2 de julho de 2009

A guarda dos sentidos

Deus dotou o ser humano com os meios para poder atingir o seu fim, que é conhecer e amar o próprio Deus. Amá-l’O graças a tê-l’O conhecido. Pela sua natureza corpórea o ser humano conhece através dos sentidos, que captam as coisas pelas sensações: a luz, o som, o ar, o contacto com coisas sólidas e líquidas produzem sensações na vista, no ouvido, no olfacto, no tacto e no paladar.

Sem os sentidos exteriores não poderíamos chegar a conhecer, a abstrair. Esses cinco sentidos produzem cinco impressões diferentes, que são unificadas no sentido comum, formando uma imagem na imaginação, retida na memória e desejada ou repelida quase instintivamente. Tudo isto ainda não é intencional ou voluntário mas simplesmente sensitivo. É a partir dessa sensação que o entendimento vai formular um conceito e aplicar-lhe um juízo: ao ter a impressão de um cão ele conhece-o quando diz «o cão é um animal».

Ora acontece que, embora necessitemos dos sentidos nem tudo aquilo que eles nos apresentam é benéfico para a nossa alma. Os sentidos usados sem regra nem controle não permitem conhecer Deus. Para O conhecer necessita-se do exercício de se negar aos sentidos, uma e outra vez. Porque Deus não Se identifica com algo sensível.

Se não refreamos os sentidos a inteligência embrutece-se, perdendo a capacidade de abstrair do sensível para aquilo que transcende a matéria, e a vontade perde-se, dispersando-se em muitos amores menores. A alma acaba por se tornar escrava das paixões sensíveis e o ser humano perde a sua orientação para Aquele que lhe pode dar a felicidade.

Por isso o crescimento interior exige a prática da guarda dos sentidos. Guardar os sentidos custa porque exige um domínio sobre a vista e as imagens externas, evitando experiências como as do rei David (cf. 2 Sam 11,1ss), uma sobriedade no uso dos sons, da música e uma preferência pelo silêncio que abre a alma para o diálogo com Deus, uma contenção na tendência para comer desenfreadamente ou beber, praticando a mortificação à mesa e fora dela, e em tudo um saber viver com sensações menos agradáveis (frio, calor, fome, sede, doença, cansaço, sono, solidão, decaimento, desonra, etc.).

Quando se é criança a avidez de sensações justifica-se porque se quer conhecer e a alma está ainda vazia. Por isso se toca em tudo e se leva tudo à boca. À medida que vamos crescendo vamos prescindindo das sensações porque já conhecemos muitas coisas e tornamo-nos mais idealistas procurando mais dentro de nós do que fora.

A guarda dos sentidos preserva de muitos pecados mas sobretudo permite à alma subir e subir até se encontrar com Deus para ter com Ele um diálogo íntimo e amoroso. É uma prática da ascética cristã que devemos exercitar para chegarmos a ser santos.

Sem comentários:

Enviar um comentário