1 de junho de 2008

Neste mês, que já começa a despertar em nós o desejo das próximas férias estivais, começa o Ano Paulino, decretado em boa hora por Sua Santidade o Papa Bento XVI para lembrarmos todo o gigantesco panorama de evangelização do apóstolo tardio, que nasceu para a sua missão no caminho de Damasco, de forma inesperada.

Deus pode e sabe mais. Pois quem diria que àquele fariseu intransigente, que concordou e se regozijou com a morte de Estêvão - o primeiro dos mártires cristãos -, havia o Senhor de o chamar para ser o apóstolo das gentes e, já no fim da sua missão, para receber a palma do martírio decretada por Nero, imperador corrupto e alucinado, associando-o assim ao número daqueles que, como o mesmo Estêvão, ofereceram cruentamente a sua vida por Cristo?

O exemplo de S.Paulo é muito actual para todos. A sua conversão lembra-nos que Deus tem desígnios por nós inimagináveis. E, ao mesmo tempo, que quando precisa de um instrumento eficaz para o desempenho das tarefas que quer ver realizadas, fá-lo aparecer sem que ninguém o suspeite. Não esqueçamos que à sua providência ordinária, a que nos habituamos como se fosse um fenómeno comum ou natural, a omnipotência divina pode recorrer a outro tipo de providência – a extraordinária -, que vemos amiúde nos milagres espantosos que Jesus efectuou. E não será a conversão de S. Paulo um comprovativo paradigmático da sua eficácia?

S. Paulo, entre todos os apóstolos, foi o que espalhou por mais lugares a Palavra de Deus. Não descansou um segundo para falar de Cristo e da sua doutrina, fosse entre a gente simples que se convertia, fosse entre os intelectuais mais refinados do seu tempo, como aqueles filósofos gregos epicuristas e estóicos que, no areópago ateniense, com muitas outras pessoas, não faziam outra coisa do que ouvir novidades (Act 17, 16-34).

Duma forma inteligente e sistemática, procurou chegar aos lugares mais relevantes do majestoso Império Romano, de que era cidadão por nascimento. O seu dito “ai de mim se não evangelizar”(1 Cor 9, 16), deve levar todo o cristão a fazer um exame de consciência sincero, a fim de erradicar de si a frondosa gama de respeitos humanos, que às vezes sentimos, até para falar da nossa condição de cristãos, entre as pessoas que se cruzam no nosso dia a dia.

De notar que Paulo não foi um homem preocupado com o estilo formal e o conteúdo apelativo da sua interpelação aos outros. Como ele nos confessa, a sua base de argumentação sempre girou à volta de uma realidade que poderia parecer frustrante para quem o ouvia: “Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Cor 1, 23).

Aparentemente, é um facto que nos fala do fracasso de um rabi, que não conseguiu convencer as autoridades religiosas e políticas do seu tempo de que era portador da mensagem mais importante da história humana. Por isso foi condenado à morte mais vil da altura, destinada aos escravos e aos malfeitores: a Cruz. Com ela, procurava manifestar-se publicamente que o condenado não era pessoa de bem nem de respeito, pelo que se lhe destinava aquele suplício da morte tão aviltante. Esta foi a grande arma apostólica de Paulo, convencido de que não eram as suas palavras que convenciam e levavam à conversão, mas a morte redentora de Jesus, coroada de seguida com a sua gloriosa Ressurreição.

Mostremos a nossa gratidão a S. Paulo, lendo com profundidade os seus escritos, e recordando a sua vida, a partir dos Actos dos Apóstolos, que nos expõem com simplicidade toda a sua saga de anunciador da Boa Nova. E sigamos o seu sulco de evangelizador, falando das maravilhas de Deus a todos aqueles que o Senhor dispuser nos caminhos das nossas vidas.
S. Paulo pregando em Atenas. Pintura de Rafael, 1515

S. Paulo pregando em Atenas. Pintura de Rafael, 1515

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