18 de janeiro de 2007

Conselhos para ajudar a unir

Por vezes encontramos pessoas desunidas. Nós próprios: custa-nos a adesão aos outros e desculpamo-nos com os defeitos que eles têm. No entanto, a fonte da desunião como a fonte da união nascem do coração de cada um. E basta que um de nós queira unir para que a união seja possível.

Quando antipatizamos com alguém devemos perguntar a nós mesmos porquê? Podem surgir várias respostas: aquela pessoa tem exactamente os mesmos defeitos que nós; aquela pessoa tem qualidades que nós gostaríamos de ter; aquela pessoa põe em evidência as nossas debilidades. Em qualquer caso, mesmo sabendo que cada caso pode ter uma solução diferente, vale a pena pedir a Deus por essa pessoa e por nós próprios. Dessa oração, sobretudo se for humilde, confiada e insistente, nascerá luz para nos conhecermos e reconhecermos aquilo que em nós está mal, graça para lutarmos e vencermos, e um carinho muito especial para com a pessoa em questão.

No sossego da nossa meditação diária, desabafamos com o Senhor. Pomos no Sacrário o nosso fastio pelo outro, mesmo até ao exagero de o achar insuportável, impossível de manter a convivência pacífica com ele. O Senhor não responderá logo: primeiro ouve-nos, depois olha-nos e finalmente mostra-nos a verdade.

Acabaremos por rir de nós mesmos e daquilo que considerávamos tão grave na nossa relação. Haverá novas crises e novos desabafos e novas luzes. Mas sempre, cada vez mais, o amor irá criando raízes e sedimentando um laço profundo, terno e forte ao mesmo tempo. Bendita unidade dos lares cristãos que produz hoje a mesma exclamação dos pagãos de outros tempos: «Vede como se amam!»

13 de janeiro de 2007

São Paulo, Apóstolo

Nasceu em Tarso, cidade situada na Cilícia, de família judia, da tribo de Benjamim, e de tendência farisaica, mas com cidadania romana. Chamava-se Saul, de acordo com a tradição onomástica dos benjaminitas, e também recebeu o nome de Paulo – «pequeno» em latim – o que pode indicar que fosse o mais novo dos filhos.
A personalidade deste Apóstolo é fascinante. Não há nada que faça a meias: quer persiga a Igreja de Cristo, quer persiga o amor de Cristo, sempre se empenha com tal ardor que é impossível não se sentir atraído pela sua têmpera. Paulo iniciou a sua vida religiosa no seio da família, depois estudou o judaísmo farisaico aos pés de Gamaliel e terá regressado à sua terra natal na altura em que o Senhor iniciou a vida pública na Palestina. Paulo nunca se encontrou com Cristo. No entanto conheceu Jesus através de Estêvão, um dos primeiros diáconos.
Paulo foi favorável ao martírio de Estêvão, não por ódio para com a pessoa mas para com a nova religião. E o seu fogo pela pureza da fé judaica levou-o a perseguir os cristãos que se tinham refugiado tão longe quanto Damasco. Foi a caminho de Damasco que Paulo conheceu Jesus. A luz de Cristo cegou-o e converteu-o.
Impressiona a rapidez com que Paulo mudou. Não era pessoa para ir atrás de qualquer vento, muito menos de novidades. Mas soube render-se humildemente perante a Verdade. Depois de recuperar a vista graças ao ministério de um cristão de Damasco Paulo afastou-se para o deserto da Arábia. No silêncio desse retiro, fincou mais profundamente a sua determinação de entrega total a Cristo e aos seus novos irmãos. A Igreja recebeu de Paulo a riqueza das suas Epístolas e o tesouro do seu zelo pelas almas que o levou a fundar múltiplas comunidades de fiéis.
Paulo ficou sempre na Igreja como imagem de fortaleza e de heroicidade. Mas também de humildade na conversão pessoal. A ele podemos recorrer quando sentimos que nos faltam as forças para levar o cristianismo até às últimas consequências.

1 de janeiro de 2007

Abre-se o ano de 2007 com as esperanças que todos temos num futuro melhor. E, dum modo particular, os que acreditam em Cristo e na Sua mensagem de salvação, certos de que a mão misericordiosa de Deus, nosso Pai providente, conduzirá os homens para lugares onde a caridade que n’Ele tem a sua origem e a sua essência, se exercitará do modo mais adequado.

No entanto, se esta certeza é para nós, crentes, uma realidade que - sabemos - se vai realizar, os caminhos humanos nem sempre parecem palmilhar por sendas onde se veja a mão de Deus derramar a Sua graça. Parece até que, ou por ignorância ou por acinte, os nossos semelhantes se acirram contra o que Ele nos pede a respeito de realidades fundamentais, como a vida humana. Refiro-me, obviamente, ao próximo referendo sobre o aborto, que pretende liberalizar, duma forma inimputável, o direito de pôr termo à existência de seres inocentes, que necessitam do seio materno para subsistir, tal como um astronauta da sua nave para poder viajar no espaço e chegar a bom termo.

Os nossos bispos, dum modo claro e inequívoco, convidaram-nos a dar o nosso apoio ao NÃO e todos os apelos e sugestões que a Santa Sé e o Santo Padre, nos últimos tempos têm feito, vão no sentido de defender a doutrina do NÃO MATAR, que constitui o conteúdo e a mensagem única consignada no 5º Mandamento do Decálogo.

Voltando, porém, ao teor do início destas linhas, e porque sabemos que Deus não desampara o homem, Sua criatura preferida, criada à Sua imagem e semelhança, o que nos abre o tempo numa perspectiva de futuro é sempre um motivo de agradecimento e de mais confiança no Senhor de todo o universo. O Seu Amor por nós é tão grande que, se fosse perniciosa a nossa continuação no tempo, Ele, Senhor de todas as coisas e, por isso mesmo, também do próprio tempo, fá-lo-ia desaparecer.

Pode-nos parecer, por vezes, ao contemplarmos um panorama de comportamentos humanos tão desagradáveis e aberrantes, que Deus Se desentendeu da sorte de todos nós. Não só não é verdade, como vai contra tudo aquilo que o passado nos ensina. Sobretudo através da Sagrada Escritura, podemos aperceber-nos das atitudes constantes de misericórdia e de reaproximação por parte do Senhor em relação ao homem. Este foge-Lhe e Ele procura-o; este nega-O e Ele manifesta-Se-lhe; este ofende-O e Ele perdoa-lhe.

Em Cristo, através do Seu Coração manso e humilde, que aprendeu a ser generoso na escola de Maria, enquanto Sua Mãe e Sua principal educadora, vemos palpitar a linguagem da misericórdia e do perdão, da providência e da entrega. Assim, quando cura os doentes, perdoa à mulher adúltera, multiplica os pães e morre na Cruz para a nossa Redenção. E Cristo não morre e não se distrai da sorte de todos nós. É o mesmo, que nasceu em Belém, morreu no Calvário e ressuscitou ao fim de três dias, de acordo com o que tinha prometido. O Seu Amor por nós não esmorece, não faz pausas, não se distancia das nossas necessidades, nem manifesta a mínima mácula de falta de fidelidade. É esta a principal razão pela qual o futuro que Ele nos dá, apesar de todos os nossos erros e diatribes, continua a ser um dom divino generoso para que todo o homem se santifique e se salve.

Nesta ordem de ideias, e confiando na misericórdia infinita de Cristo, devemos sorrir e confiar que o nosso futuro será tanto melhor, quanto mais o coloquemos nas mãos de Jesus.

O vosso pároco e amigo,

P. Rui Rosas da Silva


Conversão de S. Paulo, Michelangelo Merisi Caravaggio (1573-1610), c.1601, óleo sobre tela, 230 x 175 cm, San Maria del Popolo, Roma