3 de agosto de 2008

As duas formas de tristeza segundo Bento XVI

Bento XVI publicou recentemente uma reflexão pessoal sobre a vida e a figura de Cristo, com o título Jesus de Nazaré, à qual prometeu um segundo volume que está ainda por aparecer. Ao comentar a 2ª Bem-Aventurança – «Bem-aventurados os que choram porque serão consolados (Mt 5,4) – o Papa escreve:

«Há duas espécies de tristeza: uma que perdeu a esperança, que deixou de confiar no amor e na verdade e, consequentemente, insidia e destrói o homem por dentro; mas há também a tristeza que deriva da comoção provocada pela verdade e leva o homem à conversão, à resistência contra o mal. Esta tristeza cura, porque ensina o homem a esperar e a amar de novo. (...)»

«[Esta] espécie positiva de tristeza (...) constitui um poder contra o domínio do mal (...). Trata-se de pessoas que não se deixam ir na onda, que não se deixam levar por espírito gregário a pactuar com a injustiça reinante, antes sofrem por causa disso; embora não esteja no seu poder alterar globalmente a situação, todavia contrapõem ao domínio do mal a resistência passiva do sofrimento, a tristeza que coloca um limite ao poder do mal.»

«A tradição encontrou ainda outra imagem de tristeza que cura: Maria, que está ao pé da cruz (...) Quem não endurece o coração perante o sofrimento e a necessidade do outro, quem não abre a alma ao mal mas sofre sob a sua pressão dando assim razão à verdade, a Deus, esse escancara a janela do mundo para fazer entrar a luz. A estes que choram é prometida a grande consolação (...)»

«A tristeza de que o Senhor fala é o não-conformismo com o mal, é um modo de opor-se àquilo que todos fazem e que se impõe ao indivíduo como modelo de comportamento. O mundo não suporta este tipo de resistência, exige que se participe. Esta tristeza parece-lhe uma denúncia que se opõe ao aturdimento das consciências. E é-o.»

(RATzINGER, J. - BENTO XVI, Jesus de Nazaré, A esfera dos livros, Lisboa, 2007, pp. 125-127)

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