1 de maio de 2009

Começa o mês de Maio, para todos os portugueses, com a alegria recente da canonização de São Nuno de Santa Maria. Este homem, que tanto contribuiu para a manutenção da nossa identidade nacional, acabou os seus dias na cidade de Lisboa, como irmão da Ordem do Carmo, vivendo no Mosteiro que ele mesmo fundou e espalhando o seu amor a Deus no cuidado dos seus próximos mais desfavorecidos e com uma vida exemplar de oração e de penitência.

Um amor e uma devoção muito fortes a Nossa Senhora, fizeram dele, D. Nuno Álvares Pereira, Frei Nuno de Santa Maria, depois de ter sido condestável do reino e inseparável apoiante do Mestre de Avis, o nosso futuro rei D. João I. D. Nuno foi o grande obreiro de várias vitórias portugueses sobre as hostes inimigas, nomeadamente em Aljubarrota.

A sua figura é sempre digna de recordar, ainda de que uma forma breve e a traços largos. Nascido em 1360, filho de D. Álvaro Gonçalves Pereira, cedo entrou na corte de D. Fernando, o último rei da nossa I dinastia, como pajem de sua esposa, a rainha D. Leonor Teles.

Com a morte deste soberano em 1383, abriu-se uma crise dinástica, que poderia ter levado ao trono de Portugal o rei de Castela, o que facilitaria a inclusão do nosso país como uma parte desse reino.

Levantou-se em Portugal um movimento de apoio ao então Mestre de Avis, D. João, irmão do nosso falecido rei D. Fernando, contrário à ingerência estrangeira nos destinos portugueses. Assim foi nomeado primeiramente como Regedor e Defensor do Reino. A ele deu o seu assentimento D. Nuno Álvares Pereira. O Mestre de Avis, reconhecendo as qualidades e virtudes deste jovem cavaleiro, nomeia-o para o seu Conselho de Guerra, atribuindo-lhe as funções de fronteiro entre os rios Tejo e Guadiana.

A partir de então, D. Nuno manifesta-se um pilar fundamental da luta contra Castela, vencendo, como se sabe, as tropas inimigas em várias batalhas e lutas, de que os nomes de Atoleiros, Trancoso, Valverde e, sobretudo, Aljubarrota (ano de 1385), são os mais veementes da sua carreira de bom chefe militar, que prima pelo mérito das suas virtudes pessoais e tácticas e não pelos meios humanos e recursos materiais, francamente escassos. A guerra, com as inevitáveis disputas e intervalos de tréguas, prolonga-se por muito tempo, até que se celebra um acordo de paz duradoiro entre Portugal e Castela em 1411.

D. Nuno vê-se beneficiado pelo então já rei de Portugal, D. João I, com inúmeras honras e terras, que dele fazem quase dono de meio país. Por sua vontade, teria distribuído boa parte dos seus bens pelos que o tinham ajudado. No entanto, por deliberação do rei, não foi assim, que aproveitou o casamento da única filha de D. Nuno, já então viúvo, D. Branca, com um seu filho, D. Afonso, para dar outro curso a tantas riquezas. Desse matrimónio nasceu a Casa de Bragança, que deu origem à estirpe real da IV dinastia portuguesa, inaugurada por D. João IV, em 1640.

A figura de D. Nuno Álvares Pereira é uma prova constante de determinação e capacidade de decisão, aliadas a um conjunto de virtudes humanas e de conhecimentos tácticos da arte militar, que ditaram, em parte, a sorte da luta a favor de Portugal. Certamente que nada disso seria possível se não tivesse sido bem ajudado por colaboradores à altura dos acontecimentos e das situações. Mas sempre é necessário que haja alguém capaz de tomar as medidas certas nos momentos oportunos. E isso provou-o D. Nuno, que, de resto, se mostrou depois um bom administrador dos seus bens, aos quais não se apegou, o que manifesta, da sua parte, uma atitude humana cheia de dignidade e de responsabilidade social, além do sentido cristão da partilha, como se acentuou.

Há um ditado escolástico que diz que "a graça não destrói a natureza; pelo contrário, completa-a e aperfeiçoa-a". D. Nuno Álvares Pereira parece ser um seu exemplo claro. Admiramos a sua capacidade para de tudo se despojar e servir a Deus, quando se faz carmelita. Mas não deve esquecer-se o enorme valor humano das suas qualidades, enquanto leigo, onde, de resto, viveu sempre como um primoroso cristão.

Aliás, não podemos pensar que, de outra forma, tivesse coragem de tomar uma decisão tão radical para fazer a vontade de Deus, ao viver, pobre e humildemente, como irmão, no Convento do Carmo.

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