1 de março de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Chegou o tempo da Quaresma. Tempo de reflexão, de exame profundo de consciência. Deus quer que nós nos convertamos e convida-nos a pensar a sério no que somos e no que devíamos ser. Sempre encontramos um fosso profundo entre estes dois aspectos concretos da nossa vida.

Deus não se assusta com esta realidade. Só o nosso orgulho poderá receá-la. A conversão é reconhecer diante do Senhor que somos muito pouca coisa. Devíamos, efectivamente, ser muito melhores. E para o conseguir contamos com as nossas capacidades e, fundamentalmente, com a graça de Deus.

Através dela recebemos toda a ajuda possível de que necessitamos, da parte divina, para nos santificarmos. Esquecemo-nos disto. Eis a razão que nos leva a sentir-nos sozinhos na luta. E nasce o desânimo, a preguiça e a tibieza, que nos faz concluir que, no meu caso, não há nada a fazer. Sou como sou e a luta não resulta.

A Quaresma proporciona-nos dois modelos opostos, onde vemos a graça frutificar e o ímpeto pessoal, que só conta com ele mesmo, sair derrotado. No primeiro caso, está Jesus, que Se deixa crucificar, porque Se abandona à vontade do Pai. No segundo, Pedro, que se compromete emotivamente a ir com Cristo até à morte e depois claudica cobardemente perante uma criadita de Caifás, sumo-sacerdote dos judeus.

Nosso Senhor vai até ao fim do sacrifício, porque quer salvar-nos e porque confia na ajuda de Deus. Como reza na cruz, como consegue não pensar em Si um só momento! Essas horas de dor compatibiliza-as com a doação completa de Si mesmo, sem regatear o mínimo sofrimento. É isso que o Pai Lhe pede e é por essa entrega total da Sua Pessoa que Ele Se entrega sem um protesto, sem um queixume e rezando constantemente.

Pedro, pelo contrário, valorosamente vai até à casa de Caifás, seguindo o Senhor. Mas aí perde a confiança n’Ele e nega-O por três vezes. Esquece-se da sua promessa, como nós nos esquecemos dos nossos bons propósitos. Provavelmente, não os fazemos na presença de Deus. São apenas fruto de um momento de vontade inflamado pela emotividade. Chega a hora da verdade e passam-nos ao lado todos os compromissos que assumimos. É a velha história da nossa vida, constantemente repetida como uma fotocópia pouco atraente.

Temos dois caminhos à nossa frente: confiar em Deus, dizer um acto de contrição bem sentido, reconhecendo a nossa condição de pecadores. Com o perdão, volta a graça de Deus a purificar a nossa alma. E restitui-lhe a força necessária para recomeçar com mais denodo e mais experiência. Em alguns casos, o recurso ao sacramento da Penitência pode ainda dar-nos mais paz e mais garantia da ajuda divina. O outro é o do pecador que se insurge contra esta sua condição e não a aceita. Arranja mil desculpas e fabrica para si mesmo o estatuto de alguém que não é responsável pelo que fez ou não fez e devia ter feito. .

Neste tempo de conversão quaresmal, abeiremo-nos com toda a confiança do perdão que o Pai nos concede no Sacramento da Penitência. Pode custar um pouco, mas a sua eficácia e a paz que dele se colhe são muito superiores a qualquer tentativa oca de nos defendermos inutilmente. Não queiramos buscar razões sem razão que a nossa imaginação fantasista é capaz de fabricar, sempre que se alia ao orgulho e a toda a reata de vícios que arrastamos.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva