22 de agosto de 2007

Relembrando textos da viagem de João Paulo II a Portugal, em 1982

Entre 12 e 15 de Maio de 1982 o Papa João Paulo II visitou o nosso país deixando-nos um tesouro inestimável, da sua palavra, da sua vida santa e do seu carinho por nós. Vinha como peregrino agradecer a Nossa Senhora o tê-lo salvo de um atentado que sofrera na Praça de São Pedro em 13 de Maio de 1981. Recordamos algumas palavras pronunciadas na Homilia da Missa para os jovens, celebrada no Parque Eduardo VII, em Lisboa, a 14 de Maio.
Relembrando textos da viagem de João Paulo II a Portugal, em 1982:
«O Reino de Deus está próximo! Sim! “Dizei a todos: está próximo de vós o Reino de Deus” (Lc 10,9) (...) São dirigidas estas palavras especialmente a vós, jovens, que aqui vos encontrais esta tarde, em tão grande número, cheios de entusiasmo e alegria, manifestando a vossa disponibilidade a Cristo e o vosso desejo de construir um mundo mais humano e cristão. (...) E quase me atreveria a dizer: estas palavras são dirigidas especialmente a vós, jovens portugueses, filhos de um povo de missionários que, por todo o mundo levaram esta mesma mensagem (...).
Sim, a vós, jovens: porque no vosso espírito está impressa, de modo particular, a problemática essencial da salvação, com todas as suas esperanças e tensões, sofrimentos e vitórias. É sabido quanto vós sois sensíveis à tensão entre o bem e o mal, que existe no mundo e em vós próprios. (...) Espontaneamente sois levados a rejeitar o mal e a desejar o bem. Mas, algumas vezes, tendes dificuldade em ver e em aceitar que para chegar ao bem é preciso passar pela renúncia, o esforço, a luta, a cruz (...).
Contudo, caros jovens, para além destas tensões, possuís uma aptidão quase conatural para evangelizar. Porque a evangelização não se faz sem o entusiasmo juvenil, sem juventude no coração, sem um conjunto de qualidades em que a juventude é pródiga: alegria, esperança, transparência, audácia, criatividade, idealismo... Sim, a vossa sensibilidade e a vossa generosidade espontânea, a tendência para tudo o que é belo, tornam cada um de vós um “aliado natural” de Cristo. (...)
A vossa tensão de jovens pode resumir-se entre o «já» e o «ainda não». Já sentis responsabilidade mas ainda não tende oportunidades para demonstrá-la. Já quereis contribuir eficazmente para o bem comum, tanto com ideias como com obras, mas ainda não se deparam as ocasiões. Ora é exactamente neste momento, no grande momento da opção e preparação do vosso futuro, que mais precisais de Cristo. (...) Sede generosos: escolhei com amor e preparai-vos bem.»
(Discursos do Papa João Paulo II em Portugal, Ed. Conferência Episcopal Portuguesa, 1982, pp. 153 e ss.)

18 de agosto de 2007

Como descansar?

Descansar é uma arte. Por vezes, constatamos que terminadas as férias, descansamos pouco, não tanto por nos terem faltado meios ou tempo, mas simplesmente por não termos sabido como fazê-lo.

Aqui vão algumas sugestões:

Primeiro: libertar-se da urgência de descansar, isto é, não pensar em nós mesmos e no nosso cansaço, não tentar medir se estamos mais ou menos descansados.

Segundo: ocupar-se do descanso dos outros, fazer com que os outros descansem, sobretudo os da nossa casa e descansar com eles.

Terceiro: libertar-se de programas concretos, aceitar que Deus nos troque as voltas, não nos deixando descansar como tínhamos previsto.

Quarto: ter programas concretos (parece uma contradição com o que antes se disse, mas não é); fazer planos com horários e executá-los, sabendo, no entanto, relativizá-los. Ter o tempo bem preenchido.

Quinto: dedicar o melhor tempo a Deus: não Lhe dar as sobras do dia, mas a primeira hora da manhã.

Sexto: rever a lista de amigos, telefonar, escrever, combinar encontros.

Sétimo: dormir, sempre que possível de noite; não alinhar em programas que se prolonguem exageradamente pela noite fora.

1 de agosto de 2007

“Hoje, em união com toda a Igreja, celebramos o triunfo da Mãe, Filha e Esposa de Deus. E assim como nos sentíamos felizes no tempo da Páscoa da Ressurreição, (...) agora sentimo-nos alegres, porque Maria, depois de acompanhar Jesus de Belém até à Cruz, está junto d’Ele, em corpo e alma, gozando da sua glória por toda a eternidade” (S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 176).

Estas palavras do Fundador do Opus Dei, a propósito da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, que celebraremos no próximo dia 15 deste mês de Agosto, ajudam-nos a compreender melhor o trajecto de santidade excelsa de Nossa Senhora. Ela, que foi escolhida por Deus para ser a Mãe de Jesus, pôs toda a sua vida ao serviço deste desígnio divino, sem nunca dizer que não a qualquer solicitação requerida por Deus.

Por isso, mereceu ser levada para o Céu, em corpo e alma. Não por qualquer favor especial de Jesus, mas por ter sido julgada digna de aí ascender pelos méritos que aqui na vida terrena alcançou, correspondendo integralmente à graça que Deus lhe deu, desde a sua concepção, até ao momento em que a levou para o banquete celestial. Toda a sua vida foi um sim reiterado ao que Deus lhe pedia. Vejamos:
Quando Maria é indagada pelo Arcanjo S. Gabriel sobre a sua disponibilidade para aceitar ser a Mãe do Messias, Nossa Senhora responde positivamente. Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 37). Tem consciência de que, a partir daquele momento, será sujeita à dura prova de causar perplexidade no seu jovem esposo, que tanto amava. Confia em Deus, abandonando-se nas suas mãos, que resolve a inquietação de José, dizendo-lhe: Não temas, José, filho de David, receber em tua casa Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo (Mt 1, 20).

Duas lições nos deu Maria: aceitar sem reservas a vontade de Deus e confiar as dificuldades à providência divina, que nunca tenta ninguém acima das suas próprias forças (1 Cor 10, 13), porque além de justíssimo nos ama como nenhum outro ser.

Nossa Senhora é incapaz de esquecer as necessidades do seu próximo. Algum tempo depois da concepção de Cristo no seu seio, ei-la de abalada custosa até à sua prima Isabel, que engravida pela primeira vez em idade avançada e necessita do seu auxílio: (...) foi com pressa às montanhas (...) Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel (...) que mal ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1, 41). E é esta criança, João Baptista, quem pela primeira vez atesta a presença do Salvador na terra.

Jesus nasce em condições paupérrimas em Belém, de modo aparentemente imprevisto. Maria e José apenas podem oferecer-Lhe o seu carinho e desvelo, nada mais. Não protestam. Aceitam as circunstâncias como bons filhos de Deus, que em breve os recompensa, com a presença de alguns pastores, gente simples e humilde, que apresentam ao Redentor as primeiras homenagens do género humano, depois de ouvirem uma corte de anjos no Céu exclamar: Glória a Deus no mais alto dos céus... (Lc 2, 14).

A infância de Jesus decorre com normalidade. Ele (...) era-lhes submisso (Lc 2, 51), diz o evangelista a respeito de Jesus, que, no entanto, de modo algo insuspeito, não deixa os seus pais sem grandes aflições, quando O perdem em Jerusalém, e, após três dias de angústia e muita oração, O encontram no templo da cidade santa em diálogo com os rabis desses tempos. E sua mãe disse-Lhe: Filho, porque procedeste assim connosco? (...) Ele respondeu-lhes: Para que Me procuráveis? Não sabeis que devo ocupar-Me nas coisas de meu Pai? (Lc 2, 48-49). Maria tem dificuldade de entender estas palavras do Filho. Mas, por saber Quem era o seu autor, diz S. Lucas que a reacção de Nossa Senhora foi conservar (...) todas estas coisas no seu coração (Lc 2, 51), como um tesouro precioso para meditar e rezar.

A vida pública de Nosso Senhor pouco nos fala de Maria. José, segundo tudo leva a crer, já tinha partido para a eternidade. No entanto, quando a presença da Mãe é necessária para acompanhar Jesus na sua Paixão e Morte, aí a encontramos, fiel como sempre, cheia de dor e de pena, embora acalentando o Filho a levar o sacrifício até às últimas consequências. Era vontade de Deus que o terrível sofrimento do nosso Salvador servisse de tenaz para abrir às almas justas as portas do Céu, fechadas a todos os homens desde o pecado de Adão.

Fiel da concepção até à morte, o trajecto de Maria é o da santidade plena e imaculada. Cristo, na Cruz, torna-a nossa Mãe, a fim de que nos ajude a seguir com mais determinação o caminho do Céu. Levou-a para aí, em corpo e alma. Assim a conheceu na terra e por ela foi acarinhado e educado. Desde então, no Céu, tal como neste mundo, temos um Pai e uma Mãe. Esta não é de natureza divina. Mas ajuda-nos a compreender melhor o Amor familiar, paternal que Deus nos tem.

P. Rui Rosas da Silva

Assunção de Nossa Senhora, El Greco (1577), óleo sobre tela, 401x229cm, Art Institute of Chicago