22 de dezembro de 2007

Pensamentos do Santo Cura d'Ars

Jean Marie Baptiste Vianney, o Santo Cura de Ars, não escreveu nenhum livro, não fundou nenhuma congregação, não foi Bispo nem Papa nem Mártir. Foi simplesmente o Pároco de uma aldeia – Ars – na Diocese de Lyon, em França, durante a primeira metade do século XIX. Mas revolucionou a história da Igreja. Ele foi com a sua penitência, a sua dedicação às almas e sobretudo o seu amor a Deus, um foco de calor que atraiu de todo o mundo multidões que queriam receber dele a sentença de Cristo que perdoa. Eis alguns pensamentos tirados da sua pregação:
«Eu Vos amo, meu Deus, e o meu único desejo é amar-Vos até ao último suspiro da minha vida. Eu Vos amo, Deus infinitamente amável, e prefiro morrer a amar-Vos a viver um só instante sem Vos amar. Eu Vos amo, Senhor, e a única graça que Vos peço é a de amar-Vos eternamente. Eu Vos amo, meu Deus, e não desejo o Céu senão para ter a felicidade de Vos amar perfeitamente. Eu Vos amo, meu Deus infinitamente bom, e não compreendo o Inferno senão porque lá não haverá nunca a consolação de Vos amar, Meu Deus, se a minha língua não Vos pode dizer a todo o momento que Vos amo, quero que o meu coração Vo-lo repita cada vez que respire.»

18 de dezembro de 2007

A Coroa do Advento

Durante o mês de Dezembro temos ocasião de preparar o Natal. Este é um dos tempos fortes da liturgia pela alegria da visita que esperamos: um Menino que nos vai ser dado e que é o próprio Deus, o Criador.

Essa alegria é tanto maior quanto mais consciente a preparação da celebração. Nesse sentido o Advento também implica algum jejum: é como quando se quer receber uma pessoa muito amiga e não se consegue comer na ânsia de que chegue depressa. Contam-se os dias até que o possamos ir esperar ao aeroporto ou à estação de comboio.

Existe uma antiga tradição da Igreja que consiste em fazer uma coroa de ramos de plantas perenes – não de folha caduca – de árvores que se mantêm verdes no Inverno, simbolizando talvez a fidelidade de Deus à sua promessa de nos vir salvar e colocar sobre essa coroa quatro velas em cruz, uma por cada Domingo de Advento.

Podemos então atribuir um significado a cada vela e semana, enriquecendo a nossa preparação A primeira vela é a da alegria, da surpresa e da gratidão; não esperávamos que essa pessoa ainda se lembrasse de nós e que quisesse mesmo empreender a viagem para nos vir visitar. Assim os primeiros dias de Advento podem ser de acção de graças pelo cumprimento da promessa de salvação.

A segunda vela é a dos preparativos para receber o amigo: onde o vamos alojar, onde vamos tomar as refeições, que sítios gostaria de visitar, que coisas lhe podemos mostrar? Assim, a segunda semana do Advento poderia estar marcada pelo desejo, pela imaginação, pelo Presépio, pelos enfeites de Natal.

A terceira vela é a da pena ao recordarmos que, no passado, nem sempre nos portámos bem com aquele amigo que agora nos visita e gostávamos que esta fosse uma ocasião para pedir desculpa. Assim a terceira semana do Advento pode estar marcada pela contrição, por uma Confissão especialmente bem feita.

A quarta vela é a partida ao encontro do amigo que chega, levando-lhe talvez um presente, e aperaltando-nos no vestir e na presença. Assim, os últimos dias do Advento podem estar marcados por esforço mais sincero por viver a caridade sobretudo com os mais próximos, especialmente os mais débeis.

1 de dezembro de 2007

Recordo-me de um velho amigo, bom cristão e bom pai, me ter abordado, na minha condição de sacerdote. Queria desabafar o seu descontentamento pelo facto de ter recebido um grande número de cartões de Boas Festas sem qualquer referência ao verdadeiro sentido do Natal. Dizia-me, contristado: “O Natal é o aniversário de Jesus, Nosso Salvador. Pois bem: entre renas nórdicas, palhaços, árvores cheias de neve, doces, comida apetitosa, patos num lago, pintainhos imberbes e até alguma gaiata sem frio e com pouca roupa, recebi cartões de Boas Festas. Senti-me triste e com pena de que se esteja a dessacralizar o sentido do Natal, tornando-o numa festa pagã e consumista”.

É bom não esquecer que o Natal consiste essencialmente na celebração do nascimento de Jesus, que habitou por obra e graça de Espírito Santo no seio de Maria Santíssima durante os tempos normais de gestação, foi dado à luz e depois cresceu, sendo educado primorosamente por Nossa Senhora e S. José. Acabou por morrer na Cruz do Calvário, condenado por Pôncio Pilatos, Procurador Romano que se encontrava em Jerusalém pela festa da Páscoa Judaica. Antes, durante aproximadamente três anos, percorreu o território da Palestina a pregar o reino dos Céus ou de Deus, como mensageiro encarregado pela Santíssima Trindade de redimir todos os homens, ou seja, torná-los aptos a receberem de novo a graça de Deus e a filiação divina, dons que o podem conduzir até ao Céu, o fim para o qual Deus o criou.

Pôr de parte esta realidade na quadra natalícia é, em primeiro lugar, uma injustiça para com Quem tanto nos amou e manifestou imensa confiança no homem. Recorde-se que Jesus Cristo, enquanto Deus, foi o criador de todo o ser humano. No entanto, não teve relutância em encarnar, isto é, em tornar-Se homem como todos nós desde a sua concepção até à morte, excepto no pecado: com muito amor, começar por ser uma criança inerme, entregue ao cuidado dos pais não apenas para ser educado por quem o aceitou gerar, mas para poder subsistir nesta existência terrena como qualquer bebé recém-nascido. Depois, sim, foi educado, aprendendo a falar, a rezar, a relacionar-se com os outros, a trabalhar, etc. Assim passou perto de trinta anos, na chamada “vida oculta”, onde se preparou humanamente para a sua missão de Messias.

Em segundo lugar, o seu nascimento em Belém de Judá não é uma lenda piedosa, que o imaginário devocional dos cristãos arquitectou. Pelo contrário, é um facto histórico e real. E por ter sido o mais relevante de toda a história humana, deve ser evocado como tal e não de um modo que nos faça esquecê-lo.

Por isso, tem de haver, da nossa parte, um esforço por “recristianizar” o Natal. Para o efeito, basta usar algum senso comum. Por exemplo, com os cartões de Boas Festas que enviamos. Se a temática do Presépio e das cenas a ele ligadas não fazem parte dessas missivas e mensagens calorosas e amigas, traímos o que de real e histórico se comemora nesta quadra.

Palhaços há-os todo o ano, assim como as outras referências que se deram atrás. Omitir o nascimento de Cristo nos nossos cartões de Boas Festas não é cristão e serve para desvirtuar o significado autêntico do Natal.

Façamos um propósito: neste Natal, os meus cartões falarão de Jesus, do seu nascimento em Belém, da Sagrada Família e de outras imagens afins. Podemos estar certos de que efectuaremos com eles uma boa evangelização.

A todos, votos de um Santo Natal e de Boas Festas.

P. Rui Rosas da Silva

«Adoração dos Pastores», óleo sobre tela, escola portuguesa do séc. XVIII, Tesouro da Sé Patriarcal, Lisboa, Foto de José Frade

22 de novembro de 2007

O lema de João Paulo II

Em 1993, quando se cumpriam 15 anos de pontificado, o jornalista italiano Vittorio Messori elaborou uma extensa entrevista ao Papa João Paulo II, perguntando-lhe, com um são descaramento, coisas que talvez mais ninguém se atrevesse a perguntar. A primeira pergunta foi precisamente sobre o que é ser Papa, o escândalo que é que um homem tome o nome de Pai – este o significado de papa em grego –, e deu pé a uma resposta que tocou no lema de João Paulo II: «Não tenhais medo!».
«Cristo dirigiu muitas vezes este convite aos homens que encontrava. Isto disse o Anjo a Maria: “Não tenhas medo” (Lc 1,30). A mesma coisa a José: “Não tenhas medo” (Mt 1,20). Cristo fala assim aos Apóstolos, a Pedro, em várias circunstâncias, e especialmente após a sua Ressurreição. Insistia: “Não tenhais medo!”. Sentia de facto que tinham medo. Não tinham a certeza de que Aquele que estavam a ver fosse o mesmo Cristo que conheciam. Tiveram medo quando foi preso, tiveram ainda mais medo quando, ressuscitado, lhes apareceu.
As palavras proferidas por Cristo, repete-as a Igreja. E, com a Igreja, repete-as também o Papa. Fi-lo desde a primeira homilia na praça de São Pedro: “Não tenhais medo!”. Não são palavras pronunciadas no vazio. São profundamente radicadas no Evangelho. São simplesmente as palavras do próprio Cristo.
Não devemos ter medo de quê? Não devemos temer a verdade sobre nós próprios. Pedro tomou consciência disso, um dia, com especial intensidade, e disse a Jesus: “Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lc 5,8).
Penso que não terá sido só Pedro a ter consciência desta verdade. Todo o homem se apercebe dela. E também cada sucessor de Pedro. Apercebe-se dela, de um modo particularmente claro, aquele que neste momento lhe responde. Cada um de nós está grato a Pedro por aquilo que disse naquele dia: “Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”. Cristo respondeu-lhe: “Não tenhas receio; de futuro serás pescador de homens” (Lc 5,10). Não ter medo dos homens! O homem é sempre igual. Os sistemas que ele cria são sempre imperfeitos, e são tanto mais imperfeitos quanto mais ele se sente seguro de si. Onde tem isto origem? No coração do homem. O nosso coração está inquieto. O próprio Cristo conhece melhor que todos a nossa angústia: “Ele sabe o que há em cada homem” (cf. Jo 2,25
(JOÃO PAULO II, Atravessar o limiar da esperança, Planeta, Lisboa, 1994, pp. 4-5)

18 de novembro de 2007

Os Sufrágios pelas Almas

Todos nós conhecemos pessoas que já morreram. A sua partida, por vezes, deixou-nos o peso da falta de alguém onde brilhava a luz de Deus. Ela era para nós especialmente querida por ser especialmente sobrenatural. E temos por ela uma certa convicção de que já goza do Céu. Por ela devemos pedir – é uma obrigação de estrita justiça –, mas a convicção da sua proximidade de Deus leva-nos também a tomá-la como intercessora junto de Nosso Senhor e, portanto, a pedir-lhe coisas, a apresentar-lhe as nossas intenções.

Outras almas há, porém, cuja partida não marcou a nossa da mesma maneira. E, embora o nosso juízo seja falível porque nada sabemos do estado de uma alma, nem sequer da nossa, sentimos uma urgência maior em oferecer sufrágios a Deus, pedindo pelo alívio das penas que eventualmente esteja a sofrer no Purgatório.

Qual a melhor forma de sufragar as Almas?

Do ponto de vista objectivo, o melhor sufrágio é, sem dúvida a Santa Missa, porque nela se oferece o próprio sacrifício redentor de Cristo, realizado uma única vez no Calvário, e actualizado ou tornado presente sobre o altar, em virtude do ministério do sacerdote. Sabemos que qualquer fiel pode oferecer privadamente o sacrifício eucarístico pela intenção que desejar. Mas também pode envolver o ministro celebrante e toda a assembleia tornando esse oferecimento público, e como que mais comunitário, pelo que ganha, digamos assim, uma força especial.

Também conhecemos a doutrina sobre as indulgências (recordada no Boletim n. 34, de Julho de 2007). Aqui, porém, actua muito mais a subjectividade de quem as obtém, uma vez que as suas disposições íntimas é que determinam os efeitos. De qualquer modo, no dia 2 de Novembro pode-se obter uma indulgência plenária aplicável pelas Almas do Purgatório, por rezar numa igreja ou capela, um Credo ou Pai-Nosso pelas intenções do Santo Padre, e nos primeiros oito dias desse mesmo mês por fazer outro tanto num Cemitério.

Além disso, tudo o que pudermos fazer de bom, de digno, de nobre, pode ser oferecido a Deus por essas nossas irmãs, e nós seremos também beneficiados, porque cresce em nós a caridade, porque meditamos nas verdades eternas e porque recebemos os frutos da intercessão delas junto de Deus.

1 de novembro de 2007

O mês de Novembro, com a devoção que nele se vive de sufragar as almas dos que já partiram da nossa companhia, recorda-nos uma verdade que às vezes anda esquecida do nosso dia a dia: a Igreja tem três estados reais, que se unem entre si através de Cristo, sua Cabeça e do Espírito Santo, sua Alma e seu vivificador.

Falamos, em primeiro lugar, da Igreja chamada militante, constituída por todos aqueles que, como nós, nos encontramos a caminho da vida eterna, nesta terra que Deus nos confiou para a administrar e dela usufruirmos tudo aquilo que a magnanimidade divina nos concede. Por isso, a vida terrena deverá ser, para todo o cristão, uma constante preparação da vida além-túmulo.

Falamos, seguidamente, da Igreja padecente – a que lembramos de um modo especial no Dia de Fiéis Defuntos -, formada por todas as almas que se encontram no purgatório à espera da sua entrada no Céu.

E, por fim, falamos da Igreja triunfante, conjunto de todos os nossos irmãos que já entraram no Céu, e, por isso mesmo, gozam da visão beatífica por toda a eternidade. Deles nos lembramos no primeiro dia de Novembro, Dia de Todos os Santos.

A Igreja é, pois, essa realidade viva, em que há troca de benefícios entre todos os seus membros, através da Comunhão dos Santos, que S. Josemaría comparava a uma espécie de transfusão de sangue: Comunhão dos Santos. – Como to hei-de dizer? – Sabes o que são as transfusões de sangue para o corpo? Pois assim vem a ser a Comunhão dos Santos para a Alma. (Cfr. Caminho, n. 544).

Certamente que quem está no Céu já não necessita de que rezemos por eles, porque a meta que deviam alcançar foi já conquistada de forma definitiva. Mas por serem almas que vivem imersas no Amor de Deus – a Caridade -, podem compreender com muito mais perspicácia as nossas necessidades e serem generosas intercessoras junto da Santíssima Trindade. Dialoguemos com elas, dando-lhe os parabéns por já estarem no Céu e solicitando-lhes os favores que desejemos obter da misericórdia divina.

As almas do Purgatório aguardam o momento de subirem ao Céu, enquanto satisfazem as penas temporais devidas aos seus pecados terrenos, que não foram totalmente remidas até à hora da morte. São almas santas, já julgadas por Cristo, dignas do Céu. Deste modo, podemos e devemos rezar por elas, pedindo ao Senhor que as leve para a sua companhia o mais brevemente possível. É esse o sentido dos nossos sufrágios pelas almas do purgatório. Muitos pensam que também são, de algum modo, intercessoras, pelo que nos podemos confiar a elas, solicitando-lhes que nos acudam em alguma necessidade, através das suas petições junto de Deus. E assim obteremos muitos favores.

Neste mês de Novembro, procuremos meditar sobre a realidade da Igreja, não a reduzindo à sua parte terrena. É a que mais facilmente descobrimos, mas não é toda a Igreja. Os outros dois estados são seus constitutivos e não podemos ignorá-los. Rezemos muito pelas almas do purgatório. Por cada graça que lhes possamos alcançar através das nossas orações e sacrifícios, grangearemos de certeza grandes amigas, que jamais esquecerão a nossa generosa intercessão. E quando Jesus as conduzir para o Céu, continuarão a agradecer para todo o sempre essa pequena boa acção que lhes fizemos.

Nos nossos sufrágios e nas nossas orações pela Igreja Padecente e Militante, a mediação de Nossa Senhora será a garantia de que a Mãe de Cristo e nossa Mãe, medianeira de todas as graças, implorará a Deus com toda a sua força persuasiva pela salvação de todos os filhos que, desde a Cruz, Jesus confiou ao seu amor maternal.

P. Rui Rosas da Silva

Nossa Senhora da Misericórdia, Simone Martini (princípios do século XIV)

22 de outubro de 2007

O Opus Dei

No dia 2 de Outubro, dia dos Santos Anjos da Guarda, do ano de 1928, um sacerdote jovem, de 26 anos, que se encontrava em Madrid, e nesse momento realizava uns dias de Retiro espiritual, recebeu a luz de Deus sobre uma tarefa que devia empreender e que consumiria toda a sua existência: o Opus Dei. Eis como ele mesmo o definiu numa entrevista concedida a Peter Forbarth, correspondente da revista Time, no dia 15 de Abril de 1957:
«O Opus Dei propõe-se promover, entre pessoas de todas as classes da sociedade, o desejo da plenitude da vida cristã no meio do mundo. Isto é, o Opus Dei pretende ajudar as pessoas que vivem no mundo – o homem vulgar, o homem da rua – a levar uma vida plenamente cristã, sem modificar o seu modo normal de vida, o seu trabalho habitual, nem os seus ideais e preocupações.
Por isso se pode dizer, como escrevi há muitos anos, que o Opus Dei é velho como o Evangelho e, como o Evangelho, novo. Trata-se de recordar aos cristãos as palavras maravilhosas que se lêem no Génesis: Deus criou o homem para trabalhar. Pusemos os olhos no exemplo de Cristo, que passou quase toda a sua vida terrena a trabalhar como artesão numa terra pequena. O trabalho não é apenas um dos mais altos valores humanos e um meio pelo qual os homens hão-de contribuir para o progresso da sociedade; é também um caminho de santificação. (...)
Se alguma comparação se quer fazer, a maneira mais fácil de entender o Opus Dei é pensar na vida dos primeiros cristãos. Eles viviam profundamente a sua vocação cristã; procuravam muito a sério a perfeição a que eram chamados, pelo facto, ao mesmo tempo simples e sublime, do Baptismo. Não se distinguiam exteriormente dos outros cidadãos. Os membros do Opus Dei são como toda a gente: realizam um trabalho corrente; vivem no meio do mundo conforme aquilo que são – cidadãos cristãos que querem responder inteiramente às exigências da sua fé.»

18 de outubro de 2007

Os nossos Anjos da Guarda

Todos sabemos que temos um Anjo da Guarda. Jesus referiu-Se a ele quando, diante dos seus Apóstolos, quis explicar a importância de nos fazermos pequeninos para chegar a ser grandes, úteis à Igreja, à nossa família, ao nosso país.

Quando Lhe vieram perguntar sobre quem era o maior para Deus (cf. Mt 18,1) Jesus pegou numa criança e começou a falar da conveniência de nos tornarmos como as crianças e depois acrescentou: «Livrai-vos de desprezar um só destes pequeninos, pois digo-vos que os seus anjos, no Céu, vêem constantemente a face de meu Pai que está no Céu» (Mt 18,10). A razão da dignidade de uma criança pode ser reconhecida na protecção constante que Deus Pai lhe dispensa desde o Céu através do seu Anjo da Guarda.

Apliquemos esta ideia ao nosso dia-a-dia: diante de Deus, que é omnipotente, imenso e eterno, nós somos todos muito pequeninos. E ganhamos muito – crescemos muito – quando consideramos a nossa pequenez diante d’Ele e a sua protecção através do nosso Anjo da Guarda.

Por isso vale a pena lembrarmos a presença do nosso Anjo, tanto diante da «face» de Deus, como diante de nós. A liturgia da Igreja canta «Na presença dos Anjos, eu Vos louvarei, Senhor» (Sl 138[137],1). Essa presença ajuda-nos a fazer da nossa vida um cântico de louvor a Deus, quer rezemos, quer convivamos com os outros, quer trabalhemos.

Cada um de nós pode encontrar truques para actualizar esta recordação: por exemplo ao usar as chaves para abrir ou fechar a porta de casa ou do seu automóvel, aproveitando para lhe pedir que proteja a família, ou nos acompanhe na viagem; também quando nos encontramos com alguém cumprimentar o seu Anjo pedindo-lhe pela pessoa. São Josemaria tinha este hábito tão arraigado na sua vida que não se lembrava de ter cumprimentado quem quer que fosse sem antes se ter dirigido ao seu Anjo da Guarda. Também a ele podemos pedir ajuda para esta devoção.

1 de outubro de 2007


Com Outubro, dissemos adeus ao tempo de férias. Já o calor não se faz sentir e a vida profissional, com todas as suas solicitações, requer de nós um esforço quotidiano sempre e sempre mais exigente.

Cada época da história teve as suas características e os seus ídolos. Certamente que, nos nossos dias, não adoramos animais nem astros, apesar da descristianização da sociedade nos manifestar que, quando o Deus verdadeiro é esquecido ou relegado para um lugar secundário, ressuscitam, como que por encanto, tantas práticas supersticiosas e crenças escusas e ridículas, que pensávamos já completamente ultrapassadas.

Na sociedade actual, um ídolo perigoso, que se compagina mais com a racionalidade do ser humano, é o trabalho. Em si mesmo, é uma bênção de Deus, que quer que o homem o utilize para tornar a vida diária mais agradável de acordo com as suas necessidades, e seja também uma forma através da qual, nós, que fomos criados à sua imagem e semelhança, transformemos toda a riqueza do universo, que Ele pôs à nossa disposição com uma magnânima generosidade de meios e recursos.

É bom não esquecer que, mesmo antes do pecado original, Deus quis que o homem trabalhasse, pois, como se escreve no Génesis 2, 15: O Senhor levou o homem e colocou-o no jardim do Éden para o cultivar e, também, para o guardar. Se a falta dos nossos primeiros pais tornou a tarefa profissional mais custosa: da terra (...) só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida (Gén 3, 17), ele continuou a ser o modo de subsistência do homem, que com o seu exercício grangeia para si aquilo de que necessita para viver e contribuir para o bem comum. Sem trabalho, tudo se degrada. S. Paulo dizia: Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer (2 Tes 3, 10).

Não sendo a nossa profissão uma maldição, mas uma maneira querida por Deus para o ser humano se realizar e santificar, ela pode tornar-se de facto um ídolo doloso, ao qual se sacrificam valores e deveres fundamentais, com o aplauso da nossa sociedade. Ser hoje em dia um excelente profissional ou um profissional de êxito é olhado como um factor de exaltação de quem se impõe assim ao nosso mundo. Pode ser um péssimo pai ou uma mãe descuidada e ausente, não saber viver em família, coleccionar companheiros ou companheiras diversos como quem viaja por paisagens diferentes. É um excelente profissional? Tudo se desculpa, ou melhor, nem sequer se desculpa, porque o ídolo trabalho merece que a ele se sacrifique o melhor do tempo, o melhor da inteligência, o melhor da vontade e o melhor do afecto. Os outros compromissos são acidentes de percurso, que não podem obstaculizar a saga do êxito profissional e dos resultados a ele inerentes.

O trabalho, enquanto tarefa santificável, aperfeiçoa o ser humano em toda a sua plenitude. Apoiado na graça de Deus, que sana e auxilia todo o esforço natural que o homem desenvolve, torna-o verdadeiramente virtuoso, isto é, capaz de desenvolver e praticar com equidade tudo o que o faz verdadeiramente bom, verdadeiramente santo. Como S. José e Nossa Senhora, como Jesus por eles tão bem educado.

Diante de Deus, qual será o valor do esforço dum grande profissional, se ele se esquece ou sacrifica as outras obrigações que contraiu? O sangue azul, outrora, era motivo para que uma pessoa tivesse conhecidas vantagens diante dos homens. Ela deveria, no entanto, responder, diante de Deus, pelo modo como usou tal prerrogativa nesta vida. O mesmo acontece no mundo laboral. Ou a pessoa se santifica com o seu trabalho, ou perde o tempo que Deus lhe proporciona para investir na sua salvação. Pode um santo ter-se evidenciado por alguma virtude específica que viveu. Mas não abandonou a luta, por desleixo ou comodismo, em relação a outras que lhe eram mais desfavoráveis, difíceis ou socialmente menos conceituadas. O santo é o que procurou viver todas as virtudes em grau heróico.

Neste mês em que a actividade profissional se tornou mais exigente, façamos exame de consciência sobre as nossas disposições perante o trabalho. E peçamos a Nossa Senhora do Rosário – estamos no seu mês – que nos ajude a rectificar o que não estiver bem.

P. Rui Rosas da Silva

22 de setembro de 2007

A oração na Carta Apostólica Novo millennio ineunte

Em 6 de Janeiro de 2001 o Papa João Paulo II entregava à Igreja um documento programático, com o título sugestivo «No início do novo milénio». Nessa extensa Carta ele apontava as linhas que deveriam guiar a actuação dos cristãos neste novo ciclo histórico que iniciámos. Vale a pena reler alguns parágrafos.
«…é muito importante que tudo o que com a ajuda de Deus nos propusermos, esteja profundamente radicado na contemplação e na oração. O nosso tempo é vivido em contínuo movimento que muitas vezes chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de “fazer por fazer”. Há que resistir a esta tentação, procurando o “ser” acima do “fazer”» (n. 15)
«…há necessidade de um cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração (…) a oração, como bem sabemos, não se pode dar por suposta; é necessário aprender a rezar, voltando sempre de novo a conhecer esta arte dos próprios lábios do divino Mestre, como os primeiros discípulos: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1)» (n. 32)
«Trata-se de um caminho sustentado completamente pela graça, que no entanto requer grande empenhamento espiritual e conhece também dolorosas purificações (…) mas desemboca, de diversas formas possíveis, na alegria inexprimível vivida pelos místicos como “união esponsal”» (n. 33)
«As nossas comunidades (…) devem tornar-se autênticas “escolas” de oração» (ib.)
«…seria errado pensar que o comum dos cristãos possa contentar-se com uma oração superficial, incapaz de encher a sua vida. Sobretudo perante as numerosas provas que o mundo actual põe à fé, eles seriam não apenas cristãos medíocres, mas “cristãos em perigo”: com a sua fé cada vez mais debilitada, correriam o risco de acabar cedendo ao fascínio de sucedâneos, aceitando propostas religiosas alternativas e acomodando-se até às formas mais extravagantes de superstição» (n. 34)

18 de setembro de 2007

Estudo: um hábito familiar

Recomeçam as aulas. Esta evidência pode significar uma alegria ou uma pena, um alívio ou uma angústia, por motivos muito diferentes, para diferentes pessoas, mesmo dentro da mesma família. Mas para todos o estudo deve ser um hábito apaixonante.

São Josemaría deixou escrito «Se tens de servir a Deus com a tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave» (Caminho 336). Todos nós queremos servir a Deus com a nossa inteligência, com toda a nossa inteligência (cf. Mt 22,36), que é uma das faculdades que Deus nos deu, e não a mais pequena.

O que é estudar? Studium é palavra latina que significa «empenho», «esforço». Ela revela que a verdade não se encontra facilmente. A resposta às mais profundas interrogações que o ser humano formula exige o esforço de escavar aquilo que lhe surge na aparência para procurar aquilo que não surge de imediato mas é a verdadeira causa.

Ora estudar é um hábito intelectual que se cultiva sobretudo em família. Os filhos têm o hábito de fazer perguntas; algumas só por começar uma conversa ou chamar a atenção, outras porque estão intrigados com a realidade, e sempre porque possuem uma natureza – a humana – que permite o aprofundamento no diálogo. Esta é uma riqueza que, quando os pais a sabem aproveitar, produz frutos magníficos. Muitas vezes o pai ou a mãe tem que responder «Isso não sei. Deixa-me pensar e depois já te dou a resposta». Outras vezes os pais sentem a necessidade de trocar ideias entre eles para aproveitar a natural curiosidade dos filhos. E isso também é estudar. As respostas não estão feitas: fazem-se com o estudo, com a reflexão.

O fruto é o encontro com Deus, como causa última, cheia de sabedoria e de amor. Mas é também uma grande serenidade perante a vida, um saber ultrapassar a trepidação da realidade sensível. E é ainda um saber esperar, um não decidir pelas primeiras impressões e adquirir uma fina prudência.

1 de setembro de 2007

Passou-se o período forte de férias e, outra vez, o mês de Setembro surge no nosso horizonte de vida como tempo de recomeçar: o novo ano de trabalho, o novo ano escolar, o novo ano pastoral.

Cada um experimenta a necessidade de enfrentar a vida como um repto que o mundo onde nos inserimos nos lança para realizar o que devemos. E, na nossa consciência, desperta certamente a necessidade de nos abeirarmos mais de Deus e pedir-Lhe que nos ajude.

Pode acontecer e é isso com certeza que notamos – que o panorama das ocupações e das circunstâncias não sejam diferentes das dos anos anteriores. Contudo, existe em nós o desejo normal, bom e recto, de melhorar o que fazemos. É uma ambição natural, que devemos cultivar, sem que para isso contemos apenas com as nossas próprias forças e os nossos propósitos.

Deus deve intervir nesses desígnios. Em primeiro lugar, para nos ajudar a cumprir rectamente o que nos propomos. Depois, para orientar os caminhos a seguir, compartilhando com Ele as formas de os executar. Assim, manteremos sempre a rectidão de intenção, porque estamos a fazer não apenas aquilo que projectámos, mas a seguir as indicações que Deus nos sugeriu. Ou seja, se somos fiéis aos seus conselhos, estamos a cumprir a sua vontade.

Não esqueçamos que Ele não nos exige, habitualmente, coisas extraordinárias. O que pretende é apenas que cumpramos bem as obrigações diárias com que a nossa vida se preenche. E levá-las a bom termo, com constância e perseverança, não é apenas uma sequência monótona onde se repete muitas vezes as mesmas coisas; é o esforço heróico por fazer sempre bem o que devemos. E se esse dever resulta de um acordo que nós combinámos com Deus, de modo a que ele e o cumprimento da sua vontade sejam a mesma realidade, assim nos santificaremos.

“Está no que fazes e faz o que deves”, animava S. Josemaría . É um percurso exigente, que só se consegue com luta sistemática, que vence a tibieza, a preguiça, a desordem, a tendência para a sesta comodista, o egoísmo de procurar compensações que minoram o esforço e desculpam os adiamentos que adormecem a nossa vontade.

Mas esta luta seria orgulhosa e inútil se não contássemos com a graça de Deus. Esta não destrói nem se opõe às nossas forças naturais: inteligência, vontade, afectividade, etc.. Pelo contrário, aperfeiçoa-as e completa-as, como reza um velho ditado. É através dela que Deus nos ajuda.

Acolhamo-nos à sua eficácia, sejamos permeáveis à sua influência e assim também, com humildade, colaboraremos com o Senhor na nossa santificação. Nossa Senhora, a quem o mês de Setembro consagra três celebrações em sua honra (Natividade da Virgem Santa Maria, Santíssimo Nome de Maria, Nossa Senhora das Dores) será, nesta luta, não só a Mãe que nos acalenta, como a Mãe que nos saberá exigir carinhosamente que sejamos fiéis no cumprimento da santíssima e amabilíssima vontade de Deus em todos os momentos e circunstâncias da nossa vida diária. Foi assim que ela viveu em Nazaré, criando e educando o Filho de Deus, de Quem é Mãe.

P. Rui Rosas da Silva

São Mateus e o Anjo, Caravaggio (1602), óleo sobre tela, 295 x 195 cm, destruído

22 de agosto de 2007

Relembrando textos da viagem de João Paulo II a Portugal, em 1982

Entre 12 e 15 de Maio de 1982 o Papa João Paulo II visitou o nosso país deixando-nos um tesouro inestimável, da sua palavra, da sua vida santa e do seu carinho por nós. Vinha como peregrino agradecer a Nossa Senhora o tê-lo salvo de um atentado que sofrera na Praça de São Pedro em 13 de Maio de 1981. Recordamos algumas palavras pronunciadas na Homilia da Missa para os jovens, celebrada no Parque Eduardo VII, em Lisboa, a 14 de Maio.
Relembrando textos da viagem de João Paulo II a Portugal, em 1982:
«O Reino de Deus está próximo! Sim! “Dizei a todos: está próximo de vós o Reino de Deus” (Lc 10,9) (...) São dirigidas estas palavras especialmente a vós, jovens, que aqui vos encontrais esta tarde, em tão grande número, cheios de entusiasmo e alegria, manifestando a vossa disponibilidade a Cristo e o vosso desejo de construir um mundo mais humano e cristão. (...) E quase me atreveria a dizer: estas palavras são dirigidas especialmente a vós, jovens portugueses, filhos de um povo de missionários que, por todo o mundo levaram esta mesma mensagem (...).
Sim, a vós, jovens: porque no vosso espírito está impressa, de modo particular, a problemática essencial da salvação, com todas as suas esperanças e tensões, sofrimentos e vitórias. É sabido quanto vós sois sensíveis à tensão entre o bem e o mal, que existe no mundo e em vós próprios. (...) Espontaneamente sois levados a rejeitar o mal e a desejar o bem. Mas, algumas vezes, tendes dificuldade em ver e em aceitar que para chegar ao bem é preciso passar pela renúncia, o esforço, a luta, a cruz (...).
Contudo, caros jovens, para além destas tensões, possuís uma aptidão quase conatural para evangelizar. Porque a evangelização não se faz sem o entusiasmo juvenil, sem juventude no coração, sem um conjunto de qualidades em que a juventude é pródiga: alegria, esperança, transparência, audácia, criatividade, idealismo... Sim, a vossa sensibilidade e a vossa generosidade espontânea, a tendência para tudo o que é belo, tornam cada um de vós um “aliado natural” de Cristo. (...)
A vossa tensão de jovens pode resumir-se entre o «já» e o «ainda não». Já sentis responsabilidade mas ainda não tende oportunidades para demonstrá-la. Já quereis contribuir eficazmente para o bem comum, tanto com ideias como com obras, mas ainda não se deparam as ocasiões. Ora é exactamente neste momento, no grande momento da opção e preparação do vosso futuro, que mais precisais de Cristo. (...) Sede generosos: escolhei com amor e preparai-vos bem.»
(Discursos do Papa João Paulo II em Portugal, Ed. Conferência Episcopal Portuguesa, 1982, pp. 153 e ss.)

18 de agosto de 2007

Como descansar?

Descansar é uma arte. Por vezes, constatamos que terminadas as férias, descansamos pouco, não tanto por nos terem faltado meios ou tempo, mas simplesmente por não termos sabido como fazê-lo.

Aqui vão algumas sugestões:

Primeiro: libertar-se da urgência de descansar, isto é, não pensar em nós mesmos e no nosso cansaço, não tentar medir se estamos mais ou menos descansados.

Segundo: ocupar-se do descanso dos outros, fazer com que os outros descansem, sobretudo os da nossa casa e descansar com eles.

Terceiro: libertar-se de programas concretos, aceitar que Deus nos troque as voltas, não nos deixando descansar como tínhamos previsto.

Quarto: ter programas concretos (parece uma contradição com o que antes se disse, mas não é); fazer planos com horários e executá-los, sabendo, no entanto, relativizá-los. Ter o tempo bem preenchido.

Quinto: dedicar o melhor tempo a Deus: não Lhe dar as sobras do dia, mas a primeira hora da manhã.

Sexto: rever a lista de amigos, telefonar, escrever, combinar encontros.

Sétimo: dormir, sempre que possível de noite; não alinhar em programas que se prolonguem exageradamente pela noite fora.

1 de agosto de 2007

“Hoje, em união com toda a Igreja, celebramos o triunfo da Mãe, Filha e Esposa de Deus. E assim como nos sentíamos felizes no tempo da Páscoa da Ressurreição, (...) agora sentimo-nos alegres, porque Maria, depois de acompanhar Jesus de Belém até à Cruz, está junto d’Ele, em corpo e alma, gozando da sua glória por toda a eternidade” (S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n. 176).

Estas palavras do Fundador do Opus Dei, a propósito da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, que celebraremos no próximo dia 15 deste mês de Agosto, ajudam-nos a compreender melhor o trajecto de santidade excelsa de Nossa Senhora. Ela, que foi escolhida por Deus para ser a Mãe de Jesus, pôs toda a sua vida ao serviço deste desígnio divino, sem nunca dizer que não a qualquer solicitação requerida por Deus.

Por isso, mereceu ser levada para o Céu, em corpo e alma. Não por qualquer favor especial de Jesus, mas por ter sido julgada digna de aí ascender pelos méritos que aqui na vida terrena alcançou, correspondendo integralmente à graça que Deus lhe deu, desde a sua concepção, até ao momento em que a levou para o banquete celestial. Toda a sua vida foi um sim reiterado ao que Deus lhe pedia. Vejamos:
Quando Maria é indagada pelo Arcanjo S. Gabriel sobre a sua disponibilidade para aceitar ser a Mãe do Messias, Nossa Senhora responde positivamente. Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 37). Tem consciência de que, a partir daquele momento, será sujeita à dura prova de causar perplexidade no seu jovem esposo, que tanto amava. Confia em Deus, abandonando-se nas suas mãos, que resolve a inquietação de José, dizendo-lhe: Não temas, José, filho de David, receber em tua casa Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é obra do Espírito Santo (Mt 1, 20).

Duas lições nos deu Maria: aceitar sem reservas a vontade de Deus e confiar as dificuldades à providência divina, que nunca tenta ninguém acima das suas próprias forças (1 Cor 10, 13), porque além de justíssimo nos ama como nenhum outro ser.

Nossa Senhora é incapaz de esquecer as necessidades do seu próximo. Algum tempo depois da concepção de Cristo no seu seio, ei-la de abalada custosa até à sua prima Isabel, que engravida pela primeira vez em idade avançada e necessita do seu auxílio: (...) foi com pressa às montanhas (...) Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel (...) que mal ouviu a saudação de Maria, o menino saltou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1, 41). E é esta criança, João Baptista, quem pela primeira vez atesta a presença do Salvador na terra.

Jesus nasce em condições paupérrimas em Belém, de modo aparentemente imprevisto. Maria e José apenas podem oferecer-Lhe o seu carinho e desvelo, nada mais. Não protestam. Aceitam as circunstâncias como bons filhos de Deus, que em breve os recompensa, com a presença de alguns pastores, gente simples e humilde, que apresentam ao Redentor as primeiras homenagens do género humano, depois de ouvirem uma corte de anjos no Céu exclamar: Glória a Deus no mais alto dos céus... (Lc 2, 14).

A infância de Jesus decorre com normalidade. Ele (...) era-lhes submisso (Lc 2, 51), diz o evangelista a respeito de Jesus, que, no entanto, de modo algo insuspeito, não deixa os seus pais sem grandes aflições, quando O perdem em Jerusalém, e, após três dias de angústia e muita oração, O encontram no templo da cidade santa em diálogo com os rabis desses tempos. E sua mãe disse-Lhe: Filho, porque procedeste assim connosco? (...) Ele respondeu-lhes: Para que Me procuráveis? Não sabeis que devo ocupar-Me nas coisas de meu Pai? (Lc 2, 48-49). Maria tem dificuldade de entender estas palavras do Filho. Mas, por saber Quem era o seu autor, diz S. Lucas que a reacção de Nossa Senhora foi conservar (...) todas estas coisas no seu coração (Lc 2, 51), como um tesouro precioso para meditar e rezar.

A vida pública de Nosso Senhor pouco nos fala de Maria. José, segundo tudo leva a crer, já tinha partido para a eternidade. No entanto, quando a presença da Mãe é necessária para acompanhar Jesus na sua Paixão e Morte, aí a encontramos, fiel como sempre, cheia de dor e de pena, embora acalentando o Filho a levar o sacrifício até às últimas consequências. Era vontade de Deus que o terrível sofrimento do nosso Salvador servisse de tenaz para abrir às almas justas as portas do Céu, fechadas a todos os homens desde o pecado de Adão.

Fiel da concepção até à morte, o trajecto de Maria é o da santidade plena e imaculada. Cristo, na Cruz, torna-a nossa Mãe, a fim de que nos ajude a seguir com mais determinação o caminho do Céu. Levou-a para aí, em corpo e alma. Assim a conheceu na terra e por ela foi acarinhado e educado. Desde então, no Céu, tal como neste mundo, temos um Pai e uma Mãe. Esta não é de natureza divina. Mas ajuda-nos a compreender melhor o Amor familiar, paternal que Deus nos tem.

P. Rui Rosas da Silva

Assunção de Nossa Senhora, El Greco (1577), óleo sobre tela, 401x229cm, Art Institute of Chicago

25 de julho de 2007

O que são as indulgências?

Os nossos pecados são perdoados quando nos confessamos. Esse perdão diz respeito à culpa, mas não à pena que lhe é devida. Deus absolve, mas o homem pode continuar apegado ao pecado que cometeu. O pecado deixa na alma uma inclinação. Essa inclinação para o mal prende o homem e não o deixa saborear Deus em plenitude. É para purificar a marca deixada pelo pecado que existe um tempo de purgatório nas almas que morrem na graça de Deus. O homem pecador pode, no entanto, também purificar-se durante a sua vida na terra. A contrição pelo pecado pode chegar a ser tão grande que dele não fique nada na alma.
A Igreja deseja que todos nos purifiquemos e que ajudemos aqueles que estão ainda no Purgatório a libertar-se das marcas dos pecados, e concede a indulgência ou perdão da pena, a partir do tesouro de graças que lhe deixou Cristo e também os Santos, a qual se pode aplicar por nós mesmos ou pelos defuntos.
O Papa afirma: "O uso das indulgências ajuda-nos a compreender que não somos capazes, só com as nossas forças, de reparar O mal cometido e que os pecados de cada um causam dano a toda a comunidade" (BENTO XVI, Exortação Apostólica Sacramentum caritatis, n. 21).
As indulgências podem ser parciais ou plenárias, isto é, de parte ou de toda a pena devida pelos pecados. Para obter uma indulgência plenária requer-se:
  • o recurso ao Sacramento da Penitência, pelo menos na semana anterior, e não ter consciência de nenhum pecado mortal ainda não confessado;
  • a Comunhão eucarística;
  • a realização de uma obra penitencial que a Igreja determina;
  • a oração pelo Santo Padre, como representante na terra da Comunhão dos crentes;
  • a detestação de todo o pecado mesmo venial;
  • a aplicação por uma alma do Purgatório ou a realização de uma obra de caridade se se pretende aplicar por si mesmo;
  • o desejo explícito de lucrar a indulgência (só se pode lucrar uma por dia)

Indulgências

São obras penitenciais que permitem obter a indulgência plenária, entre outras:

  • a oração diante do Santíssimo Sacramento durante meia hora;
  • a prática da Via Sacra;
  • a recitação de uma parte do Rosário numa igreja ou em família.

Durante o mês de Julho, no dia 16, celebra-se a memória de Nossa Senhora do Carmo. É uma invocação que está ligada à aparição da Virgem Maria a Simão Stock, um santo carmelita, no monte Carmelo (o monte ligado à pregação do Profeta Elias), onde Ela quis deixar um sinal da sua protecção e do seu interesse por levar-nos para o Céu: o Escapulário.

O uso devoto do Escapulário do Carmo é também uma obra penitencial que permite obter indulgência plenária nos seguintes dias do ano:

  • 16 de Julho, memória de Nossa Senhora do Carmo
  • o dia em que se recebeu a imposição do Escapulário e seus aniversários;
  • os dias em que se comemoram santos carmelitas: São Simão Stock (16 de Maio), Santa Teresa de Jesus (15 de Outubro), São João da Cruz (14 de Dezembro), Santa Teresinha do Menino Jesus (1 de Outubro) e Todos os Santos Carmelitas (14 de Novembro);
  • 20 de Julho (dia do Santo Profeta Elias).

1 de julho de 2007

"Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus, e criou-os homem e mulher (...) Entretanto fez-se tarde e depois se fez manhã: sexto dia (...)"

"E Deus acabou no sétimo dia a obra que tinha feito; e descansou no sétimo dia de toda a obra que tinha feito. E abençoou o dia sétimo, e o santificou, porque nele tinha cessado de toda a sua obra, que tinha criado e feito."
(Gén 1,27.31.2,3)

Este pequeno texto do primeiro livro do Antigo Testamento manifesta como Deus aprecia o descanso, como meio de revigorar forças. Dir-se-ia que é um acto justo para quem trabalha e realiza uma boa obra, que beneficia todos os homens. A criação acaba de ver surgir a criatura preferida pelo Senhor, pois é parecido com Ele. Em prol da sua futura conduta, Deus ensina-lhe que deve haver momentos em que ele pare a sua actividade laboral e retempere a energia que nela gastou.

Esta lição exemplar destina-se ao homem e apenas a ele, já que Deus, pela sua perfeição essencial, não necessita de descanso. Por isso, quer mostrar-lhe que o seu comportamento deve ser ordenado e exige moderação: não pode exaurir-se num corrupio de actividade superior às suas próprias capacidades. Precisa de pausas para pensar melhor no que está a fazer e como está a fazer. Caso contrário,esgota-se ou deixa que o seu orgulho o convença vamente de que é senhor de todo o seu procedimento, não tendo de prestar contas a ninguém do que realiza. Quantas desilusões e desalentos não surgem na vida do homem dos nossos dias pelo facto de se esquecer de que é um ser limitado, que necessita de remansos sadios para descansar! A imaginação infla e passamos a encontrar complicações desnecessárias. São Josemaría observava com razão que a maior parte dos problemas que nos afectam são produto da nossa imaginação deletéria.

Com Julho, começam as férias de uma boa parte de todos nós. Elas são desejadas desde há muito tempo. Não esqueçamos, porém, que não temos o direito de esquecer a Deus durante os seus dias, vivendo num completo esquecimento das nossas obrigações de seus filhos.

Nestes tempos, quando nos apartamos dos nossos lares e fazemos alguma viagem, temos por bom costume escrever alguma mensagem, que enviamos pelo correio ou pelos meios que o avanço tecnológico nos permite. É um sinal da nossa amizade, um dever que não descuramos e até o cumprimos com gosto.

A Deus, que devemos amar sobre todas as coisas, as férias encontram-nO em toda a parte, porque o seu poder e a sua presença não se esvaem ou se sumem. Pode acontecer que O rejeitemos no nosso coração, considerando a sua companhia incómoda, durante uns dias em que queremos viver como se Ele desaparecesse da nossa vida. Nesta ordem de ideias, julgamo-nos livres para nos comportarmos como nos apetecer, sem contar conSigo e esquecendo os seus mandamentos.

É preciso estar bem ciente de que Deus é o senhor das férias, porque foi Ele que desejou que o homem descansasse. Não O acantonemos na gaveta do esquecimento. Que nos acompanhe sempre e sempre Lhe manifestemos o nosso amor. Nem sequer punhamos de parte as obrigações que para com Ele temos. Dizia João Paulo II que o coração de um bom cristão, no fim de semana, está posto no cumprimento do preceito dominical. Também nas férias, que devem ser tempo de maior intimidade com o Senhor de todas as coisas e de todos os tempos. Não O defraudemos, invocando a protecção da sua Mãe e nossa Mãe, Nossa Senhora, a fim de com ela nos sentirmos muito bem acompanhados e juntos de Deus.

P. Rui Rosas da Silva

A tocadora de viola, Vermeer, 1672 (aproximadamente)

18 de junho de 2007

Actos de adoração

Imaginemos uma estrada plana, toda de excelente alcatrão, sem nenhum traço no chão e extensa, tão extensa que perdemos de vista os seus limites: não vemos onde termina a estrada, quer à esquerda quer à direita. Numa superfície assim o condutor pode sentir-se um pouco perdido. E no entanto nada o impede de andar.

Que falta aqui? Faltam os limites, o relevo, numa palavra, a diferença. Se tudo for igual, absolutamente igual, o homem sente-se perdido.

Cada homem é uma criatura, não domina a sua existência. Não é o criador e necessita de sinais que lhe indiquem que existe Alguém que é mais do que ele e o pode ajudar. Por isso todo o homem necessita de adorar. A adoração não é um mero movimento de afecto ou estima por outra pessoa. À estima, a adoração acrescenta a submissão que é expressão da nossa diferença em relação a Deus. Sem a adoração a religião não orienta e acaba também por não unir a Deus, pelo menos ao Deus criador e omnipotente. Deus quer a nossa amizade e na amizade existe sempre uma certa igualdade. Mas essa igualdade dá-se porque Deus Se abaixa ou porque nos eleva. A amizade com Ele não se opõe à adoração.

A tentação original foi a de se fazer igual a Deus, de não haver diferença entre o homem e Deus (cf. Gn 3,5). Também agora a tentação de não adorar se insinua. Diante da Eucaristia podemos fazer o esforço por adorar, por fazer actos de adoração, por entender que somos limitados e colocar em Deus a orientação da nossa vida.

Esses actos de adoração podem traduzir-se em gestos como a genuflexão ou a inclinação, ou em palavras em que exprimimos a nossa diferença em relação a Deus. Uma diferença que não recusa a oferta da amizade e da intimidade com Ele. Também os tempos dedicados à adoração ao Santíssimo, no Sacrário ou exposto sobre o altar.

Também o Papa é consciente desta dificuldade: ele alerta que "aconteceu às vezes não se perceber com suficiente clareza a relação intrínseca entre a Santa Missa e a adoração do Santíssimo Sacramento; uma objecção então em voga, por exemplo, partia da ideia que o pão eucarístico nos fora dado não para ser contemplado, mas comido. Ora, tal contraposição, vista à luz da experiência de oração da Igreja, aparece realmente destituída de qualquer fundamento" (BENTO XVI, Exort. Ap. Sacramentum caritatis, 66). E acrescenta: "Juntamente com a assembleia sinodal, recomendo, pois, vivamente aos pastores da Igreja e ao povo de Deus a prática da adoração eucarística tanto pessoal como comunitária" (Ib. 67).

13 de junho de 2007

São Josemaria Escrivá (1902-1975)

De entre a abundância de escritos seleccionámos estas passagens de um artigo com o título La Virgen del Pilar, publicada no Libro de Aragón em 1976 (a tradução do original castelhano é da nossa responsabilidade):
"Para mim, a primeira devoção mariana - gosto de o ver assim - é a Santa Missa (...). Cada dia, quando Cristo desce às mãos do sacerdote, renova-se a sua presença real entre nós, com o seu Corpo, com o seu Sangue, com a sua Alma e com a sua Divindade: o mesmo Corpo e o mesmo Sangue que tomou das entranhas de Maria. No sacrifício do altar, a participação de Nossa Senhora evoca-nos o silencioso recato com que acompanhou a vida do seu Filho, quando andava pelas terras da Palestina. A Santa Missa é uma acção da Trindade: por vontade do Pai, cooperando o Espírito Santo, o Filho oferece-Se em oblação redentora. Nesse insondável mistério, adverte-se, como que entre véus, o rosto puríssimo de Maria: Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo" (...)
"O trato com Jesus no sacrifício do altar implica necessariamente lidar com Maria, a sua Mãe. Quem encontra Jesus encontra também a Virgem sem mancha, como aconteceu com aquelas santas personalidades - os Reis Magos - que foram adorar Cristo: entrando na casa, encontraram o Menino com Maria, a sua Mãe (Mt 2,11). Mas a vida sobrenatural é rica, variada: noutras ocasiões chegaremos a Jesus se passamos antes por Maria. A nossa oração à Santíssima Virgem converte-se assim num itinerário que, pouco a pouco, nos vai aproximando do Coração amabilíssimo de Jesus"

1 de junho de 2007

Dois Corações, o mesmo Amor de Deus que deles transparece. O primeiro é o de Jesus, Nosso Senhor, que dele dizia com naturalidade as suas características fundamentais: a mansidão e a humildade. (...) Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de Coração: Mt 11, 29.

No entanto, um coração não é o fruto espontâneo da natureza de uma pessoa. Ao contrário, ele forma-se ao longo dos anos, através da educação que recebe, dos exemplos que contempla e da luta por ser virtuoso. Por outras palavras: não se é manso e humilde de coração sem um esforço perseverante por torná-lo assim. Jesus, enquanto homem, conseguiu que o seu Coração tivesse em sumo grau essas duas qualidades tão apreciáveis, porque pugnou pela sua conquista. No Calvário e em todas as circunstâncias da sua vida pública pôde evidenciá-Ias de maneira clara, não porque natural e espontaneamente o seu Coração possuísse a mansidão e a humildade sem qualquer luta. Isso seria a negação da sua Humanidade: como Homem perfeito, teve de percorrer as mesmas etapas, os mesmos estímulos e as mesmas batalhas de formação de qualquer um de nós, excepto no pecado.

E aqui entra - e de que maneira! - um outro coração, que teve como principal missão proporcionar a Jesus todos os aspectos que uma pessoa deve aprender para que o seu coração seja verdadeiramente manso e humilde. Exemplo constante, sem exibicionismos desnecessários, o Imaculado Coração de Maria foi o padrão constante que ensinou, sob o ponto de vista humano, o Sagrado Coração de Jesus. Maria, Mãe do nosso Redentor, com a sua vida simples e santa, manifestou ao seu Filho como deve ser manso e humilde um coração para aceitar em tudo a vontade de Deus e pô-la em prática.

Nossa Senhora não precisou de fazer discursos complexos, ou citar mestres em pedagogia para ensinar Jesus. Ela limitou-se a mostrar ao Filho esse "Sim" incondicional que proferiu no momento em que arcanjo S. Gabriel lhe anunciou o que Deus pretendia dela: ser a Mãe do Messias prometido desde os primórdios da humanidade, quando Iavé, depois do pecado de Adão e de Eva, não os abandona ao seu destino de pecadores, ao dizer ao demónio tentador, na presença dos nossos primeiros pais: (...) Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a dela; esta te esmagará a cabeça...: Gén 3, 15.

Sendo o mês de Junho um tempo em que a Igreja dedica especial devoção ao Sagrado Coração de Jesus, façamos nós um exame profundo de consciência, procurando entender se, nas lutas diárias que a vida nos oferece, reagimos de facto como bons alunos de Jesus, não dando lugar ao desespero e à ira, quando as contrariedades nos batem à porta. Chegaremos com certeza à conclusão de que teremos ainda um grande percurso a palmilhar para que as nossas respostas sejam as de um coração manso e humilde como as de Cristo.

Da sua conduta nos trinta e três anos que passou entre nós retiraremos sem dúvida as melhores lições. Não esqueçamos, porém, que Maria Santíssima pode e deve ser a nossa mestra em tal matéria. Ela, como Mãe de Jesus, ensinou-O, humanamente, de modo eficacíssimo. E com o mesmo carinho e empenho, desde que no Calvário aceitou ser nossa Mãe, ela nos guiará pelos verdadeiros caminhos da mansidão e da humildade.

P. Rui Rosas da Silva

S. Paulo visita S. Pedro na Prisão: Fresco de Filippino Lippi, séc. XV

18 de maio de 2007

As três Avé-Marias da Santa Pureza

Há muitas maneiras de honrar Nossa Senhora, há muitas maneiras de lhe agradecer, muitas maneiras de lhe pedir. Um dos costumes arraigados no povo cristão é o de recorrer a Ela para a virtude da Santa Pureza. Não é a maior das virtudes cristãs mas é imprescindível para alcançar a visão de Deus, tanto nesta terra, no meio do nosso caminho de peregrinos, como na visão definitiva do Céu: "Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus", disse o Senhor no Sermão da Montanha (cf. Mt 5,8).

Maria é modelo de pureza: n'Ela não há nada que se incline para a satisfação do próprio egoísmo, carnal ou mesmo espiritual. Quis sempre ser só a escrava do Senhor (cf. Lc 1,38), a sua serva (cf. Lc 1,48), alguém que estivesse às ordens de Deus. Por isso Ela recebeu uma fecundidade universal: sendo a Mãe de Deus tornou-se também a Mãe de todos os homens (cf. Jo 19,26-27). A pureza é uma condição para amar e exige uma tarefa de limpar do nosso coração tudo o que o mancha, por mais pequeno que pareça.

A doçura de Nossa Senhora pode aquietar o nosso pobre coração que, por vezes, nos faz sentir com força que é de carne: Ela é a Mãe do Amor Formoso (cf. SÃO JOSEMARIA, Caminho 504). A sua beleza atrai-nos ao amor das coisas árduas, das coisas difíceis.

Sempre podemos recorrer a Maria para lhe pedir ajuda nesta luta: quando estamos a sentir o ardor da nossa inclinação para o prazer, quando o pressentimos, ou mesmo quando fomos derrotados e nos encontramos envergonhados e desanimados. Há um momento, porém, em que esse pedido é mais oportuno: quando nos vamos deitar. Então, talvez com o olhar numa imagem d'Ela, ajoelhamo-nos e recitamos três Avé-Marias com pausa e com atenção: pedimos que nos ajude a nós, que ajude todos os nossos e que ajude todo o mundo na luta por ser limpo de corpo e de coração. E Ela, que nos escuta sempre, encarrega-se de conseguir isso de Deus.

13 de maio de 2007

Bernardo de Claraval

São Bernardo de Claraval (1090-1153) foi um dos Doutores da Igreja que mais pregou sobre a Virgem Maria. A ele se atribui a oração Lembrai-vos.
"Ouves falar de uma Virgem, ouves falar de uma humildade; se não podes imitar a virgindade da humilde, imita a humildade da Virgem. Louvável virtude é a virgindade, mas mais necessária a humildade: aquela é-nos aconselhada, esta mandada; convidam-te para aquela, mas a esta obrigam-te (...) Podes salvar-te sem a virgindade, mas não sem a humildade. Pode agradar a humildade que chora a virgindade perdida; mas sem a humildade - atrevo-me a dizê-lo - nem mesmo a virgindade de Maria teria agradado a Deus. (...) Porque como é que poderia conceber d'Ele sem Ele? (...) Então se em relação à virgindade de Maria só podes admirar, procura imitar a sua humildade, e isso te basta" (Sermo 6,7; PL 183,55; cit. in La Virgen Madre, Rialp, Madrid, 1957, pp.24-26)
"Sim, encontrou aquilo que procurava Aquela a quem se disse: Encontraste graça as olhos de Deus [cf. Lc 1,30]. Como? Está cheia de graça e ainda encontra mais graça? Digna é certamente de encontrar aquilo que procura porque não A satisfaz a própria plenitude, nem está contente mesmo com o bem que já possui, mas como está escrito: Aquele que me bebe, ainda terá sede (Sir 24,21), pede para poder transbordar para a salvação do universo" (Ib. p.106)

1 de maio de 2007

Novamente, o mês de Maio, com todo o seu encanto mariano, nos vem recordar, por um lado, quem temos no Céu como Medianeira de todas as graças, e por outro, o desprendimento de Jesus de tudo o que tinha de Seu e de mais querido nesta terra: além de nos dar a sua vida, desprendeu-Se da sua condição de Filho único de Maria, para tornar todos os seus discípulos filhos de Nossa Senhora, pouco antes de morrer na Cruz do Calvário.

A Virgem Santíssima, que nunca recusou a mínima solicitação inspirada por Deus, aceitou imediatamente a sua nova e profícua maternidade! Reuniu os apóstolos e evitou que se dispersassem de vez, a fim de que, no domingo seguinte, se apercebessem finalmente, apesar do cepticismo com que enfrentavam a Ressurreição, que Jesus cumpriria com rigor a sua promessa de voltar à vida e de lhes aparecer.

Maria, que é desde então nossa Mãe, tem a missão de reunir em torno a Cristo os seus novos filhos. Como boa educadora, é persistente e generosa. Não descansa. Cheia de amor maternal, ela compreende os nossos erros, sofre com os nossos pecados, mas, como todas as mães, tem o regaço pronto a todo o momento para o abraço da reconciliação e a sua boca não se fatiga, junto das três Pessoas da Trindade, de tecer elogios a cada um dos seus filhos, apesar de reconhecer que, tantas vezes, o nosso comportamento nada tem de exemplar. Talvez por isso, como observava S. Josemaría, "dá alegria verificar que a devoção à Virgem Santíssima está sempre viva, despertando nas almas cristãs um impulso sobrenatural como domestici Dei, como membros da família de Deus" (Cristo que passa, n. 139).

Não foi certamente por acaso que Cristo a incumbiu, frequentemente, ao longo da história da Igreja, de mandar alguns recados dolorosos aos homens. Assim Fátima, cujas aparições completam o seu nonagésimo aniversário exactamente no próximo dia 13 deste mês. Aí, ela veio uma vez mais pedir aos seus filhos que tivessem juízo, que abandonassem os seus maus costumes e se convertessem, fazendo para tanto penitência e oração. Insistiu na reza diária do terço e pediu aos pastorinhos sacrifícios pelos pecadores. Aos dois mais novos, levou-os para o Céu pouco depois e deixou a mais velha por cá mais algum tempo - ou seja, perto de 90 anos (na eternidade o tempo é uma realidade sem' relevância), a fim de nos lembrar a sua mensagem-convite, que nos fala de conversão e do grande amor que o Pai, o Filho e o Espírito Santo nos têm ao pedirem-lhe que descesse na Cova da Iria e falasse connosco em linguagem simples de Mãe.

Será possível não nos recordarmos do bem que nos fez o "mês de Maria" que se rezava na nossa casa nos dias de Maio? Provavelmente, foi ele um dos grandes pilares da fé que nos orientou ao longo da vida. Nossa Senhora, porque é Mãe, não faz propósitos para gostar de nós e deixa-se cativar por estes gestos de amor simples, com que lhe manifestamos a nossa devoção. Não será de repensarmos o nosso "mês de Maria" familiar? Pais e filhos à volta de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Que mais afortunada reunião poderá haver? Quantos frutos de Fé e de piedade sólida não nascerão para sempre no coração dos seus participantes!

P. Rui Rosas da Silva

18 de abril de 2007

Conhecer Jesus

Todo o Baptizado foi revestido de Cristo (cf. Ga 3,27) e recebeu, desde esse dia, a condição de filho de Deus em Cristo, pela qual se pode dirigir ao Pai chamando-Lhe Abba (cf. Ga 4,6; Rm 8,15) que é o modo como as crianças hebreias tratavam os seus pais e corresponde talvez ao nosso "papá".

Mas ser cristão não termina no Baptismo. Começa no Baptismo. Depois há um crescimento na identificação com Cristo, que exige o esforço por conhecer a sua vida e a sua alma. Um dos meios mais eficazes é a leitura assídua do Novo Testamento.

No Novo Testamento encontramos três tipos de Escritos: os Evangelhos com os Actos dos Apóstolos, as Epístolas e o Apocalipse.

Os Evangelhos são narrativos: descrevem os gestos e as palavras de Jesus e também os gestos e as palavras dos Apóstolos que O seguiram. É onde mais directamente conhecemos Cristo.

Nas Epístolas temos uma meditação de um Apóstolo sobre Jesus e sobre a nossa identificação com Ele. É onde aprendemos a reflectir sobre Cristo e a tirar consequências para a nossa vida.

E no Apocalipse encontramos uma visão profética do triunfo de Jesus e daqueles que com Ele se identificaram. É onde nos apoiamos para esperar quando sentimos as dificuldades.

Não se requer muito tempo. Bastam alguns minutos, cinco, por exemplo. Requer-se que essa leitura seja atenta, que seja completa e que seja religiosa. Que seja completa implica não escolher a passagem ao nosso gosto mas ao gosto do Espírito Santo, seguindo a ordem do Escrito. Para que ela seja religiosa pode-nos ajudar a rezar, no início e no fim, uma Avé Maria por ser Ela, a Mãe de Deus, quem melhor conheceu Jesus, ou uma oração ao Espírito Santo que é o verdadeiro Autor daquilo que estamos a ler e é também quem nos pode fazer entender aquilo que lemos.

Por vezes podemos tropeçar com uma passagem que seja mais difícil de entender. Podemos tomar um apontamento e depois perguntar a alguém que saiba o significado daquela expressão ou daquele gesto. Mas essa leitura, mesmo repetida, nunca será rotineira; há-de sempre produzir fruto na nossa alma.

13 de abril de 2007

Catarina de Sena

Catarina nasceu em Sena no ano de 1347 e veio a morrer em 1380, aos 33 anos. É Doutora da Igreja e Padroeira da Europa. A sua festa celebra-se a 28 de Abril.
No livro Diálogo Deus declara a Catarina:
"Se alguém Me ama com amor de servo, Eu, como Senhor, dou-lhe o que lhe devo, mas não Me manifesto a ele, porque os segredos manifestam-se ao amigo, que se fez uma só coisa com o seu amigo" (SANTA CATARINA DE SENA, Diálogo 11,4,2,3; traduzido da versão espanhola da BAC, 1955, p. 296)
Noutro momento, aborda o tema do Lado aberto de Cristo pela lançada do soldado e Deus responde-lhe:
"[A alma que contempla] conheceu no Lado o fogo da divina caridade, que foi o que te manifestou, se te lembras, a minha Verdade quando Lhe perguntaste: "Ó doce e imaculado Cordeiro! Tu estavas já morto quando Te abriram o lado, porque quiseste que se Te ferisse e abrisse o Coração?" Ele, se bem te lembras, respondeu: "Muitas razões havia para isso, mas dir-te-ei a principal. Era infinito o meu desejo para com a linhagem humana e finito o acto de passar por penas e tormentos. Por isso quis que vísseis o Sagrado Coração, mostrando-O aberto, para que compreendêsseis que amava muito mais do que conseguia demonstrar pelo modo finito da pena. Ao derramar sangue e água, mostrei-vos o Baptismo de água que recebeis em virtude do Sangue"
(Ibidem 11,4; p. 322)
Depois dos votos solenes que professou Catarina sofreu muitas tentações; é a elas que se refere ao dialogar com Jesus:
"Meu dulcíssimo Senhor, onde é que estavas quando o meu coração se via cheio de tantas coisas desonestas?
"Respondendo-lhe Jesus: "Estava no teu coração"
(Ibidem Oração IV; p. 556)

1 de abril de 2007

Não há verdadeira alegria na alma, quando esta não se encontra em paz. E a nossa paz provém das nossas boas relações com Deus, a Quem tudo devemos.

Por isso, para saborearmos com autêntico júbilo a Ressurreição do Senhor, precisamos de ter a nossa alma em Graça, isto é, permeável a todos os benefícios que o Espírito Santo nela nos inculca, através da Sua acção santificadora.

Por vezes, a nossa fraqueza deixa penetrar na alma a mancha do pecado, que nos afecta a Graça. Precisamos então de pedir perdão a Deus, arrependidos de o termos cometido. Se se trata de um pecado grave ou mortal, para receber a Sagrada Comunhão, terei de me confessar antes.

Receber este Sacramento é saber apreciar a plenitude da misericórdia de Deus, que não quer a nossa alma toldada por problemas que só se solucionam através do arrependimento sincero, cuja manifestação mais visível da nossa parte é ajoelharmo-nos diante do confessor e contar-lhe com simplicidade e absoluta sinceridade a nossa conduta de pecadores.

Ele, que faz as vezes de Cristo, escutará com calma a nossa confissão e procurará, por todos os meios, sossegar-nos quanto ao perdão total e absoluto que Deus nos concede. Animar-nos-á a confiar na ajuda divina e a caminhar pela vida sabendo aproveitar a magnanimidade da sua misericórdia, tendo em conta a fragilidade da nossa natureza e também a nossa condição ímpar de filhos de um Deus que nos ama dum modo que não podemos imaginar. A parábola do filho pródigo revela-nos que à hora do perdão, suposto o nosso arrependimento, não existe no Pai qualquer ressentimento. E que a sua alegria leva-O, uma vez mais, a festejar, com toda a energia, o nosso regresso à sua casa, ao estado de Graça.

Depois de rezarmos o acto de contrição e ouvirmos, "Eu te absolvo, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo", ficamos com a certeza de que a nossa alma e todo o nosso ser, que acaba de receber o perdão de Deus, volta a ser templo do Espírito Santo, alvo do amor de predilecção de toda a Trindade e da nossa Mãe, Maria Santíssima. A paz e a serenidade instalam-se com vigor. E toda a vida volta a ter o seu verdadeiro sentido, porque acabamos de lançar por terra tudo aquilo que verdadeiramente nos tornava infelizes, isto é, o pecado.

Se ainda o não fizemos até agora, aproveitemos os dias da Semana Santa para nos abeirarmos do Sacramento da Confissão e incentivarmos algum amigo nosso a acompanhar-nos. A alegria de vermos Cristo ressuscitado, no Domingo de Páscoa, com todas as condições que ela requer, merece bem este pequeno esforço.

Boa Páscoa a todos!

P. Rui Rosas da Silva

18 de março de 2007

Exame de consciência para a Confissão

  1. Tenho assistido à Missa todos os Domingos e Dias de Preceito?
  2. Tenho procurado ser piedoso e atento nas minhas orações?
  3. Tenho vencido a vergonha ou a preguiça para falar de Deus aos meus familiares, amigos, colegas e vizinhos?
  4. Tenho faltado à caridade com as pessoas da minha família?
  5. Tenho-me impacientado com pessoas com quem convivo por razões de trabalho, de vizinhança ou mera casualidade?
  6. Tenho guardado a pureza com as imagens e com a minha imaginação?
  7. Tenho fomentado, em mim e à minha volta, a generosidade em relação à vida, reconhecendo que é um dom de Deus?
  8. Tenho sido generoso com os meus bens e procuro não gastar comigo mesmo desnecessariamente?
  9. Tenho sido sincero e assíduo na Confissão sacramental?
  10. Tenho procurado vencer a preguiça de manhã para me levantar e à noite para me deitar, e procuro fazer em primeiro lugar aquilo que mais me custa ou o que pode facilitar a vida aos outros?
  11. Tenho sido guloso ou destemperado na bebida?
  12. Tenho admitido pensamentos de inveja?

13 de março de 2007

São José, Esposo da Virgem Stª Maria

Desde a Antiguidade que a Igreja venera São José mas pode-se dizer que a sua veneração tem vindo a crescer com o tempo, em paralelo com a de Nossa Senhora. O argumento de São Josemaria era o mesmo que os primeiros Padres usavam para a Virgem Santíssima: Deus podia ter escolhido aquelas pessoas que iam desempenhar um papel importante na educação do seu Filho, Jesus Cristo, e dotá-Ias, tendo em vista essa missão, com muitas graças. Se Deus podia e se convinha que o fizesse então é porque o fez.

A Escritura corrobora este raciocínio teológico. Pelo que narra São Mateus, José e Maria ainda não viviam juntos quando Ela concebeu. A gravidez naquelas circunstâncias punha a honra da esposa em sério risco. "José, sendo justo e não a querendo difamar, pensou despedi-Ia secreta mente" (Mt 1,19). O texto é um pouco lacónico mas permite entender que José desconhece a origem da concepção, até porque será o Anjo quem há-de informar que "o que n'Ela se gerou é do Espírito Santo" (Mt 1,20). No entanto, se ele não quer que Maria seja difamada é porque está convencido da sua inocência. A solução então é um repúdio secreto. Mas o que é um repúdio secreto? O repúdio é uma declaração por parte do marido que permite à esposa casar com outro. Se ele é secreto, provavelmente, significa que a esposa fica com a possibilidade de o usar ou não. Ou seja, José dava a Maria a possibilidade de se casar com o pai da criança ou não. Só que esta solução só tem eficácia se é acompanhada pelo desaparecimento do marido actual de Maria, que é o próprio José. Desaparecendo José, Maria pode não casar com ninguém e a sua honra fica salva, porque, para todos os olhos, aquele que vai nascer é filho do marido desaparecido. E, ao mesmo tempo, a desonra cai sobre José, que é visto por todos como mau marido e mau pai.

De facto, o Anjo que lhe aparece em sonhos começa por dizer "José, filho de David, não tenhas receio de receber Maria, a tua Esposa" (Mt 1,20). Portanto José tinha medo de receber Maria, que seria a solução mais fácil. José temia fazer mal não por deixá-Ia sem castigo mas porque talvez se sentisse culpado.

Era um modo heróico de proceder. José perdia a esposa, perdia tudo o que possivelmente tinha ido guardando em vista do futuro casamento, e perdia ainda a sua boa fama. Mas não via outra saída. A sua actuação, no entanto, mereceu o envio do Anjo. José é o modelo do sacrifício completo e silencioso, por amor.

1 de março de 2007

Mais uma vez, a Quaresma espera-nos com todo o seu convite à conversão, a voltar-nos decididamente para Cristo, prestar-Lhe atenção, dar-Lhe importância, sabendo ver n'Ele o verdadeiro amigo, que manifesta através da Sua Paixão e Morte a maior prova de amizade que alguém pode dar ao seu próximo.

Jesus incita-nos a acompanhá-Lo no percurso doloroso do Calvário. Quer que vamos com Ele, dando-nos a companhia de Sua Mãe, que nos ensinará a ser generosos na dor, serenos no sofrimento, generosos na entrega. Maria é a companhia inestimável que nos ensina o que é preciso saber para amar o Seu Filho. Se, porventura, por cobardia ou medo, quisermos fugir da Cruz que Jesus transporta, com a sua mão de mãe, vigorosa pelo sentimento e pelo carinho, não nos deixará partir e fará de nós companheiros de Simão de Sirene, que diminuiu com a sua ajuda o peso do madeiro.

Já no alto do monte, se chorarmos lágrimas amargas ao vermos Jesus crucificado e, num gesto de revolta, quisermos tirar o Senhor da Cruz, com firmeza de mãe consciente e boa educadora, dir-nos-á que mortifiquemos a nossa imaginação deletéria de sonhos quixotescos, lembrando-nos que o seu divino Filho está onde e como está para cumprir um mandato imperativo do Pai, que Lhe pediu o sacrifício supremo: "Pela mão de Maria - escreve S. Josemaría -, tu e eu queremos também consolar Jesus, aceitando sempre e em tudo a Vontade de Seu Pai, do nosso Pai" (Via Sacra, IV Estação). Por isso, a nossa presença amiga, se serve para suavizar o Seu sofrimento, deverá servir sobretudo para O acalentar a sofrer até à morte o que Deus Lhe pede, a fim de que a Sua vontade se cumpra integralmente e a obra da Redenção se ultime.

Não fujamos ao sacrifício nestes dias quaresmais, cumprindo com desvelo e humildade o que a Igreja determinou: o jejum e a abstinência de 4ª Feira de Cinzas e 6ª Feira Santa, além do dever de guardar abstinência obrigatoriamente todas as 6ªs Feiras destes quarenta dias. Não é muito o que se nos pede, apesar de a nossa tibieza, nesses momentos, exagerar os custos de tais renúncias. Funda-mental: passar um pouco de fome nos dias de jejum; escolher uma alimentação simples e pobre, que poderá ser não comer carne, nos dias de abstinência. Como fazem muitos bons cristãos, procuremos evitar as festas e as comemorações que se marquem para as 6ªs Feiras, a fim de vivermos com devoção e integridade o que nos está indicado para este dia da semana na quadra quaresmal.

E, por fim, recordemos que a Igreja nos estimula, neste tempo, a recorrer ao Sacramento da Reconciliação, sempre que necessário. Um exame de consciência criterioso, mostrar-nos-á, ajudados pelo Espírito Santo, como é oportuno, no início da Eucaristia, rezarmos assim: "Irmãos, reconheçamos as nossas culpas (...)". E prosseguindo: "Confessemos os nossos pecados".

Para quem, como Deus, é capaz de perdoar sempre e nos ama mais do que as mães aos seus filhos (Is 49, 15), com que alegria não assistirá do trono celeste à nossa contrição e, depois, à confissão íntegra dos nossos pecados. O perdão virá, como sempre, generoso, universal, sem ressentimentos, cheio de compaixão e de misericórdia. E a nossa alma, movida pela graça reconquistada, sentirá a alegria e a paz imensa que só Deus, origem e Senhor de toda a felicidade, pode dar.

O vosso pároco e amigo,

P. Rui Rosas da Silva

18 de fevereiro de 2007

Como fazer uma boa Confissão?

Confessar-se é uma das coisas que mais felicidade comunica à alma. Recebemos um cúmulo de graças destinadas àquelas faltas de que nos acusámos e aos defeitos que lhes estão na origem. A alma fica cheia de paz e o amor de Deus que sempre perdoa é-lhe mais manifesto.

No entanto, nem sempre é fácil fazer uma boa Confissão. Por vezes parece-nos que não encontramos nada para acusar. Noutras ocasiões a vergonha complica-nos terrivelmente. Há momentos em que não estamos certos do arrependimento porque nos parece que tínhamos razão.

Para fazer uma boa Confissão requer-se que nos detenhamos antes a examinar a própria consciência. Pedimos luz ao Espírito Santo e reservamos algum tempo, diante do Santíssimo, se possível. Se temos um registo diário do nosso exame recorremos a ele. Ao ler esses apontamentos pensamos na causa dos pecados para assim ir à raíz do mal. Se não temos recorremos a um formulário com perguntas de exame para nos ajudar.

A seguir procuramos formular um propósito de não voltar a cometer os pecados que vimos no exame. É aqui que pode surgir a dúvida sobre o arrependimento: temos que distinguir, nos casos duvidosos, aquilo que foi culpa nossa daquela parte que cabe a algum defeito dos outros, e propor-nos a emenda daquilo que nos diz respeito.

Vem então a dor ou contrição. Devemos pensar que não se trata de um erro mas de uma ofensa feita a Deus, que é infinitamente bom e que nos ama. É aqui que a alma se deve deter. Quanto mais fundo for o seu arrependimento mais sincera a sua Confissão, mais graça recebe, mais alegria, e mais libertação do pecado.

Depois chega o momento da Confissão. É bom pensar que, qualquer que seja o sacerdote, quem está a ouvir-nos é Cristo, que actua através do ministro. Nesta altura pode ser bom pedir ajuda, caso nos custe revelar algum pecado ou caso não tenhamos ainda noção clara do motivo de um pecado.

Finalmente cumprimos a penitência. Se nos foi dado um conselho procuramos gravá-lo na alma e até pode ser bom registá-lo para nos lembrarmos mais tarde. Agradecemos a Deus a sua bondade para connosco e renovamos o propósito que já tínhamos formulado.

13 de fevereiro de 2007

São Pedro, Apóstolo

Chamava-se Simão e o seu pai João. Era natural de Betsaida, cidade que se situa no extremo Norte da Galileia, na fronteira. De Betsaida era também Filipe. Tinha, pelo menos um irmão, chamado André, que também foi um dos Doze. Era pescador e encontramo-lo a pescar nas águas do Lago em frente a Cafarnaum.
Foi a este Apóstolo que Jesus confiou o governo da sua Igreja e mudou o seu nome para Kepha ou Pedro em previsão da sua função de alicerce, apoio, rocha sobre a qual pretendia edificar.
Quais os motivos para o ter escolhido a ele e não a outros?
Simão não sobressai pela fortaleza: ele chega a negar Jesus três vezes. Também não parece ser o mais identificado com a sua missão redentora: o Senhor tem que o repreender quando pretendia desviá-l'O da Paixão. Nem é o mais rápido em reconhecê-l'O na margem do Lago: João antecipa-se. No entanto, foi ele o escolhido.
Uma primeira resposta é a da gratuidade do dom: Deus escolhe quem quer não por méritos do interessado mas por pura benevolência. Assim é escolhido cada um de nós.
Uma segunda resposta é a da visibilidade da acção da graça: Deus escolhe instrumentos desproporcionados para que se note mais nitidamente que a Obra é sua, que é Ele quem actua através dos seus servos.
Uma terceira resposta é a de pensar que Pedro tinha uma característica que o tornava especialmente apto: a ductilidade. Pedro não é uma alma rígida mas dócil, fácil de conduzir. O seu coração transparece no Evangelho de São Marcos, que, segundo a Tradição, reflecte a pregação do primeiro Papa. Nesse Evangelho há passagens onde se nota como Pedro tem uma visão benevolente para com aqueles que poderiam merecer alguma suspeita. Pedro chora por ter negado o Mestre. Pedro enche-se de tristeza quando Jesus lhe pergunta por terceira vez se O ama. E é este coração que o torna apto.
Procuremos pedir a São Pedro que nos quebre as durezas da alma. Não são elas quem nos torna fortes e apoio para Deus. Que Pedro nos ensine a saber ceder em tudo o que não é ofensa a Deus.

1 de fevereiro de 2007


Pela força das circunstâncias, todos estamos convidados a votar no próximo dia 11 deste mês, dando assim resposta ao referendo que nos é proposto pela Assembleia da República.

Toda a gente está contra o aborto, porque tem consciência de que, chamando-se-lhe assim ou de forma mais eufemística, o que está em causa é a supressão de uma vida humana, que nasce no seio de uma mulher, que é a sua mãe. Ela tem consciência de que o que germina no seu interior não se trata de um conjunto de células, uma espécie de tumor maldito, ainda que não letal. Esta noção faz parte do processo que muita gente utiliza para desresponsabilizar quem pratica o aborto dum ónus psicológico e moral tremendo, que sempre acompanha quem nele se mete. Efectivamente, a consciência acusa de modo inexorável a mãe - sobretudo a ela - de ter despachado um filho que se desenvolvia nas suas entranhas.

Por isso, o problema do aborto nunca é uma questão que diga respeito apenas à mulher que engravida. Existem sempre mais dois seres. O filho que evolui, segundo a natureza, no seio materno, com os mesmos direitos à vida do que a sua mãe, e o pai, sem o qual a mulher não podia ser fecundada. Uma concepção machista desta questão, ao atribuir à mulher a única responsabilidade sobre a vida e a morte da criança que se encontra dentro de si, iliba o pai, dispensa-o de receber o filho que ajudou a gerar, e não dá o direito de defesa ao novo ser. Este fica totalmente entregue ao arbítrio da mãe. É um direito absoluto sobre as sua vida, que a lei não vai penalizar, se o aborto for feito até um determinado tempo.

Todo estes contornos fazem parte de um ambiente ideológico, onde a vida perdeu dignidade, já que, nos casos que a lei determina, podem exterminar-se seres humanos, se a mãe o requerer. Não se trata de células humanas, mas de vidas humanas!

O aborto é uma afronta ao poder de Deus criar novas vidas, porque evita que elas, por um processo natural, se desenvolvam normalmente desde as primeiras instâncias germinais até nascerem, crescerem, contribuírem para o bem de toda a sociedade e, depois, comparecerem na Sua presença para gozarem da eternidade. Estamos certos de que Deus providenciará no sentido de dar o melhor acolhimento a todo o ser humano que é abortado voluntariamente. Esta consolação poderá servir às mães cristãs que, num momento de confusão, sob a pressão habitual do pai, das famílias e dos maus amigos, consentiram em interromper voluntariamente a gravidez.

E, mais ainda: terem consciência de que o mesmo Deus que lhes outorgou a vida de que elas se desembaraçaram, é capaz, no caso de arrependimento, de lhes perdoar essa falta gravissíma, porque conhece a nossa fraqueza e sabe melhor do que ninguém os meandros de coacção que uma mulher sofre quando engravida, sempre que os que mais deviam ajudá-la a aceitar a nova vida a incentivam a desfazer-se do filho. A dor traumática e lacerante que a vai acompanhar até à sua morte é uma forma de expiação e de purificação pessoal, que a fará meditar dum modo nítido na enorme injustiça que cometeu e na gravidade do acto que deixou realizar, mesmo que compulsivamente.

Quanto temos de rezar e de nos sacrificar para que a situação do aborto no nosso país não piore substancialmente, a partir dos resultados do referendo próximo. E se piorar? Eis uma situação que vai reclamar dos cristãos mais oração, mais sacrifício e - falará agora a consciência de cada um -, um acto de contrição profundo por não termos sido tão exemplares no seguimento de Cristo. Só assim cativaremos os que convivem connosco a aceitar os seus ensinamentos. É que, como dizia S. Josemaria, "(...) estas crises mundiais são crises de santos" (Caminho, 301).

O vosso pároco e amigo,

P. Rui Rosas da Silva