1 de março de 2010

Do Pároco

O mês de Março encontra-nos a todos em pleno período da Quaresma. Decerto que já fizemos uma lista, pequena mas audaciosa, de pequenos sacrifícios, no sentido de vivermos melhor esta temporada com Jesus Cristo, que nos coloca junto de Si no Calvário, lugar onde morreu e Se ofereceu em holocausto por todos e cada um de nós.

Podemos, com orgulho santo e agradecido, dizer que houve Alguém que, sem nosso expresso pedido, Se ofereceu a Deus, a fim de que a sua entrega fosse penhor da nossa Redenção e nos trouxesse, de novo, a possibilidade de atingir o fim para que Deus nos criou: o Céu. E quem é esse Alguém? O Senhor, o nosso Cristo.

A sua morte na Cruz foi como que a tenaz que, forçando as portas do Céu, no-las abriu. E, assim, nós podemos outra vez pensar e desejar viver para sempre com a Santíssima Trindade, ganhando de forma definitiva o Reino de Deus.

Tempo de penitência e de oração mais intensas, a nossa Mãe Igreja prescreve que todos os fiéis devem ser mais sacrificados e mais rezadores. Por exemplo: guardando jejum e abstinência em dias determinados. Assim mortificaremos o nosso corpo que, de duas uma: ou é bem dominado por nós, ou nos domina, reclamando para si compensações e tratos que enfraquecem as nossas capacidades superiores, como a inteligência, a vontade, a afectividade, a memória e a imaginação.

Nesta ordem de ideias, a Quaresma convida-nos a ser mais humildes nos nossos juízos, mais determinados para o bem com a nossa vontade, mais cuidadosos na aplicação dos nossos afectos, que só devem orientar-se para as coisas boas consentâneas com a dignidade de seres humanos, purificar a memória de recordações inúteis ou que destilam fel ou sensualidade perniciosa, e ter a imaginação bem estruturada e apoiada no que é real e devido e não no deletério, no criativo sem fundamento, no que nos é aprazível momentaneamente, etc..

Por isso, se temos de fazer penitência com o nosso corpo, tentemos que o nosso espírito não se deixe abalar por ficções ocas ou malévolas tão características da imaginação. Sendo gratuita, isto é, uma realidade constituinte da nossa natureza criada por Deus, ela pode tornar-se num mar vagabundo de suspeições, de juízos infundados ou discutíveis, que nos transportam para horizontes vazios. Andam ao sabor das oscilações de todas as nossas outras capacidades. Santa Teresa de Ávila chamava-lhe, com propriedade, a "louca da casa".

Quantas iniciativas desconexas e inadequadas são fruto dessa tonta que não conhece a realidade com sentido objectivo e tanta e tanta angústia transporta para a nossa consciência, quando damos conta dos seus desvarios. Eis, pois, uma boa fonte de sacrifícios quaresmais. Manter a nossa imaginação bem resguardada, oferecendo as suas possibilidades ao que Deus nos pede como sua vontade. Deus ama a nossa criatividade, não a insensatez fácil de conseguir, se damos rédea solta à imaginação.

Estejamos certos de que se a mantemos bem resguardada, ela é uma magnífica colaboradora na forma de tornar mais atraente a vontade de Deus, porque nos fará descortinar que, independentemente da sua exigência, é fruto de Alguém que nos ama mais do que ninguém. A Paixão de Cristo, que muito nos deve prender a atenção e a afectividades neste dias quaresmais, mostra-nos isso mesmo. O Deus feito Homem, apesar das nossas infidelidades e da pouca constância na retribuição ao seu Amor, parece gritar-nos do alto da Cruz: "Apesar de seres como és, Eu vou dar a minha Vida por ti. Apesar de seres como és, a tua vida é muito amada pelo meu Pai."

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