cura d’Ars, Ed. Theologica, Braga, 1987. Versão online em castelhano:

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