1 de agosto de 2007

“Hoje, em união com toda a Igreja, celebramos o triunfo da Mãe, Filha e Esposa de Deus. E assim como nos sentíamos felizes no tempo da Páscoa da Ressurreição, (...) agora sentimo-nos alegres, porque Maria, depois de acompanhar Jesus de Belém até à Cruz, está junto d’Ele, em corpo e alma, gozando da sua glória por toda a eternidade” (S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 176).

Estas palavras do Fundador do Opus Dei, a propósito da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, que celebraremos no próximo dia 15 deste mês de Agosto, ajudam-nos a compreender melhor o trajecto de santidade excelsa de Nossa Senhora. Ela, que foi escolhida por Deus para ser a Mãe de Jesus, pôs toda a sua vida ao serviço deste desígnio divino, sem nunca dizer que não a qualquer solicitação requerida por Deus.

Por isso, mereceu ser levada para o Céu, em corpo e alma. Não por qualquer favor especial de Jesus, mas por ter sido julgada digna de aí ascender pelos méritos que aqui na vida terrena alcançou, correspondendo integralmente à graça que Deus lhe deu, desde a sua concepção, até ao momento em que a levou para o banquete celestial. Toda a sua vida foi um sim reiterado ao que Deus lhe pedia. Vejamos:
Quando Maria é indagada pelo Arcanjo S. Gabriel sobre a sua disponibilidade para aceitar ser a Mãe do Messias, Nossa Senhora responde positivamente. Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 37). Tem consciência de que, a partir daquele momento, será sujeita à dura prova de causar perplexidade no seu jovem esposo, que tanto amava. Confia em Deus, abandonando-se nas suas mãos, que resolve a inquietação de José, dizendo-lhe: Não temas, José, filho de David, receber em tua casa Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo (Mt 1, 20).

Duas lições nos deu Maria: aceitar sem reservas a vontade de Deus e confiar as dificuldades à providência divina, que nunca tenta ninguém acima das suas próprias forças (1 Cor 10, 13), porque além de justíssimo nos ama como nenhum outro ser.

Nossa Senhora é incapaz de esquecer as necessidades do seu próximo. Algum tempo depois da concepção de Cristo no seu seio, ei-la de abalada custosa até à sua prima Isabel, que engravida pela primeira vez em idade avançada e necessita do seu auxílio: (...) foi com pressa às montanhas (...) Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel (...) que mal ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1, 41). E é esta criança, João Baptista, quem pela primeira vez atesta a presença do Salvador na terra.

Jesus nasce em condições paupérrimas em Belém, de modo aparentemente imprevisto. Maria e José apenas podem oferecer-Lhe o seu carinho e desvelo, nada mais. Não protestam. Aceitam as circunstâncias como bons filhos de Deus, que em breve os recompensa, com a presença de alguns pastores, gente simples e humilde, que apresentam ao Redentor as primeiras homenagens do género humano, depois de ouvirem uma corte de anjos no Céu exclamar: Glória a Deus no mais alto dos céus... (Lc 2, 14).

A infância de Jesus decorre com normalidade. Ele (...) era-lhes submisso (Lc 2, 51), diz o evangelista a respeito de Jesus, que, no entanto, de modo algo insuspeito, não deixa os seus pais sem grandes aflições, quando O perdem em Jerusalém, e, após três dias de angústia e muita oração, O encontram no templo da cidade santa em diálogo com os rabis desses tempos. E sua mãe disse-Lhe: Filho, porque procedeste assim connosco? (...) Ele respondeu-lhes: Para que Me procuráveis? Não sabeis que devo ocupar-Me nas coisas de meu Pai? (Lc 2, 48-49). Maria tem dificuldade de entender estas palavras do Filho. Mas, por saber Quem era o seu autor, diz S. Lucas que a reacção de Nossa Senhora foi conservar (...) todas estas coisas no seu coração (Lc 2, 51), como um tesouro precioso para meditar e rezar.

A vida pública de Nosso Senhor pouco nos fala de Maria. José, segundo tudo leva a crer, já tinha partido para a eternidade. No entanto, quando a presença da Mãe é necessária para acompanhar Jesus na sua Paixão e Morte, aí a encontramos, fiel como sempre, cheia de dor e de pena, embora acalentando o Filho a levar o sacrifício até às últimas consequências. Era vontade de Deus que o terrível sofrimento do nosso Salvador servisse de tenaz para abrir às almas justas as portas do Céu, fechadas a todos os homens desde o pecado de Adão.

Fiel da concepção até à morte, o trajecto de Maria é o da santidade plena e imaculada. Cristo, na Cruz, torna-a nossa Mãe, a fim de que nos ajude a seguir com mais determinação o caminho do Céu. Levou-a para aí, em corpo e alma. Assim a conheceu na terra e por ela foi acarinhado e educado. Desde então, no Céu, tal como neste mundo, temos um Pai e uma Mãe. Esta não é de natureza divina. Mas ajuda-nos a compreender melhor o Amor familiar, paternal que Deus nos tem.

P. Rui Rosas da Silva

Assunção de Nossa Senhora, El Greco (1577), óleo sobre tela, 401x229cm, Art Institute of Chicago

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