22 de dezembro de 2007

Pensamentos do Santo Cura d'Ars

Jean Marie Baptiste Vianney, o Santo Cura de Ars, não escreveu nenhum livro, não fundou nenhuma congregação, não foi Bispo nem Papa nem Mártir. Foi simplesmente o Pároco de uma aldeia – Ars – na Diocese de Lyon, em França, durante a primeira metade do século XIX. Mas revolucionou a história da Igreja. Ele foi com a sua penitência, a sua dedicação às almas e sobretudo o seu amor a Deus, um foco de calor que atraiu de todo o mundo multidões que queriam receber dele a sentença de Cristo que perdoa. Eis alguns pensamentos tirados da sua pregação:
«Eu Vos amo, meu Deus, e o meu único desejo é amar-Vos até ao último suspiro da minha vida. Eu Vos amo, Deus infinitamente amável, e prefiro morrer a amar-Vos a viver um só instante sem Vos amar. Eu Vos amo, Senhor, e a única graça que Vos peço é a de amar-Vos eternamente. Eu Vos amo, meu Deus, e não desejo o Céu senão para ter a felicidade de Vos amar perfeitamente. Eu Vos amo, meu Deus infinitamente bom, e não compreendo o Inferno senão porque lá não haverá nunca a consolação de Vos amar, Meu Deus, se a minha língua não Vos pode dizer a todo o momento que Vos amo, quero que o meu coração Vo-lo repita cada vez que respire.»

18 de dezembro de 2007

A Coroa do Advento

Durante o mês de Dezembro temos ocasião de preparar o Natal. Este é um dos tempos fortes da liturgia pela alegria da visita que esperamos: um Menino que nos vai ser dado e que é o próprio Deus, o Criador.

Essa alegria é tanto maior quanto mais consciente a preparação da celebração. Nesse sentido o Advento também implica algum jejum: é como quando se quer receber uma pessoa muito amiga e não se consegue comer na ânsia de que chegue depressa. Contam-se os dias até que o possamos ir esperar ao aeroporto ou à estação de comboio.

Existe uma antiga tradição da Igreja que consiste em fazer uma coroa de ramos de plantas perenes – não de folha caduca – de árvores que se mantêm verdes no Inverno, simbolizando talvez a fidelidade de Deus à sua promessa de nos vir salvar e colocar sobre essa coroa quatro velas em cruz, uma por cada Domingo de Advento.

Podemos então atribuir um significado a cada vela e semana, enriquecendo a nossa preparação A primeira vela é a da alegria, da surpresa e da gratidão; não esperávamos que essa pessoa ainda se lembrasse de nós e que quisesse mesmo empreender a viagem para nos vir visitar. Assim os primeiros dias de Advento podem ser de acção de graças pelo cumprimento da promessa de salvação.

A segunda vela é a dos preparativos para receber o amigo: onde o vamos alojar, onde vamos tomar as refeições, que sítios gostaria de visitar, que coisas lhe podemos mostrar? Assim, a segunda semana do Advento poderia estar marcada pelo desejo, pela imaginação, pelo Presépio, pelos enfeites de Natal.

A terceira vela é a da pena ao recordarmos que, no passado, nem sempre nos portámos bem com aquele amigo que agora nos visita e gostávamos que esta fosse uma ocasião para pedir desculpa. Assim a terceira semana do Advento pode estar marcada pela contrição, por uma Confissão especialmente bem feita.

A quarta vela é a partida ao encontro do amigo que chega, levando-lhe talvez um presente, e aperaltando-nos no vestir e na presença. Assim, os últimos dias do Advento podem estar marcados por esforço mais sincero por viver a caridade sobretudo com os mais próximos, especialmente os mais débeis.

1 de dezembro de 2007

Recordo-me de um velho amigo, bom cristão e bom pai, me ter abordado, na minha condição de sacerdote. Queria desabafar o seu descontentamento pelo facto de ter recebido um grande número de cartões de Boas Festas sem qualquer referência ao verdadeiro sentido do Natal. Dizia-me, contristado: “O Natal é o aniversário de Jesus, Nosso Salvador. Pois bem: entre renas nórdicas, palhaços, árvores cheias de neve, doces, comida apetitosa, patos num lago, pintainhos imberbes e até alguma gaiata sem frio e com pouca roupa, recebi cartões de Boas Festas. Senti-me triste e com pena de que se esteja a dessacralizar o sentido do Natal, tornando-o numa festa pagã e consumista”.

É bom não esquecer que o Natal consiste essencialmente na celebração do nascimento de Jesus, que habitou por obra e graça de Espírito Santo no seio de Maria Santíssima durante os tempos normais de gestação, foi dado à luz e depois cresceu, sendo educado primorosamente por Nossa Senhora e S. José. Acabou por morrer na Cruz do Calvário, condenado por Pôncio Pilatos, Procurador Romano que se encontrava em Jerusalém pela festa da Páscoa Judaica. Antes, durante aproximadamente três anos, percorreu o território da Palestina a pregar o reino dos Céus ou de Deus, como mensageiro encarregado pela Santíssima Trindade de redimir todos os homens, ou seja, torná-los aptos a receberem de novo a graça de Deus e a filiação divina, dons que o podem conduzir até ao Céu, o fim para o qual Deus o criou.

Pôr de parte esta realidade na quadra natalícia é, em primeiro lugar, uma injustiça para com Quem tanto nos amou e manifestou imensa confiança no homem. Recorde-se que Jesus Cristo, enquanto Deus, foi o criador de todo o ser humano. No entanto, não teve relutância em encarnar, isto é, em tornar-Se homem como todos nós desde a sua concepção até à morte, excepto no pecado: com muito amor, começar por ser uma criança inerme, entregue ao cuidado dos pais não apenas para ser educado por quem o aceitou gerar, mas para poder subsistir nesta existência terrena como qualquer bebé recém-nascido. Depois, sim, foi educado, aprendendo a falar, a rezar, a relacionar-se com os outros, a trabalhar, etc. Assim passou perto de trinta anos, na chamada “vida oculta”, onde se preparou humanamente para a sua missão de Messias.

Em segundo lugar, o seu nascimento em Belém de Judá não é uma lenda piedosa, que o imaginário devocional dos cristãos arquitectou. Pelo contrário, é um facto histórico e real. E por ter sido o mais relevante de toda a história humana, deve ser evocado como tal e não de um modo que nos faça esquecê-lo.

Por isso, tem de haver, da nossa parte, um esforço por “recristianizar” o Natal. Para o efeito, basta usar algum senso comum. Por exemplo, com os cartões de Boas Festas que enviamos. Se a temática do Presépio e das cenas a ele ligadas não fazem parte dessas missivas e mensagens calorosas e amigas, traímos o que de real e histórico se comemora nesta quadra.

Palhaços há-os todo o ano, assim como as outras referências que se deram atrás. Omitir o nascimento de Cristo nos nossos cartões de Boas Festas não é cristão e serve para desvirtuar o significado autêntico do Natal.

Façamos um propósito: neste Natal, os meus cartões falarão de Jesus, do seu nascimento em Belém, da Sagrada Família e de outras imagens afins. Podemos estar certos de que efectuaremos com eles uma boa evangelização.

A todos, votos de um Santo Natal e de Boas Festas.

P. Rui Rosas da Silva

«Adoração dos Pastores», óleo sobre tela, escola portuguesa do séc. XVIII, Tesouro da Sé Patriarcal, Lisboa, Foto de José Frade