22 de fevereiro de 2008

Teresa de Ávila e a Humanidade Santíssima de Jesus

Teresa de Cepeda y Ahumada, que veio a ser Santa de Teresa de Jesus, nasceu em Ávila a 28 de Março de 1515 e faleceu em Alba de Tormes a 4 de Outubro de 1582. Fundou a reforma da Ordem Carmelita e é Doutora da Igreja. Adoptou como nome de religião «Teresa de Jesus» pelo amor que tinha pela Humanidade do Senhor.

«Isso de se afastar daquilo que é corpóreo bom deve ser, certamente, pois gente tão espiritual o diz; mas, a meu ver, há-de ser quando a alma já está muito adiantada, porque até aí, está claro que se há-de procurar o Criador pelas criaturas. Tudo é como a mercê do Senhor fizer a cada alma; nisso não me meto. O que gostaria de dar a entender é que não deve entrar nessa conta a santíssima Humanidade de Cristo (…) Mas que nós com manha e com cuidado nos acostumemos a não procurar com todas as nossas forças trazer sempre diante – e Deus queira que seja sempre – esta sacratíssima Humanidade, isto é que eu digo que não me parece bem e é como se a alma andasse no ar, segundo dizem; porque parece que não tem apoio, por muito que lhe pareça andar cheia de Deus.

É uma grande coisa, enquanto vivemos e somos humanos, trazê-l’O humano (…); nós não somos Anjos, temos corpo; querer-nos fazer Anjos estando na terra – e tão na terra como estava eu – é um desatino; é necessário ter um apoio no pensamento para o que é corrente; talvez algumas vezes a alma saia de si e ande tão cheia de Deus que não é precisa coisa criada para a recolher. Mas isso não é tão corrente, que em negócios e perseguições e trabalhos, quando não se pode ter tanta quietude, e em tempo de securas, é muito bom amigo Cristo, porque O vemos Homem e reparamos nas fraquezas e trabalhos, e é uma companhia»

(TERESA DE JESUS, Libro de la vida, cap. 22, 8-10; a tradução do original castelhano é nossa)

6 de fevereiro de 2008

No próximo dia 6, 4ª Feira, indica-nos o calendário que entramos na Quaresma.

Eis um período litúrgico que nos convida à penitência e à oração mais intensa. Jesus espera-nos nos momentos mais dolorosos da sua vida terrena. O Horto das Oliveiras, o julgamento indecoroso no Sinédrio judaico, o julgamento de Pilatos, a flagelação e a sua condenação à pena de morte na Cruz, são cenas que devemos contemplar com mais profundidade e com mais frequência neste espaço de tempo de 40 dias, sabendo que a meditação da Paixão de Jesus tocou, ao longo dos séculos, muitos corações generosos, que se apaixonaram mais por Cristo e se decidiram a segui-Lo mais de perto, ao compreenderem que todo este sofrimento foi obra do seu amor incontornável por todos e cada um de nós.

Nem sempre a Cruz é bem entendida. Às vezes parece exagerada.

Para quê tanto sofrimento, para quê esse espectáculo de dor até ao indizível?

São quatro os relatos fiáveis que temos da Paixão do Senhor, narrados por Mateus, Marcos, Lucas e João. Cada qual parece superar o outro na rudeza das descrições. E, no entanto, pela nossa Fé sabemos que tais relatos são Palavra de Deus, isto é, verdades que Deus achou conveniente que nós conhecêssemos, com a sua chancela de narrador (os textos sagrados têm Deus como autor) e também de pastor espiritual das nossas almas.

Certamente, não podemos desligar a Paixão do Senhor da Sua gloriosa Ressurreição, que nos enche de alegria e de tranquilidade, pois vemo-Lo capaz de superar a lei da morte, enxertada no género humano pela desobediência dos nossos primeiros pais e não pelo desejo criador de Deus.

Por esta razão, se vivemos com intensidade os momentos duros da Paixão, aguardamos com a esperança da vida futura, que Jesus Cristo nos reconquistou, o Domingo de Páscoa.

A Quaresma chama-nos, pois, à penitência e à oração. Quer principalmente que nós reflictamos sobre a entrega do Senhor – voluntária e voluntariosa –, que não Se poupou qualquer esforço para nos redimir.

Não esqueçamos, no entanto, que há uma razão fundamental para Jesus Cristo se doar tanto, física e espiritualmente, até exalar o último suspiro no alto da Cruz. Cristo não é um ser deprimido ou masoquista: é um ser que ama dum modo inexcedível, como Deus e como Homem, cada um de nós e quer que um dia atinjamos o Céu para participarmos na felicidade inimaginável pelo ser humano da Santíssima Trindade. Por isso sofreu o que sofreu e mais sofreria se fosse necessário para a nossa salvação.

Nesta ordem de ideias, a reflexão sobre a Paixão ensina-nos que o Amor chega onde nenhum outro sentimento pode chegar, faz o que parece excessivo a quem não ama verdadeiramente e surge como uma brutalidade intolerável a quem não é capaz de compreender toda a dimensão de quem se entrega amorosamente para tornar os outros felizes.A Mãe de Jesus, na sua invocação de Nossa Senhora das Dores, poderá ser a acompanhante e a mestra dos nossos olhares sobre a Paixão, nestes tempos quaresmais.


A agonia no Horto das Oliveiras, Duccio (ca. 1310), Museo dell'Opera del Duomo, Siena

1 de fevereiro de 2008

Determinações relativas ao jejum e abstinência

  • O jejum (*) e a abstinência (**) são obrigatórios em 4ª Feira de Cinzas e 6ª Feira Santa.
  • A abstinência é obrigatória, no decurso do ano, em todas as 6ªs Feiras que não coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades. Esta forma de penitência reveste-se, no entanto, de especial significado nas 6ªs Feiras de Quaresma.
  • O preceito da abstinência obriga os fiéis a partir dos 14 anos completos.
  • O preceito do jejum obriga os fiéis que tenham feito 18 anos até terem completado os 59.
  • As presentes determinações sobre o jejum e abstinência apenas se aplicam em condições normais de saúde, estando os doentes, por conseguinte, dispensados da sua observância.
(*) O jejum é a forma de penitência que consiste na privação de alimentos.
(**) A abstinência, por sua vez, (...) consiste na escolha de uma alimentação simples e pobre. Tradicionalmente, não comer carne.
In Directório Litúrgico, pp. 27 e 36.

A Confissão frequente

A Igreja estabelece que nos confessemos todos os anos (havendo pecados mortais). Não indica, porém, quantas vezes o devemos fazer. Aconselha a Confissão frequente. Mas a frequência, o ritmo, o número de vezes, compete a cada um decidir.

A Confissão frequente tem várias vantagens. Vamos expor quatro, mas é possível que tenha muitas mais.

A primeira é a da memória: quanto mais afastado está o momento em que alguma coisa sucedeu, mais dificuldade temos de reproduzir com exactidão o que aconteceu. As faltas praticadas há mais de um mês esbatem-se no esquecimento e só permanecem vivas as que ainda nos ferem, quer pela sua gravidade, quer pelas suas consequências.

A segunda é a da delicadeza: quanto mais frequente a Confissão, mais a pessoa encontra matéria para se arrepender. Quando a frequência é espaçada, tende-se a prestar atenção àquilo que é grande ou grave e a desprezar aquilo que é pequeno ou subtil. Mas todos temos experiência de que há ofensas pequenas e subtis que nos magoam mais do que outras mais descaradas. A delicadeza com Deus leva a reparar nas primeiras.

A terceira é a do conhecimento próprio: quanto menos nos confessamos, menos olhamos para o nosso interior em busca do que não está bem e necessita de uma correcção. A frequência da Confissão acaba por nos mostrar quem realmente somos. Pode acontecer que nos pareça que estamos sempre na mesma, e que os pecados se repetem de uma Confissão para outra. No entanto, se há delicadeza, eles não são exactamente os mesmos, e, de um modo que não percebemos mas que é real, a alma progride e melhora.

E a quarta é a paz e a graça: a Confissão produz o efeito de confirmar a alma na sua luta pela santidade e dá-lhe, ajudas chamadas graças, que se orientam precisamente para as faltas de que se acusou. Quando nos confessamos com alguma frequência experimentamos esse aconchego de Cristo, que nos chega pelo sacerdote e voltamos à luta com forças renovadas. Ora nós necessitamos deste auxílio mais do que uma vez por ano. Sem ele, a nossa luta torna-se muito solitária e é fácil que entre a tristeza e o pessimismo. A Confissão frequente renova a paz e a alegria interior.