1 de outubro de 2007


Com Outubro, dissemos adeus ao tempo de férias. Já o calor não se faz sentir e a vida profissional, com todas as suas solicitações, requer de nós um esforço quotidiano sempre e sempre mais exigente.

Cada época da história teve as suas características e os seus ídolos. Certamente que, nos nossos dias, não adoramos animais nem astros, apesar da descristianização da sociedade nos manifestar que, quando o Deus verdadeiro é esquecido ou relegado para um lugar secundário, ressuscitam, como que por encanto, tantas práticas supersticiosas e crenças escusas e ridículas, que pensávamos já completamente ultrapassadas.

Na sociedade actual, um ídolo perigoso, que se compagina mais com a racionalidade do ser humano, é o trabalho. Em si mesmo, é uma bênção de Deus, que quer que o homem o utilize para tornar a vida diária mais agradável de acordo com as suas necessidades, e seja também uma forma através da qual, nós, que fomos criados à sua imagem e semelhança, transformemos toda a riqueza do universo, que Ele pôs à nossa disposição com uma magnânima generosidade de meios e recursos.

É bom não esquecer que, mesmo antes do pecado original, Deus quis que o homem trabalhasse, pois, como se escreve no Génesis 2, 15: O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden para o cultivar e, também, para o guardar. Se a falta dos nossos primeiros pais tornou a tarefa profissional mais custosa: da terra (...) só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida (Gén 3, 17), ele continuou a ser o modo de subsistência do homem, que com o seu exercício grangeia para si aquilo de que necessita para viver e contribuir para o bem comum. Sem trabalho, tudo se degrada. S. Paulo dizia: Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer (2 Tes 3, 10).

Não sendo a nossa profissão uma maldição, mas uma maneira querida por Deus para o ser humano se realizar e santificar, ela pode tornar-se de facto um ídolo doloso, ao qual se sacrificam valores e deveres fundamentais, com o aplauso da nossa sociedade. Ser hoje em dia um excelente profissional ou um profissional de êxito é olhado como um factor de exaltação de quem se impõe assim ao nosso mundo. Pode ser um péssimo pai ou uma mãe descuidada e ausente, não saber viver em família, coleccionar companheiros ou companheiras diversos como quem viaja por paisagens diferentes. É um excelente profissional? Tudo se desculpa, ou melhor, nem sequer se desculpa, porque o ídolo trabalho merece que a ele se sacrifique o melhor do tempo, o melhor da inteligência, o melhor da vontade e o melhor do afecto. Os outros compromissos são acidentes de percurso, que não podem obstaculizar a saga do êxito profissional e dos resultados a ele inerentes.

O trabalho, enquanto tarefa santificável, aperfeiçoa o ser humano em toda a sua plenitude. Apoiado na graça de Deus, que sana e auxilia todo o esforço natural que o homem desenvolve, torna-o verdadeiramente virtuoso, isto é, capaz de desenvolver e praticar com equidade tudo o que o faz verdadeiramente bom, verdadeiramente santo. Como S. José e Nossa Senhora, como Jesus por eles tão bem educado.

Diante de Deus, qual será o valor do esforço dum grande profissional, se ele se esquece ou sacrifica as outras obrigações que contraiu? O sangue azul, outrora, era motivo para que uma pessoa tivesse conhecidas vantagens diante dos homens. Ela deveria, no entanto, responder, diante de Deus, pelo modo como usou tal prerrogativa nesta vida. O mesmo acontece no mundo laboral. Ou a pessoa se santifica com o seu trabalho, ou perde o tempo que Deus lhe proporciona para investir na sua salvação. Pode um santo ter-se evidenciado por alguma virtude específica que viveu. Mas não abandonou a luta, por desleixo ou comodismo, em relação a outras que lhe eram mais desfavoráveis, difíceis ou socialmente menos conceituadas. O santo é o que procurou viver todas as virtudes em grau heróico.

Neste mês em que a actividade profissional se tornou mais exigente, façamos exame de consciência sobre as nossas disposições perante o trabalho. E peçamos a Nossa Senhora do Rosário – estamos no seu mês – que nos ajude a rectificar o que não estiver bem.

P. Rui Rosas da Silva

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