6 de fevereiro de 2008

No próximo dia 6, 4ª Feira, indica-nos o calendário que entramos na Quaresma.

Eis um período litúrgico que nos convida à penitência e à oração mais intensa. Jesus espera-nos nos momentos mais dolorosos da sua vida terrena. O Horto das Oliveiras, o julgamento indecoroso no Sinédrio judaico, o julgamento de Pilatos, a flagelação e a sua condenação à pena de morte na Cruz, são cenas que devemos contemplar com mais profundidade e com mais frequência neste espaço de tempo de 40 dias, sabendo que a meditação da Paixão de Jesus tocou, ao longo dos séculos, muitos corações generosos, que se apaixonaram mais por Cristo e se decidiram a segui-Lo mais de perto, ao compreenderem que todo este sofrimento foi obra do seu amor incontornável por todos e cada um de nós.

Nem sempre a Cruz é bem entendida. Às vezes parece exagerada.

Para quê tanto sofrimento, para quê esse espectáculo de dor até ao indizível?

São quatro os relatos fiáveis que temos da Paixão do Senhor, narrados por Mateus, Marcos, Lucas e João. Cada qual parece superar o outro na rudeza das descrições. E, no entanto, pela nossa Fé sabemos que tais relatos são Palavra de Deus, isto é, verdades que Deus achou conveniente que nós conhecêssemos, com a sua chancela de narrador (os textos sagrados têm Deus como autor) e também de pastor espiritual das nossas almas.

Certamente, não podemos desligar a Paixão do Senhor da Sua gloriosa Ressurreição, que nos enche de alegria e de tranquilidade, pois vemo-Lo capaz de superar a lei da morte, enxertada no género humano pela desobediência dos nossos primeiros pais e não pelo desejo criador de Deus.

Por esta razão, se vivemos com intensidade os momentos duros da Paixão, aguardamos com a esperança da vida futura, que Jesus Cristo nos reconquistou, o Domingo de Páscoa.

A Quaresma chama-nos, pois, à penitência e à oração. Quer principalmente que nós reflictamos sobre a entrega do Senhor – voluntária e voluntariosa –, que não Se poupou qualquer esforço para nos redimir.

Não esqueçamos, no entanto, que há uma razão fundamental para Jesus Cristo se doar tanto, física e espiritualmente, até exalar o último suspiro no alto da Cruz. Cristo não é um ser deprimido ou masoquista: é um ser que ama dum modo inexcedível, como Deus e como Homem, cada um de nós e quer que um dia atinjamos o Céu para participarmos na felicidade inimaginável pelo ser humano da Santíssima Trindade. Por isso sofreu o que sofreu e mais sofreria se fosse necessário para a nossa salvação.

Nesta ordem de ideias, a reflexão sobre a Paixão ensina-nos que o Amor chega onde nenhum outro sentimento pode chegar, faz o que parece excessivo a quem não ama verdadeiramente e surge como uma brutalidade intolerável a quem não é capaz de compreender toda a dimensão de quem se entrega amorosamente para tornar os outros felizes.A Mãe de Jesus, na sua invocação de Nossa Senhora das Dores, poderá ser a acompanhante e a mestra dos nossos olhares sobre a Paixão, nestes tempos quaresmais.


A agonia no Horto das Oliveiras, Duccio (ca. 1310), Museo dell'Opera del Duomo, Siena

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