22 de janeiro de 2008

Pensamentos de São João da Cruz

João de Yepes, mais tarde João da Cruz (1542-1591), é um dos grandes autores espirituais da cristandade. Com Teresa de Jesus, e sob o seu impulso, fundou a reforma carmelita entre os homens, e dirigiu muitas almas. É Doutor da Igreja. Entre os seus escritos conta-se uma colecção de 200 sentenças das quais escolhemos algumas.
«O Senhor sempre revelou aos mortais os tesouros da sua sabedoria e do seu espírito; mas agora, que a malícia vai mostrando cada vez mais o seu rosto, revela-os ainda mais»
«Mais vale estar carregado junto do forte do que aliviado junto do fraco. Quando estás carregado estás junto de Deus, que é a tua fortaleza, pois Ele está perto dos atribulados. Quando estás aliviado estás junto de ti, que és a tua própria fraqueza. A virtude e fortaleza da alma crescem e confirmam-se com trabalhos e paciência»
«Quem quiser estar sozinho, sem ajuda de mestre ou de guia, assemelha-se à árvore do campo, sozinha e sem dono: por muito fruto que dê, os caminhantes sempre a colherão antes de tempo»
«A alma virtuosa, sozinha e sem mestre, é como o carvão aceso que fica só: mais se vai esfriando que acendendo»
(retirado de Ditos de luz e de amor nn. 1, 4, 5 e 7, in SÃO JOÃO DA CRUZ, Obras completas, Ed. Carmelo, Marco de Canaveses, 2005, pp. 83ss)

1 de janeiro de 2008

A vida tem os seus ritmos próprios. E o calendário do ano ajuda-nos a relembrá-los e a vivê-los melhor.

Estamos em Janeiro. Começa um outro ano. E parece, de repente, que temos novo tempo à nossa frente, após Dezembro que acaba de passar. Sobre ele, deixámos rastos de nós mesmos, ora através das nossas limitações, ora por meio das coisas boas que conseguimos realizar.

Com estas recordações entrámos em 2008, que é, desde logo, uma dádiva que Deus põe ao nosso alcance, a fim de procurarmos o que Ele pretende de nós, no seu Amor misericordioso e paternal. santificar-nos cada vez mais, sabendo que não é santo quem apresenta uma folha imaculada de serviços prestados (como observava S. Josemaria Escrivá), mas quem tenta lutar por se aproximar mais de Deus. Vitórias e derrotas, sucessos e desaires, eis como sempre se apresenta a nossa vida e a vida de todos aqueles que foram fiéis a Deus e a Igreja canonizou.

Decerto que nos custa encarar as nossas fraquezas. Gostaríamos de ser perfeitos. Quando olhamos bem para dentro de nós, encontramos o rol de tantas cedências, de tanta falta de virtude e de tantos e tantos aspectos que nos daria vergonha se eles fossem expostos na praça pública. Quando o orgulho prevalece, procuraremos escondê-los, inclusivamente de nós mesmos, para que a imagem da auto-estima não sofra um abanão profundo.

Esquecemo-nos, porém, que de Deus nada podemos ocultar, pelo que seria mais lógico, com a confiança de um filho pequeno que não sabe dissimular as suas tolices, pedir-Lhe ajuda para superar as nossas lutas, sendo permeáveis à graça que Ele nos concede em todas as circunstâncias e para todas as necessidades.

Eis a razão pela qual o princípio de mais um ano que o Senhor nos concede é sempre um boa altura para deitarmos contas à vida e fazermos algum propósito de maior fidelidade. Se olharmos para a história das relações entre Deus e os homens, quer através do Antigo Testamento, quer lendo os Santos Evangelhos, verificaremos facilmente que o lado do cumprimento dos compromissos assumidos entre estes dois interlocutores sempre se encontra do lado de Deus.

Ele insta, pacientemente aguarda, recrimina, pode inclusivamente sancionar, mas acaba sempre por vir ao de cima a sua linguagem de perdão radical, que não guarda ressentimentos nem alimenta desejos de vingança. Um bom pai não sabe agir de outra maneira. Lembremo-nos da parábola do filho pródigo. Dir-se-ia que o pai aguardou no seu coração, desde a saída de casa extemporânea e injusta do filho, o mesmo grau de amor, Apenas esperava o seu regresso para o abraçar. E assim fez.

Não tenhamos medo de Deus, que apenas nos quer bem. Confiemos no seu Amor e na sua misericórdia, tentando corresponder a tão grande desvelo paternal, aceitando as suas sugestões e quebrando as barreiras que nos impedem de O ouvir e de O aceitar.

O nosso Deus tudo faz para nos salvar. Em Cristo, desprendeu-se de tudo e tudo procurou dispor para que a nossa entrada no céu não fosse impedida. Não nos revelou Cristo que havia reservado para nós muitas moradas celestiais? Não encarnou para estar mais próximo do homem e nos tornar mais compreensível a qualidade do seu amor por cada um de nós, vendo como amava o Coração de Cristo todas as pessoas?

E o que dizer do gesto de disponibilidade de Jesus, até então filho único de Maria Santíssima, quando, pouco antes de morrer, solicita e encarrega a sua mãe de nos adoptar como filhos seus, a fim de sentirmos nas asperezas do nosso caminho o mesmo olhar e o mesmo amor maternal de Nossa Senhora, que tanto acalentaram Jesus na sua agonia no Monte Calvário?

Acreditemos: se Deus pudesse fazer mais alguma coisa pela nossa salvação, fá-lo-ia. Assim nos ama e assim nos trata!

A todos, um bom ano de 2008.

Bartolo FREDI, Adoração dos Magos, Pintura em Madeira

Recolecção Mensal

Todos notamos a falta que nos faz o recolhimento.

Re-colher é voltar a colher, apanhar algo está espalhado e juntá-lo na nossa mão; assim se recolhe o lixo, ou os objectos que serviram para fazer alguma coisa, depois de terminada essa actividade.

Há coisas que se podem colher, como as flores do campo e os frutos das árvores. Mas essas colhem-se, não se recolhem. Recolhem-se as coisas que perderam a sua união e se espalharam indevidamente: esse é o nosso caso.

Porque nos espalhamos? Não é o trabalho, nem a vida familiar, nem o contacto com outras pessoas, nem sequer os imprevistos aquilo que nos faz dispersar a atenção e perder a intimidade com Deus. O próprio Deus quer que O encontremos no trabalho, na família, na vida social e é Ele mesmo quem nos envia esses imprevistos. Aquilo que nos dispersa é a nossa tendência para a desordem, aquilo a que chamamos concupiscência: um desejo excessivo de coisas que não são Deus e sobretudo o nosso próprio eu, o nosso prazer, a nossa glória, o nosso domínio.

Quando damos conta estamos dispersos e confusos, cansados e cheios de ruído. Um ruído que não é exterior mas íntimo. Um ruído mau, nascido do pecado.

Necessitamos de parar. Necessitamos de nos isolar, de procurar Deus, no silêncio acompanhado da oração. Todos os dias, uns minutos. Todos os meses, umas horas. Todos os anos, um retiro mais longo, de vários dias.

O ritmo mensal da Recolecção ajuda a recuperar aquelas ideias e propósitos do Retiro anual, e lança o dia-a-dia numa nova procura de Deus e da santidade. Assim o mundo em que vivemos torna-se cada vez mais um lugar de encontro com Deus.