22 de novembro de 2007

O lema de João Paulo II

Em 1993, quando se cumpriam 15 anos de pontificado, o jornalista italiano Vittorio Messori elaborou uma extensa entrevista ao Papa João Paulo II, perguntando-lhe, com um são descaramento, coisas que talvez mais ninguém se atrevesse a perguntar. A primeira pergunta foi precisamente sobre o que é ser Papa, o escândalo que é que um homem tome o nome de Pai – este o significado de papa em grego –, e deu pé a uma resposta que tocou no lema de João Paulo II: «Não tenhais medo!».
«Cristo dirigiu muitas vezes este convite aos homens que encontrava. Isto disse o Anjo a Maria: “Não tenhas medo” (Lc 1,30). A mesma coisa a José: “Não tenhas medo” (Mt 1,20). Cristo fala assim aos Apóstolos, a Pedro, em várias circunstâncias, e especialmente após a sua Ressurreição. Insistia: “Não tenhais medo!”. Sentia de facto que tinham medo. Não tinham a certeza de que Aquele que estavam a ver fosse o mesmo Cristo que conheciam. Tiveram medo quando foi preso, tiveram ainda mais medo quando, ressuscitado, lhes apareceu.
As palavras proferidas por Cristo, repete-as a Igreja. E, com a Igreja, repete-as também o Papa. Fi-lo desde a primeira homilia na praça de São Pedro: “Não tenhais medo!”. Não são palavras pronunciadas no vazio. São profundamente radicadas no Evangelho. São simplesmente as palavras do próprio Cristo.
Não devemos ter medo de quê? Não devemos temer a verdade sobre nós próprios. Pedro tomou consciência disso, um dia, com especial intensidade, e disse a Jesus: “Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8).
Penso que não terá sido só Pedro a ter consciência desta verdade. Todo o homem se apercebe dela. E também cada sucessor de Pedro. Apercebe-se dela, de um modo particularmente claro, aquele que neste momento lhe responde. Cada um de nós está grato a Pedro por aquilo que disse naquele dia: “Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”. Cristo respondeu-lhe: “Não tenhas receio; de futuro serás pescador de homens” (Lc 5,10). Não ter medo dos homens! O homem é sempre igual. Os sistemas que ele cria são sempre imperfeitos, e são tanto mais imperfeitos quanto mais ele se sente seguro de si. Onde tem isto origem? No coração do homem. O nosso coração está inquieto. O próprio Cristo conhece melhor que todos a nossa angústia: “Ele sabe o que há em cada homem” (cf. Jo 2,25
(JOÃO PAULO II, Atravessar o limiar da esperança, Planeta, Lisboa, 1994, pp. 4-5)

18 de novembro de 2007

Os Sufrágios pelas Almas

Todos nós conhecemos pessoas que já morreram. A sua partida, por vezes, deixou-nos o peso da falta de alguém onde brilhava a luz de Deus. Ela era para nós especialmente querida por ser especialmente sobrenatural. E temos por ela uma certa convicção de que já goza do Céu. Por ela devemos pedir – é uma obrigação de estrita justiça –, mas a convicção da sua proximidade de Deus leva-nos também a tomá-la como intercessora junto de Nosso Senhor e, portanto, a pedir-lhe coisas, a apresentar-lhe as nossas intenções.

Outras almas há, porém, cuja partida não marcou a nossa da mesma maneira. E, embora o nosso juízo seja falível porque nada sabemos do estado de uma alma, nem sequer da nossa, sentimos uma urgência maior em oferecer sufrágios a Deus, pedindo pelo alívio das penas que eventualmente esteja a sofrer no Purgatório.

Qual a melhor forma de sufragar as Almas?

Do ponto de vista objectivo, o melhor sufrágio é, sem dúvida a Santa Missa, porque nela se oferece o próprio sacrifício redentor de Cristo, realizado uma única vez no Calvário, e actualizado ou tornado presente sobre o altar, em virtude do ministério do sacerdote. Sabemos que qualquer fiel pode oferecer privadamente o sacrifício eucarístico pela intenção que desejar. Mas também pode envolver o ministro celebrante e toda a assembleia tornando esse oferecimento público, e como que mais comunitário, pelo que ganha, digamos assim, uma força especial.

Também conhecemos a doutrina sobre as indulgências (recordada no Boletim n. 34, de Julho de 2007). Aqui, porém, actua muito mais a subjectividade de quem as obtém, uma vez que as suas disposições íntimas é que determinam os efeitos. De qualquer modo, no dia 2 de Novembro pode-se obter uma indulgência plenária aplicável pelas Almas do Purgatório, por rezar numa igreja ou capela, um Credo ou Pai-Nosso pelas intenções do Santo Padre, e nos primeiros oito dias desse mesmo mês por fazer outro tanto num Cemitério.

Além disso, tudo o que pudermos fazer de bom, de digno, de nobre, pode ser oferecido a Deus por essas nossas irmãs, e nós seremos também beneficiados, porque cresce em nós a caridade, porque meditamos nas verdades eternas e porque recebemos os frutos da intercessão delas junto de Deus.

1 de novembro de 2007

O mês de Novembro, com a devoção que nele se vive de sufragar as almas dos que já partiram da nossa companhia, recorda-nos uma verdade que às vezes anda esquecida do nosso dia a dia: a Igreja tem três estados reais, que se unem entre si através de Cristo, sua Cabeça e do Espírito Santo, sua Alma e seu vivificador.

Falamos, em primeiro lugar, da Igreja chamada militante, constituída por todos aqueles que, como nós, nos encontramos a caminho da vida eterna, nesta terra que Deus nos confiou para a administrar e dela usufruirmos tudo aquilo que a magnanimidade divina nos concede. Por isso, a vida terrena deverá ser, para todo o cristão, uma constante preparação da vida além-túmulo.

Falamos, seguidamente, da Igreja padecente – a que lembramos de um modo especial no Dia de Fiéis Defuntos -, formada por todas as almas que se encontram no purgatório à espera da sua entrada no Céu.

E, por fim, falamos da Igreja triunfante, conjunto de todos os nossos irmãos que já entraram no Céu, e, por isso mesmo, gozam da visão beatífica por toda a eternidade. Deles nos lembramos no primeiro dia de Novembro, Dia de Todos os Santos.

A Igreja é, pois, essa realidade viva, em que há troca de benefícios entre todos os seus membros, através da Comunhão dos Santos, que S. Josemaría comparava a uma espécie de transfusão de sangue: Comunhão dos Santos. – Como to hei-de dizer? – Sabes o que são as transfusões de sangue para o corpo? Pois assim vem a ser a Comunhão dos Santos para a Alma. (Cfr. Caminho, n. 544).

Certamente que quem está no Céu já não necessita de que rezemos por eles, porque a meta que deviam alcançar foi já conquistada de forma definitiva. Mas por serem almas que vivem imersas no Amor de Deus – a Caridade -, podem compreender com muito mais perspicácia as nossas necessidades e serem generosas intercessoras junto da Santíssima Trindade. Dialoguemos com elas, dando-lhe os parabéns por já estarem no Céu e solicitando-lhes os favores que desejemos obter da misericórdia divina.

As almas do Purgatório aguardam o momento de subirem ao Céu, enquanto satisfazem as penas temporais devidas aos seus pecados terrenos, que não foram totalmente remidas até à hora da morte. São almas santas, já julgadas por Cristo, dignas do Céu. Deste modo, podemos e devemos rezar por elas, pedindo ao Senhor que as leve para a sua companhia o mais brevemente possível. É esse o sentido dos nossos sufrágios pelas almas do purgatório. Muitos pensam que também são, de algum modo, intercessoras, pelo que nos podemos confiar a elas, solicitando-lhes que nos acudam em alguma necessidade, através das suas petições junto de Deus. E assim obteremos muitos favores.

Neste mês de Novembro, procuremos meditar sobre a realidade da Igreja, não a reduzindo à sua parte terrena. É a que mais facilmente descobrimos, mas não é toda a Igreja. Os outros dois estados são seus constitutivos e não podemos ignorá-los. Rezemos muito pelas almas do purgatório. Por cada graça que lhes possamos alcançar através das nossas orações e sacrifícios, grangearemos de certeza grandes amigas, que jamais esquecerão a nossa generosa intercessão. E quando Jesus as conduzir para o Céu, continuarão a agradecer para todo o sempre essa pequena boa acção que lhes fizemos.

Nos nossos sufrágios e nas nossas orações pela Igreja Padecente e Militante, a mediação de Nossa Senhora será a garantia de que a Mãe de Cristo e nossa Mãe, medianeira de todas as graças, implorará a Deus com toda a sua força persuasiva pela salvação de todos os filhos que, desde a Cruz, Jesus confiou ao seu amor maternal.

P. Rui Rosas da Silva

Nossa Senhora da Misericórdia, Simone Martini (princípios do século XIV)