18 de outubro de 2006

O Terço e as distracções

Muitas vezes, quando rezamos o Terço, temos pena porque há demasiadas distracções. Gostaríamos de honrar melhor Nossa Senhora e de lhe pedir por muitas intenções, mas as distracções debilitam esse desejo. Em Outubro, que é o mês do Rosário, poderíamos colocar uma luta especial em combater as distracções.

Um modo possível é pedir ajuda ao nosso Anjo da Guarda. O mês de Outubro começa com a Festa dos Anjos da Guarda (dia 2) e, por isso, recorda-nos a presença desse enviados de Deus. Existe um Anjo para cada pessoa e cada Anjo tem enorme poder. Os Anjos podem entrar na esfera dos nossos sentidos, mesmo dos sentidos internos – a memória e a imaginação – e por isso podem ajudar a combater as distracções. Basta que lhes peçamos que nos lembrem de uma intenção ou de uma ideia que queremos apresentar a Nossa Senhora no início de cada Terço.

Outro modo consiste em fixar-se numa das palavras da Ave-maria. A Ave-maria tem sete palavras, para resumir.

  • uma saudação a Nossa Senhora: Ave-maria
  • uma consideração da sua santidade e pureza: cheia de graça
  • uma consideração da sua união com Deus: o Senhor é convosco
  • uma consideração da sua feminilidade e maternidade: bendita sois vós entre as mulheres
  • duas considerações da sua maternidade divina: bendito o fruto do vosso ventre, Jesus; e Santa Maria, Mãe de Deus;
  • um acto de contrição: rogai por nós, pecadores;
  • um pedido duplo: agora e na hora da nossa morte.

Outro modo ainda: considerar o mistério e associar a palavra em que nos vamos fixar à consideração desse mistério; ou unir a cada mistério, ou mesmo a cada Ave-maria, uma intenção. O nosso interesse por pedir por essa intenção ajuda a combater as distracções.

13 de outubro de 2006

São Lucas, Evangelista

De São Lucas sabemos pouco, fora daquilo que nos deixou: um Evangelho e o Livro dos Actos dos Apóstolos. A Tradição atribui-lhe a profissão de médico e talvez fosse essa a qualidade que São Paulo procurara nele ao escolhê-lo por companheiro da sua viagem a Jerusalém. De facto, o Apóstolo devia sofrer já então de muitas dores porque, embora fosse relativamente novo, o seu corpo não tinha sido poupado a todo o tipo de provas e torturas (cf. 2 Cor 11,23-28; Act 14,19; 16,22; 27,41-43).
Mas Lucas aparece-nos como alguém que não é só cuidadoso com o corpo. Os seus dois livros, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, são uma obra-prima de investigação, de selecção e de ordenamento de material sobre Jesus. Ele não tinha conhecido o Senhor. Era, como tantos cristãos que se converteram por acção dos Apóstolos, um discípulo de terceira ou quarta geração. Tinha-lhe sido dada a graça de acompanhar o grande Paulo e disso dá testemunho eloquente. Mas Jesus nunca O tinha visto, nem sequer numa aparição.
Quando Lucas acompanha Paulo que traz a colecta das comunidades da Ásia, da Acaia e da Macedónia a Jerusalém, e vê o seu mestre ser preso e mudado para a prisão de Cesareia, fica numa situação estranha numa terra que não é a sua. Paulo preso, e ele, em liberdade, mas sem poder fazer nada. Provavelmente aproveitou o tempo. Jerusalém possuía um grande tesouro: a memória da passagem do Senhor por aquela terra, quer em relatos escritos, quer nas próprias pessoas que tinham sido testemunhas dessa passagem. E Lucas lançou-se à tarefa de recolher tudo o que podia desse tesouro (cf. Lc 1,1-4).
A mesma ânsia de conhecer Jesus também nos deve mover quando lemos o Evangelho. São Josemaria dizia: «Não basta ter uma ideia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz. Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa» (Amigos de Deus, n. 107).

1 de outubro de 2006

Normalizado no mês passado o decurso habitual da vida das pessoas, sobretudo quando o começo das aulas trouxe novamente às nossas ruas a cor da juventude, entramos neste mês de Outubro com vontade de fazer mais e melhor.

E estamos muito bem acompanhados, porquanto é um tempo dedicado ao Rosário, com o qual seguimos de perto, ao lado de Nossa Senhora, a vida do seu Filho, desde a infância até à sua gloriosa Ascensão ao céu. Daí chamou, algum tempo depois, tal como a conhecera na terra, em corpo e alma, Maria Santíssima, para olhar a todos os seus discípulos com a benevolência e o amor maternais, deles falar bem e a eles atender nas suas necessidades diárias e ocasionais.

Nestes dias de Outubro, mês do Rosário, certamente que na paróquia se procurará rezar com mais fervor o terço diário, como sempre se tem feito. Mas é uma altura para que as famílias se unam em torno de Maria, solicitando-a através dos diversos mistérios que nessa oração se contemplam. Escrevemos “se contemplam”, na convicção certa de que o terço não é apenas uma oração vocal entre outras, mas uma verdadeira forma de prestar culto a Deus, através de Nossa Senhora, com a nossa mente e todo o nosso ser, numa verdadeira oração contemplativa, como tão bem recordava João Paulo II.

Nas intenções deste mês, que as famílias, em casa, podem nomear, não poderá faltar a pessoa e intenções do actual Santo Padre, Bento XVI, tão mal entendido e tratado recentemente, por algumas palavras que citou e que, retiradas do seu contexto, foram objecto de especulação indevida e facciosa, como, felizmente, o reconheceram tantos e insuspeitos articulistas dos mass media. “Acolhe a palavra do Papa com uma adesão religiosa, humilde, interna e eficaz: serve-lhe de eco” (S. Josemaria, Forja, n. 133).

Um bom católico não pode deixar de amparar em todas as circunstâncias o sucessor de Pedro, sabendo que sobre ele pesa a ingente, mas essencial tarefa de orientar todo o rebanho que Cristo confiou a Simão Pedro, o pescador do lago de Tiberíades, determinando que apascentasse, em Seu Nome, todas as ovelhas que Ele lhe entregava (Jo 21, 16.18). E na sequência dessas petições, não deverá faltar o nosso pastor comum, o Senhor Cardeal Patriarca, que, juntamente com os seus bispos auxiliares, determina os caminhos que a Igreja de Lisboa deve seguir para servir melhor a Cristo, Sua razão de ser. Não esquecendo como intenção muito importante, que é necessário solicitar a Maria Santíssima, enquanto se desfiam as Ave Marias, que suscite na nossa diocese uma vaga abundante de vocações sacerdotais que renove os quadros existentes com sangue jovem e generoso, à semelhança do que o Senhor verteu na Cruz por todos e cada um de nós e foi causa fundamental da nossa Redenção.

Lembremos ainda todas as famílias do mundo e, dum modo especial e por óbvia obrigação, as da nossa paróquia, a fim de que haja caridade, unidade, compreensão, e um clima de oração acolhedor e natural nos seus lares. É a melhor catequese que uma pessoa pode receber ao longo da sua vida.

E já que o Senhor ama igualmente todos os homens, não esquecer aqueles a quem o sofrimento bate à porta, ou por razões económicas, ou por razões sociais, ou ainda porque nesta vida, onde não temos morada permanente, andar com a dor debaixo do braço é uma constante e, com frequência, uma forma de purificação. Se é preciso saber aceitá-la, como Jesus na Sua Paixão, temos obrigação de minorá-la aos que a suportam, tanto quanto está na nossa mão. E se não pode ser doutra maneira, pelo menos através da oração, que é um meio muito eficaz de atrair a graça de Deus para os seus filhos em dificuldades.

O vosso pároco e amigo,

P. Rui Rosas da Silva

A Virgem e o Menino com Seis Anjos (A Virgem da Romã), BOTICELLI, cerca de 1485