18 de junho de 2007

Actos de adoração

Imaginemos uma estrada plana, toda de excelente alcatrão, sem nenhum traço no chão e extensa, tão extensa que perdemos de vista os seus limites: não vemos onde termina a estrada, quer à esquerda quer à direita. Numa superfície assim o condutor pode sentir-se um pouco perdido. E no entanto nada o impede de andar.

Que falta aqui? Faltam os limites, o relevo, numa palavra, a diferença. Se tudo for igual, absolutamente igual, o homem sente-se perdido.

Cada homem é uma criatura, não domina a sua existência. Não é o criador e necessita de sinais que lhe indiquem que existe Alguém que é mais do que ele e o pode ajudar. Por isso todo o homem necessita de adorar. A adoração não é um mero movimento de afecto ou estima por outra pessoa. À estima, a adoração acrescenta a submissão que é expressão da nossa diferença em relação a Deus. Sem a adoração a religião não orienta e acaba também por não unir a Deus, pelo menos ao Deus criador e omnipotente. Deus quer a nossa amizade e na amizade existe sempre uma certa igualdade. Mas essa igualdade dá-se porque Deus Se abaixa ou porque nos eleva. A amizade com Ele não se opõe à adoração.

A tentação original foi a de se fazer igual a Deus, de não haver diferença entre o homem e Deus (cf. Gn 3,5). Também agora a tentação de não adorar se insinua. Diante da Eucaristia podemos fazer o esforço por adorar, por fazer actos de adoração, por entender que somos limitados e colocar em Deus a orientação da nossa vida.

Esses actos de adoração podem traduzir-se em gestos como a genuflexão ou a inclinação, ou em palavras em que exprimimos a nossa diferença em relação a Deus. Uma diferença que não recusa a oferta da amizade e da intimidade com Ele. Também os tempos dedicados à adoração ao Santíssimo, no Sacrário ou exposto sobre o altar.

Também o Papa é consciente desta dificuldade: ele alerta que "aconteceu às vezes não se perceber com suficiente clareza a relação intrínseca entre a Santa Missa e a adoração do Santíssimo Sacramento; uma objecção então em voga, por exemplo, partia da ideia que o pão eucarístico nos fora dado não para ser contemplado, mas comido. Ora, tal contraposição, vista à luz da experiência de oração da Igreja, aparece realmente destituída de qualquer fundamento" (BENTO XVI, Exort. Ap. Sacramentum caritatis, 66). E acrescenta: "Juntamente com a assembleia sinodal, recomendo, pois, vivamente aos pastores da Igreja e ao povo de Deus a prática da adoração eucarística tanto pessoal como comunitária" (Ib. 67).

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