1 de julho de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Reaberta a Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu ao culto, após cerca de um ano e meio de encerramento, coincidiu a sua abertura com um período final do ano pastoral e de trabalho.

Existe agora a tentação de se adiar para o próximo ano laboral as decisões que custam, tanto mais que o mês de Julho, para muitos de nós, já é realmente tempo de férias.

Convém, pois, que façamos um, exame de consciência incisivo sobre o valor do trabalho e do descanso na nossa vida

O homem, diz o Génesis (2, 15), foi posto no jardim do paraíso para o cultivar. O trabalho é, pois, um bem, uma função a que o ser humano, por vontade divina, está chamado a efectuar. Não se trata de "uma pena, ou de uma maldição ou castigo; os que assim falam não leram bem as Escrituras" (S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n.47), mas de uma forma fundamental através da qual a pessoa realiza os desígnios divinos de contribui para o bem comum, empregando uma boa parte das suas energias e da sua criatividade para tornar mais humana e mais agradável a vida social e a sua própria existência. A relação do trabalho com a vontade de Deus parece óbvia. Trata-se de uma realidade santificadora e santificável. Santificadora, por tornar santo quem o faz com rectidão de intenção e com competência; santificável, por se tratar de uma tarefa nobre querida por Deus para a própria santificação do homem.

Contudo, nos nossos tempos de uma maneira especial e com alguma insistência, o trabalho humano situa-se numa perspectiva abusiva do seu sentido. Transformou-se numa espécie de ídolo ao qual se presta um culto indevido. A profissão subordina a nossa existência, subalternizando todos os outros valores e obrigações.

Por isso, não é raro que vendamos a alma ao trabalho, ou melhor, à profissão, sacrificando valores e obrigações igualmente primordiais, como os do culto devido a Deus, a atenção à família, a deferência que temos de prestar às pessoas das nossas relações, por dever de justiça e de caridade,.

Quando isto acontece, o homem perde dignidade e torna-se numa formiga laboriosa ou numa máquina de prestar serviços à entidade que lhe paga. Mal tem tempo para a família, Deus é acantonado para os momentos de ócio e à gente amiga reserva alguns possíveis instantes de pausa, sempre que possível.

Nesta perspectiva, quando a sua produtividade começa a decair, a própria empregadora se encarrega de o convidar a desistir da brega, ofertando-lhe uma reforma antecipada, na melhor das hipóteses. Já não serve para os seus fins. É mercadoria gasta e deteriorada, que convém mandar para a prateleira das coisas que não são rentáveis.

Mês de Julho. Vamos entrar em férias, tempo de descanso, que Deus quer para o homem. Não será bom pensarmos em todas estas realidades? Em que medida não estaremos já a vender a nossa alma ao trabalho? Damos a Deus o culto devido? Como me ocupo das minhas obrigações familiares? Tenho tempo para me dedicar aos meus amigos e de corresponder a todas manifestações que os laços de amizade exigem?

Que bom exame de consciência nos pode proporcionar o tempo de férias. Descansemos com Deus: tiraremos decerto muitas conclusões. E façamo-nos acompanhar sempre pela presença amável de Nossa Senhora, pois é nossa Mãe e ajudar-nos-á a encontrar as respostas mais adequadas para as nossas interrogações.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

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