6 de julho de 2008

Neste mês de Julho, em que uma boa parte da população do nosso país começa as suas férias, é bom que pensemos neste tempo de repouso, querido por Deus para o homem, porque Ele, como autor da nossa natureza, conhece como ninguém as nossas necessidades.
Descansar começa por ser, assim, algo que o nosso criador quis que a sua criatura preferida não descurasse. Fazer férias é, pois, não só uma coisa boa e apetecível, como também uma forma de o homem cumprir a vontade de Deus.
Não se trata, porém de um tempo dedicado ao ócio, sem perspectivar nada pela frente, como se a nossa natureza precisasse de um vazio absoluto para poder recuperar as forças que foi desgastando, ao longo do ano laboral, com as múltiplas preocupações profissionais.
Dedicar o tempo ao ócio é uma maneira de se ser egoísta. Pensar em si, no seu bem estar, querendo que os outros nos sirvam, ou melhor, satisfaçam os nossos caprichos, como que movidos pela obrigação que nós construímos acerca de nós mesmos: somos o centro do mundo, o centro das atenções e o objecto de todas as deferências. Esta visão deletéria e egocêntrica não é difícil de conceber.
Quem está ao nosso lado é uma espécie de degrau que me ajuda a subir para onde quero, almofada que me serve de descanso, sofá da minha sesta privilegiada que nada nem ninguém tem o direito de perturbar, porque o nosso ócio exige dos outros aquilo que eu não lhes quero dar: o meu amor, a minha compreensão, a minha ajuda, a partilha no meu descanso. Senhor total do repouso, os outros são os meus servos, que cumprem bem a sua missão quando me dão aquilo que eu espero para me sentir o melhor possível. Posso declarar-me amigo dos que comigo partilham das minhas alegrias egoístas. No entanto, tal amizade termina sempre que a sua companhia perturba a minha placidez ou prefiro estar sozinho, entregue aos meus devaneios.
Decerto que uma concepção de descanso aparentemente tão exagerada, pode-me parecer irreal. Contudo, quando pensamos nos nossos tempos livres e nas relações que neles procuramos ter com Deus, a situação descrita toca-nos muitas vezes bem de perto, quando não em sentido absoluto.
Se Deus quer o nosso descanso e a ele nos incita, não esqueçamos que somos suas criaturas e que toda a nossa existência d’Ele depende. Não somos seres autónomos, a não ser no uso da liberdade, que é também um dom de Deus, e não conquista da nossa parte. Não somos livres, porque trabalhamos para construir essa qualidade do nosso ser, mas porque Deus assim nos criou. E deu-nos a liberdade para um fim fundamental, que nós podemos rejeitar de uma maneira radical: amá-Lo e servi-Lo.
Nestas duas atitudes, nada existe de vexatório para a nossa condição. Pelo contrário, amar e servir a Deus, sempre de uma forma livre e responsável, significa fazer a melhor opção que a nossa liberdade pode encontrar, já que Deus, entre todos os seres, é Aquele que mais merece o amor e o serviço de alguém, quer pela sua perfeição, quer ainda porque Ele é Quem mais nos ama e mais nos serve.
Se olharmos a vida de Jesus Cristo, o Deus encarnado, compreendemos que só um grande Amor, absolutamente desinteressado – ou, se quisermos, apenas interessado no nosso verdadeiro bem – O levou a assumir a nossa natureza, a ser uma criatura inerme e indefesa como nós fomos quando viemos ao mundo e, depois, a sofrer a humilhação e a dor terrível do sacrifício da Cruz. E isto para que nós, uma vez reconquistada a graça que nos abriu as portas do Reino de Deus, pudéssemos de novo, como filhos de Deus, aspirar ao bem supremo do Céu.Quando vamos para férias e deixamos Deus nas gavetas do esquecimento premeditado, em lugar de tentar descansar n’Ele e através d’Ele, o que fazemos é dispensar o seu Amor e a sua Providência, querendo construir um mundo de auto-suficiência egoísta, onde eu sou senhor absoluto do meu destino, sem admitir a interferência de Quem mais me ama e de Quem mais fez pela minha verdadeira felicidade. É um erro grave e uma injustiça que só o perdão incondicional do nosso Deus sabe sanar. E porquê? Porque nos ama mais do que ninguém e compreende, mais e melhor do que ninguém, as nossas fragilidades. Vamos com Deus para férias, e elas tornar-se-ão assim as melhores da nossa vida!

Basílica de Nossa Senhora do Carmo - Bela Vista, São Paulo

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