9 de janeiro de 2009

As Confissões de Santo Agostinho

Santo Agostinho (354-430) é talvez o Padre da Igreja mais brilhante do século mais brilhante da patrística. É um dos maiores escritores de todos os tempos e, sem dúvida, um dos mais fecundos. Mas a sua vida está profundamente unida a uma conversão radical, que se deu por passos e se consumou aos 33 anos, como ele próprio relata no seu livro Confissões.

«Sentindo-me estimulado a reentrar dentro de mim, recolhi-me na intimidade do meu coração, conduzido por Vós, e pude fazê-lo porque fostes Vós o meu auxílio. Entrei e vi, com o olhar da minha alma, uma luz imutável que brilhava acima do meu olhar interior e acima da minha inteligência. Não era como a luz terrena e visível a todo o ser humano. Diria muito pouco se afirmasse apenas que era uma luz muito mais forte do que a comum, ou tão intensa que penetrava todas as coisas. Não era deste género aquela luz; era completamente distinta de todas as luzes do mundo criado. Não estava acima da minha inteligência como o azeite sobre a água nem como o céu sobre a terra; era uma luz absolutamente superior, porque foi ela que me criou; e eu sou inferior porque fui criado por ela. Quem conhece a verdade, conhece esta luz.

(…) Deslumbrastes a fraqueza da minha vista com a intensidade da vossa luz; e tremi com amor e horror. Encontrava-me longe de Vós numa região desconhecida, como se ouvisse a voz lá do alto: “Eu sou o pão dos fortes; cresce e comer-Me-ás. Não Me transformarás em ti como alimento do teu corpo, mas tu é que serás transformado em Mim”. (…)

Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o meu espírito deformado precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo mas eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Chamastes, chamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume; aspirei-o profundamente e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz.»

(SANTO AGOSTINHO, Confissões, 7,10,18.27)

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