1 de fevereiro de 2010

A simplicidade

No Carnaval as crianças costumam mascarar-se. As máscaras e os trajes de Carnaval correspondem à sua fantasia. Com os anos deixamos de gostar de nos mascarar. Mas podemos ir ganhando o hábito de não nos mostrarmos como somos. As crianças, mesmo mascaradas, são simples, e nós, mesmo sem máscara, somos complicados.

«A simplicidade é como o sal da perfeição» escreveu São Josemaria no Caminho (cf. n. 305). A palavra «simples» deriva do latim simplex, o que poderia ser uma abreviatura para sine plexus, «sem pregas», «sem dobras», sem ângulos escondidos, sem duplicidade. A simplicidade confere-nos uma unidade grande.

A simplicidade não significa ausência de educação, ou mera espontaneidade. A espontaneidade procede da falta de domínio sobre os impulsos. E quando os dominamos não perdemos simplicidade. Quando evito dizer algo que magoa não sou menos simples do que se deixo que essa frase saia da minha boca.

De facto, o homem é um ser complexo (do latim cum + plexus), cheio de pregas e rugas, desde o pecado original, porque esse pecado nos quebrou a unidade. A harmonia interna do homem nas suas potências – a sensibilidade, a inteligência, a afectividade, e a vontade – passou a dar espaço a uma espécie de gritaria onde cada uma puxa para si.

A simplicidade implica um esforço grande por unificar a nossa vida: querer só uma coisa, querê-la com intensidade e com constância, e forçar a inteligência a conhecer melhor o que queremos, e a afectividade a desejar isso mesmo, negando-se à sensibilidade, que muitas vezes impele ao contrário.

O domínio de nós próprios não significa uma máscara. A máscara surge quando pretendemos um bem de alguém para nós e aparentamos que pretendemos só o seu bem. Se só pretendemos amar a Deus e por Deus os outros a nossa vida será esforçada e difícil mas simples.

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