1 de fevereiro de 2007


Pela força das circunstâncias, todos estamos convidados a votar no próximo dia 11 deste mês, dando assim resposta ao referendo que nos é proposto pela Assembleia da República.

Toda a gente está contra o aborto, porque tem consciência de que, chamando-se-lhe assim ou de forma mais eufemística, o que está em causa é a supressão de uma vida humana, que nasce no seio de uma mulher, que é a sua mãe. Ela tem consciência de que o que germina no seu interior não se trata de um conjunto de células, uma espécie de tumor maldito, ainda que não letal. Esta noção faz parte do processo que muita gente utiliza para desresponsabilizar quem pratica o aborto dum ónus psicológico e moral tremendo, que sempre acompanha quem nele se mete. Efectivamente, a consciência acusa de modo inexorável a mãe - sobretudo a ela - de ter despachado um filho que se desenvolvia nas suas entranhas.

Por isso, o problema do aborto nunca é uma questão que diga respeito apenas à mulher que engravida. Existem sempre mais dois seres. O filho que evolui, segundo a natureza, no seio materno, com os mesmos direitos à vida do que a sua mãe, e o pai, sem o qual a mulher não podia ser fecundada. Uma concepção machista desta questão, ao atribuir à mulher a única responsabilidade sobre a vida e a morte da criança que se encontra dentro de si, iliba o pai, dispensa-o de receber o filho que ajudou a gerar, e não dá o direito de defesa ao novo ser. Este fica totalmente entregue ao arbítrio da mãe. É um direito absoluto sobre as sua vida, que a lei não vai penalizar, se o aborto for feito até um determinado tempo.

Todo estes contornos fazem parte de um ambiente ideológico, onde a vida perdeu dignidade, já que, nos casos que a lei determina, podem exterminar-se seres humanos, se a mãe o requerer. Não se trata de células humanas, mas de vidas humanas!

O aborto é uma afronta ao poder de Deus criar novas vidas, porque evita que elas, por um processo natural, se desenvolvam normalmente desde as primeiras instâncias germinais até nascerem, crescerem, contribuírem para o bem de toda a sociedade e, depois, comparecerem na Sua presença para gozarem da eternidade. Estamos certos de que Deus providenciará no sentido de dar o melhor acolhimento a todo o ser humano que é abortado voluntariamente. Esta consolação poderá servir às mães cristãs que, num momento de confusão, sob a pressão habitual do pai, das famílias e dos maus amigos, consentiram em interromper voluntariamente a gravidez.

E, mais ainda: terem consciência de que o mesmo Deus que lhes outorgou a vida de que elas se desembaraçaram, é capaz, no caso de arrependimento, de lhes perdoar essa falta gravissíma, porque conhece a nossa fraqueza e sabe melhor do que ninguém os meandros de coacção que uma mulher sofre quando engravida, sempre que os que mais deviam ajudá-la a aceitar a nova vida a incentivam a desfazer-se do filho. A dor traumática e lacerante que a vai acompanhar até à sua morte é uma forma de expiação e de purificação pessoal, que a fará meditar dum modo nítido na enorme injustiça que cometeu e na gravidade do acto que deixou realizar, mesmo que compulsivamente.

Quanto temos de rezar e de nos sacrificar para que a situação do aborto no nosso país não piore substancialmente, a partir dos resultados do referendo próximo. E se piorar? Eis uma situação que vai reclamar dos cristãos mais oração, mais sacrifício e - falará agora a consciência de cada um -, um acto de contrição profundo por não termos sido tão exemplares no seguimento de Cristo. Só assim cativaremos os que convivem connosco a aceitar os seus ensinamentos. É que, como dizia S. Josemaria, "(...) estas crises mundiais são crises de santos" (Caminho, 301).

O vosso pároco e amigo,

P. Rui Rosas da Silva

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