1 de novembro de 2007

O mês de Novembro, com a devoção que nele se vive de sufragar as almas dos que já partiram da nossa companhia, recorda-nos uma verdade que às vezes anda esquecida do nosso dia a dia: a Igreja tem três estados reais, que se unem entre si através de Cristo, sua Cabeça e do Espírito Santo, sua Alma e seu vivificador.

Falamos, em primeiro lugar, da Igreja chamada militante, constituída por todos aqueles que, como nós, nos encontramos a caminho da vida eterna, nesta terra que Deus nos confiou para a administrar e dela usufruirmos tudo aquilo que a magnanimidade divina nos concede. Por isso, a vida terrena deverá ser, para todo o cristão, uma constante preparação da vida além-túmulo.

Falamos, seguidamente, da Igreja padecente – a que lembramos de um modo especial no Dia de Fiéis Defuntos -, formada por todas as almas que se encontram no purgatório à espera da sua entrada no Céu.

E, por fim, falamos da Igreja triunfante, conjunto de todos os nossos irmãos que já entraram no Céu, e, por isso mesmo, gozam da visão beatífica por toda a eternidade. Deles nos lembramos no primeiro dia de Novembro, Dia de Todos os Santos.

A Igreja é, pois, essa realidade viva, em que há troca de benefícios entre todos os seus membros, através da Comunhão dos Santos, que S. Josemaría comparava a uma espécie de transfusão de sangue: Comunhão dos Santos. – Como to hei-de dizer? – Sabes o que são as transfusões de sangue para o corpo? Pois assim vem a ser a Comunhão dos Santos para a Alma. (Cfr. Caminho, n. 544).

Certamente que quem está no Céu já não necessita de que rezemos por eles, porque a meta que deviam alcançar foi já conquistada de forma definitiva. Mas por serem almas que vivem imersas no Amor de Deus – a Caridade -, podem compreender com muito mais perspicácia as nossas necessidades e serem generosas intercessoras junto da Santíssima Trindade. Dialoguemos com elas, dando-lhe os parabéns por já estarem no Céu e solicitando-lhes os favores que desejemos obter da misericórdia divina.

As almas do Purgatório aguardam o momento de subirem ao Céu, enquanto satisfazem as penas temporais devidas aos seus pecados terrenos, que não foram totalmente remidas até à hora da morte. São almas santas, já julgadas por Cristo, dignas do Céu. Deste modo, podemos e devemos rezar por elas, pedindo ao Senhor que as leve para a sua companhia o mais brevemente possível. É esse o sentido dos nossos sufrágios pelas almas do purgatório. Muitos pensam que também são, de algum modo, intercessoras, pelo que nos podemos confiar a elas, solicitando-lhes que nos acudam em alguma necessidade, através das suas petições junto de Deus. E assim obteremos muitos favores.

Neste mês de Novembro, procuremos meditar sobre a realidade da Igreja, não a reduzindo à sua parte terrena. É a que mais facilmente descobrimos, mas não é toda a Igreja. Os outros dois estados são seus constitutivos e não podemos ignorá-los. Rezemos muito pelas almas do purgatório. Por cada graça que lhes possamos alcançar através das nossas orações e sacrifícios, grangearemos de certeza grandes amigas, que jamais esquecerão a nossa generosa intercessão. E quando Jesus as conduzir para o Céu, continuarão a agradecer para todo o sempre essa pequena boa acção que lhes fizemos.

Nos nossos sufrágios e nas nossas orações pela Igreja Padecente e Militante, a mediação de Nossa Senhora será a garantia de que a Mãe de Cristo e nossa Mãe, medianeira de todas as graças, implorará a Deus com toda a sua força persuasiva pela salvação de todos os filhos que, desde a Cruz, Jesus confiou ao seu amor maternal.

P. Rui Rosas da Silva

Nossa Senhora da Misericórdia, Simone Martini (princípios do século XIV)

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