18 de dezembro de 2006

Advento

O Advento é um tempo de esperança e a esperança é uma virtude que Deus infunde na nossa alma, se assim o quisermos.
Esperamos o nascimento do nosso Salvador, esperamos a nossa Salvação que começa quando Ele nascer, esperamos a nossa felicidade que é Jesus.
É um tempo de alegria. De uma alegria por algo que ainda não possuímos mas que vamos possuir. Está-nos prometida e a gravidez da Virgem Maria é o sinal mais delicioso de que essa promessa não é um sonho. Por isso o Advento é um tempo mariano.
Desde o início do Advento, desde o primeiro Domingo, é muito bom montar o Presépio. Nessas imagens tão ingénuas, mais do que nas prendas ou no bolo-rei, ou na consoada, ou nos enfeites de brilhantes e bolas luzidias, está a esperança e a alegria do Natal.
Há quem não ponha a imagem do Menino Jesus até à própria noite de Natal, há quem faça deslocar-se os Reis Magos ao longo de um percurso do Presépio numa aproximação lenta, há quem coloque a prendas debaixo, há quem monte cidades, acenda luzes, mova azenhas, espalhe ovelhas, distribua musgo… Tudo isso é bom. Mas o essencial é mesmo o Presépio. Feliz Natal!

13 de dezembro de 2006

São João Apóstolo e Evangelista

Deste Apóstolo possuímos mais informação do que sobre qualquer um dos outros: em primeiro lugar porque Jesus o escolheu para ser um dos três que mais de perto O seguiram, em segundo lugar porque escreveu um Evangelho que tem o seu nome, e em terceiro lugar, porque foi o que mais tempo permaneceu sobre a terra (até perto do ano 100).
Era muito aguerrido. Segundo a tradição teria sido o mais novo dos Doze, mas não é só a juventude de João o que o torna tão fogoso: é o carácter. João é um homem de tudo ou nada. Cristo cativou-o de uma forma tão absoluta que sentiu e escreveu que se sentia aquele dos discípulos por quem Jesus tinha mais afecto (cf. Jo 13,23; 19,26; 21,7.20).
João seguiu Jesus e meteu-se na vida de Jesus onde os outros não souberam ou não quiseram introduzir-se, e por isso nos narra tantos episódios desconhecidos dos Sinópticos (cf. Jo 2,1ss; 3,1ss; 4,1ss; etc.). Mas a sua presença e o seu testemunho é particularmente importante em três momentos da vida do Mestre.
O primeiro é a última ceia: João inclina a sua cabeça sobre o peito do Senhor e conhece o batimento do seu Coração. João vive aquela ceia de um modo especialmente intenso depois de sentir como Jesus estava e como os amava.
O segundo é a Cruz: João é o único dos Apóstolos que está junto de Jesus no momento da agonia final e recebe d’Ele o maior presente que o Senhor podia ter feito a alguém, a sua Mãe.
O terceiro é a pesca milagrosa: quando alguns dos Apóstolos se unem a Pedro para pescar no Mar da Galileia, enquanto esperam sinais do seu Senhor já ressuscitado, João é o único que O reconhece da barca. Descobre que é Jesus aquele homem que lhes falava da margem.
O Apóstolo João é único pelo amor jovem que não sabe de cálculos. E nós, que queremos também apaixonar-nos por Cristo, podemos tomá-lo como especial intercessor.

1 de dezembro de 2006

Mais uma vez, o tempo que avança e faz pensar na vida, nos aproxima a passos largos do acontecimento mais original e bonito da história humana: o Natal.

Para o prepararmos melhor, a Igreja sugere-nos o tempo do Advento, que é de expectativa e de aproximação do grande facto ocorrido há mais de 2000 anos, na pequena cidade do Rei David, Belém, onde se dá o nascimento de Jesus num presépio anónimo e impróprio para um ser humano vir ao mundo.

O que nos ensina o Natal?

Em primeiro lugar, o grande amor que Deus tem por nós e o Seu sentido de responsabilidade. Ele criou-nos para o Céu. O homem, ao pecar, tornou-se inapto para a recepção de tal dom. Jesus, ao vir à Terra, inicia o processo de reconquista dessa possibilidade para todos e cada um de nós. Deus não perdeu a esperança, ao ver o homem embrenhar-se pelo caminho do pecado, de o retirar de situação tão triste. Foi para isso que pediu ao Filho que encarnasse e nos redimisse.

Em segundo lugar, Deus manifesta uma grande confiança no homem para realizar obras boas e meritórias. Jesus, no presépio de Belém, é uma criança recém-nascida. E, como tal, totalmente inerme, pendente para sobreviver da dedicação e dos cuidados dos seus pais. Exactamente igual a todos os seres humanos que nascem. E como eles também, aprende a ser homem com a educação exemplar que recebe de Maria e de José, na simplicidade de um lar humilde e discreto. E assim Se torna Jesus no Cristo que prega, e enche a terra com a semente do verdadeiro Amor e da compreensão. Não é surpreendente que o Criador de todo o universo aposte tanto nas capacidades com que dotou o ser humano para realizar o bem, e não tenha pejo de aprender a ser homem com o próprio homem? Que profunda lição de humildade e de confiança nos dá o Senhor!

Por fim, ao nascer como nasceu, na mais completa pobreza – um presépio, recorde-se, é um curral de gado –, Jesus manifesta-nos que as realidades deste mundo só são boas se nos ensinam o caminho até ao Céu. Agarrar-nos a elas de forma inadequada, faz-nos esquecer que tais realidades acabam com a nossa vida terrena e que não as podemos levar para a eternidade. Se o lugar do seu nascimento em Belém é um convite ao desprendimento, o Filho do Homem, que não tem onde reclinar a cabeça, acrescenta com a Sua morte na Cruz a lição que inicia no presépio: aqui, não temos morada para sempre, esta vida é transitória, o nosso lugar definitivo é, por desígnio divino, a eternidade, onde Cristo nos espera nas muitas moradas que nos preparou.

Meditemos, no calor das nossas casas, as lições do Natal. E também aproveitemos a vida familiar do Menino Jesus, junto de Maria e de José, para encher o lar de confiança no Deus que tantas provas nos deu do Seu Amor, ao querer ser um de nós para nos salvar: “Natal (...) depois de contemplar como Maria e José cuidam do Menino, atrevo-me a sugerir-te: - Olha-O de novo, olha-O sem descanso”. (S. Josemaria Escrivá: Forja, n. 549).

Com votos de Bom Natal e Boas Festas, despede-se o vosso pároco e amigo,

P. Rui Rosas da Silva

18 de novembro de 2006

Como falar das Verdades Eternas

Novembro é um mês em que a Igreja nos convida a meditar nas Verdades Eternas. A todos nós a morte pode chegar a assustar: vemos as folhas caírem mortas no chão, junto à árvore que as gerou e pensamos que um dia será a nossa vez (cf. São Josemaria, Caminho 736). Este pensamento pode chegar a nublar a nossa alma e até o nosso corpo, com alguma tristeza.

Mas apesar de a morte nos entristecer sabemos que a vida não acaba, apenas se transforma para podermos adquirir no céu uma morada eterna (Missal Romano, Prefácio de Defuntos I). A morte abre-nos a porta do Céu. Sim, o Céu é para nós. É a Casa do nosso Pai, a Casa comum de todos os cristãos e nós estamos feitos para viver no Céu.

«Oh, mas o Céu parece tão distante!» pode alguém exclamar. Se em Outubro a Igreja nos fez considerar a presença dos Anjos da Guarda (cuja Memória se celebra no dia 2 desse mês) não foi para nos complicar a alma com mais uma devoção («Se eu já tenho Deus, Nosso Senhor, e a Mãe do Céu para que preciso dos Anjos?»).

É que o Céu é uma Casa cheia de gente. Vamos viver eternamente em comunhão com milhões de pessoas, os Santos e os Anjos, com Nossa Senhora e as três Pessoas da Santíssima Trindade. É bom que nos habituemos a essa companhia e assim o Céu não estará tão longe.

Mas os Anjos servem também para nos guardar de cair nas tentações. Eles podem ajudar muito quando queremos que outra pessoa – que também tem o seu Anjo da Guarda – se afaste de um perigo para a sua alma. Assim a meditação das Verdades Eternas – morte, juízo, inferno e paraíso – ajudam-nos na vida terrena.

13 de novembro de 2006

Santo André, Apóstolo

André parece ser um nome grego, o que não é estranho: ele era de Betsaida, uma cidade que já se situa no limite Norte da Galileia, nos confins da Siro-Fenícia, região totalmente helenizada. Era irmão de Simão Pedro, possivelmente irmão mais novo, uma vez que vivia com ele em Cafarnaum, e com a sogra deste.
André conheceu Jesus fora da sua terra. Estava na Judeia, junto a João Baptista, perto do rio Jordão, quando Jesus passou e ouviu dizer: «Eis o Cordeiro de Deus» (Jo 1,36). Já no dia anterior Jesus tinha passado por eles e o Baptista falara abertamente d’Ele. Agora, porém, nada o detinha e foi atrás de Jesus com outro e ficou com ele aquela tarde (cf. Jo 1,37ss).
O primeiro encontro com Jesus marcou tanto a sua alma que André não esperou para ir falar com o seu irmão, que também se devia encontrar pela zona, no seguimento do Baptista: «Encontrámos o Messias» (Jo 1,41), disse-lhe, e levou a falar com Jesus.
André era pescador no mar da Galileia e voltou à sua faina, mas os dias nunca mais foram como antes. Aquela tarde com o Messias martelava a sua cabeça constantemente. Com toda a probabilidade, sempre que Jesus Se apresentava pelas redondezas André ia ouvi-l'O. Até que um belo dia, quando deitava as redes ao mar, Jesus passou na praia e chamou-o. André deixou tudo e seguiu o Senhor. Seguiu-O até à morte, até ao martírio, fundando a Igreja com os outros Apóstolos.
A história de Santo André fala-nos do encanto de Jesus. A vida cristã é vida de seguimento de Cristo, e, embora isso envolva sacrifício, é sobretudo uma vida deslumbrante, uma aventura maravilhosa e divina. Nada é tão bom como seguir o Senhor de perto.

1 de novembro de 2006

O mês de Novembro é, tradicionalmente, o tempo que a Igreja, nossa Mãe, dedica, de um modo especial, ao sufrágio pelas almas de todos os fiéis defuntos. No primeiro dia, porém, exulta com os seus filhos que já conquistaram a plenitude do Reino dos Céus e vivem, para sempre, na participação plena da felicidade da Santíssima Trindade, ou seja, que já chegaram ao Céu.

Em família, cada um de nós pode promover o que a Igreja nos propõe, lembrando todos os parentes, familiares e amigos que devem ser sufragados. Na nossa oração por essas intenções, quantas recordações amáveis da sua convivência aqui na terra a memória não nos suscitará. Mas tal invocação leva-nos também a pensar que a sua ausência no outro mundo é uma realidade a que nós, mais tarde ou mais cedo, não nos podemos furtar, pois, não fomos criados para permanecermos sempre na terra. Quantos ensinamentos práticos e de orientação para a nossa vida contém esta verdade!

A partir deste mês, também somos convidados a reflectir e a rezar generosamente por uma temática fracturante, que tem também profunda relação com a vida eterna, já que, no nosso país, vamos ser chamados a participar, com o nosso voto, num segundo referendo sobre o aborto.

O Senhor Patriarca disse corajosamente que a doutrina da Igreja, nesta matéria, não mudou nem vai mudar. E acrescentou com todo o acerto que não é um problema de moral religiosa católica a questão do aborto. Ela insere-se no direito natural à vida que tem o ser humano, pelo que abrange todo o homem, independentemente do seu credo religioso. Tal direito deve ser defendido em qualquer dos estados evolutivos da existência humana, requerendo uma maior atenção e um maior cuidado a protecção daqueles que se encontram em situações de precária defesa ou subsistência.

Um embrião da nossa espécie, por mais próximo que esteja da sua concepção, é um ser humano, com todas as possibilidades de desenvolvimento que o tornarão, com a evolução própria que a natureza determina, um recém-nascido, uma criança encantadora, um adolescente com a sua problemática complexa, uma pessoa adulta responsável e produtiva.

Determinar, legalmente, que a mãe pode decidir sobre a vida ou a morte de um filho que cresce nas suas entranhas, é o mesmo que lhe conceder o direito a decretar a pena de morte a um ser humano indefeso. O aborto provocado e voluntário “é sempre uma violência injusta contra um ser humano, que nenhuma razão justifica eticamente”, diz uma esclarecedora nota da Conferência Episcopal Portuguesa. E não é a determinação legal que o liberaliza ou despenaliza, como parecem defender os mentores do SIM do Referendo, que torna o acto abortivo voluntário bom, sob o ponto de vista moral. Continua a ser absolutamente reprovável, observa-se no mesmo documento dos nossos bispos, pois lesa um direito fundamental, que a moral natural evidencia: o direito à vida de todo e qualquer ser humano.

Por estas e por outras razões, a nota episcopal acrescenta que “não podemos, pois, deixar de dizer ais fiéis católicos que devem votar “não” e ajudar a esclarecer outras pessoas sobre a dignidade a vida humana, desde o seu primeiro momento”.

O vosso pároco e amigo,

P. Rui Rosas da Silva

18 de outubro de 2006

O Terço e as distracções

Muitas vezes, quando rezamos o Terço, temos pena porque há demasiadas distracções. Gostaríamos de honrar melhor Nossa Senhora e de lhe pedir por muitas intenções, mas as distracções debilitam esse desejo. Em Outubro, que é o mês do Rosário, poderíamos colocar uma luta especial em combater as distracções.

Um modo possível é pedir ajuda ao nosso Anjo da Guarda. O mês de Outubro começa com a Festa dos Anjos da Guarda (dia 2) e, por isso, recorda-nos a presença desse enviados de Deus. Existe um Anjo para cada pessoa e cada Anjo tem enorme poder. Os Anjos podem entrar na esfera dos nossos sentidos, mesmo dos sentidos internos – a memória e a imaginação – e por isso podem ajudar a combater as distracções. Basta que lhes peçamos que nos lembrem de uma intenção ou de uma ideia que queremos apresentar a Nossa Senhora no início de cada Terço.

Outro modo consiste em fixar-se numa das palavras da Ave-maria. A Ave-maria tem sete palavras, para resumir.

  • uma saudação a Nossa Senhora: Ave-maria
  • uma consideração da sua santidade e pureza: cheia de graça
  • uma consideração da sua união com Deus: o Senhor é convosco
  • uma consideração da sua feminilidade e maternidade: bendita sois vós entre as mulheres
  • duas considerações da sua maternidade divina: bendito o fruto do vosso ventre, Jesus; e Santa Maria, Mãe de Deus;
  • um acto de contrição: rogai por nós, pecadores;
  • um pedido duplo: agora e na hora da nossa morte.

Outro modo ainda: considerar o mistério e associar a palavra em que nos vamos fixar à consideração desse mistério; ou unir a cada mistério, ou mesmo a cada Ave-maria, uma intenção. O nosso interesse por pedir por essa intenção ajuda a combater as distracções.

13 de outubro de 2006

São Lucas, Evangelista

De São Lucas sabemos pouco, fora daquilo que nos deixou: um Evangelho e o Livro dos Actos dos Apóstolos. A Tradição atribui-lhe a profissão de médico e talvez fosse essa a qualidade que São Paulo procurara nele ao escolhê-lo por companheiro da sua viagem a Jerusalém. De facto, o Apóstolo devia sofrer já então de muitas dores porque, embora fosse relativamente novo, o seu corpo não tinha sido poupado a todo o tipo de provas e torturas (cf. 2 Cor 11,23-28; Act 14,19; 16,22; 27,41-43).
Mas Lucas aparece-nos como alguém que não é só cuidadoso com o corpo. Os seus dois livros, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, são uma obra-prima de investigação, de selecção e de ordenamento de material sobre Jesus. Ele não tinha conhecido o Senhor. Era, como tantos cristãos que se converteram por acção dos Apóstolos, um discípulo de terceira ou quarta geração. Tinha-lhe sido dada a graça de acompanhar o grande Paulo e disso dá testemunho eloquente. Mas Jesus nunca O tinha visto, nem sequer numa aparição.
Quando Lucas acompanha Paulo que traz a colecta das comunidades da Ásia, da Acaia e da Macedónia a Jerusalém, e vê o seu mestre ser preso e mudado para a prisão de Cesareia, fica numa situação estranha numa terra que não é a sua. Paulo preso, e ele, em liberdade, mas sem poder fazer nada. Provavelmente aproveitou o tempo. Jerusalém possuía um grande tesouro: a memória da passagem do Senhor por aquela terra, quer em relatos escritos, quer nas próprias pessoas que tinham sido testemunhas dessa passagem. E Lucas lançou-se à tarefa de recolher tudo o que podia desse tesouro (cf. Lc 1,1-4).
A mesma ânsia de conhecer Jesus também nos deve mover quando lemos o Evangelho. São Josemaria dizia: «Não basta ter uma ideia geral do espírito que Jesus viveu; é preciso aprender com Ele pormenores e atitudes. É preciso contemplar a sua vida, sobretudo para daí tirar força, luz, serenidade, paz. Quando se ama alguém, deseja-se conhecer toda a sua vida, o seu carácter, para nos identificarmos com essa pessoa» (Amigos de Deus, n. 107).

1 de outubro de 2006

Normalizado no mês passado o decurso habitual da vida das pessoas, sobretudo quando o começo das aulas trouxe novamente às nossas ruas a cor da juventude, entramos neste mês de Outubro com vontade de fazer mais e melhor.

E estamos muito bem acompanhados, porquanto é um tempo dedicado ao Rosário, com o qual seguimos de perto, ao lado de Nossa Senhora, a vida do seu Filho, desde a infância até à sua gloriosa Ascensão ao céu. Daí chamou, algum tempo depois, tal como a conhecera na terra, em corpo e alma, Maria Santíssima, para olhar a todos os seus discípulos com a benevolência e o amor maternais, deles falar bem e a eles atender nas suas necessidades diárias e ocasionais.

Nestes dias de Outubro, mês do Rosário, certamente que na paróquia se procurará rezar com mais fervor o terço diário, como sempre se tem feito. Mas é uma altura para que as famílias se unam em torno de Maria, solicitando-a através dos diversos mistérios que nessa oração se contemplam. Escrevemos “se contemplam”, na convicção certa de que o terço não é apenas uma oração vocal entre outras, mas uma verdadeira forma de prestar culto a Deus, através de Nossa Senhora, com a nossa mente e todo o nosso ser, numa verdadeira oração contemplativa, como tão bem recordava João Paulo II.

Nas intenções deste mês, que as famílias, em casa, podem nomear, não poderá faltar a pessoa e intenções do actual Santo Padre, Bento XVI, tão mal entendido e tratado recentemente, por algumas palavras que citou e que, retiradas do seu contexto, foram objecto de especulação indevida e facciosa, como, felizmente, o reconheceram tantos e insuspeitos articulistas dos mass media. “Acolhe a palavra do Papa com uma adesão religiosa, humilde, interna e eficaz: serve-lhe de eco” (S. Josemaria, Forja, n. 133).

Um bom católico não pode deixar de amparar em todas as circunstâncias o sucessor de Pedro, sabendo que sobre ele pesa a ingente, mas essencial tarefa de orientar todo o rebanho que Cristo confiou a Simão Pedro, o pescador do lago de Tiberíades, determinando que apascentasse, em Seu Nome, todas as ovelhas que Ele lhe entregava (Jo 21, 16.18). E na sequência dessas petições, não deverá faltar o nosso pastor comum, o Senhor Cardeal Patriarca, que, juntamente com os seus bispos auxiliares, determina os caminhos que a Igreja de Lisboa deve seguir para servir melhor a Cristo, Sua razão de ser. Não esquecendo como intenção muito importante, que é necessário solicitar a Maria Santíssima, enquanto se desfiam as Ave Marias, que suscite na nossa diocese uma vaga abundante de vocações sacerdotais que renove os quadros existentes com sangue jovem e generoso, à semelhança do que o Senhor verteu na Cruz por todos e cada um de nós e foi causa fundamental da nossa Redenção.

Lembremos ainda todas as famílias do mundo e, dum modo especial e por óbvia obrigação, as da nossa paróquia, a fim de que haja caridade, unidade, compreensão, e um clima de oração acolhedor e natural nos seus lares. É a melhor catequese que uma pessoa pode receber ao longo da sua vida.

E já que o Senhor ama igualmente todos os homens, não esquecer aqueles a quem o sofrimento bate à porta, ou por razões económicas, ou por razões sociais, ou ainda porque nesta vida, onde não temos morada permanente, andar com a dor debaixo do braço é uma constante e, com frequência, uma forma de purificação. Se é preciso saber aceitá-la, como Jesus na Sua Paixão, temos obrigação de minorá-la aos que a suportam, tanto quanto está na nossa mão. E se não pode ser doutra maneira, pelo menos através da oração, que é um meio muito eficaz de atrair a graça de Deus para os seus filhos em dificuldades.

O vosso pároco e amigo,

P. Rui Rosas da Silva

A Virgem e o Menino com Seis Anjos (A Virgem da Romã), BOTICELLI, cerca de 1485

18 de setembro de 2006

Primeiros sábados: Uma manifestação do amor maternal de Nossa Senhora em Fátima

É próprio de todas as mães desejarem para seus filhos um futuro próspero. No Evangelho de S. Mateus, podemos ver como a mãe de Tiago e João pede a Jesus que situe bem os seus filhos no Seu futuro Reino (Mt 20, 20-22). O seu amor assim a faz proceder.

Ao assumir a nossa maternidade no Calvário, Maria Santíssima passou imediatamente a amar-nos como Mãe. E que Mãe!, acrescentamos nós. Tal como a dos dois apóstolos referidos, Nossa Senhora deseja ardentemente o nosso melhor bem, que é a salvação eterna, pelo que, com muita frequência, o Seu Filho a mandou ter com os Seus irmãos à Terra, a fim de lhes lembrar obrigações com que devem corresponder ao Amor perfeito de Deus para com eles.

Foi isso o que Maria veio fazer a Fátima. Lançou-nos um convite sério, embora dito em termos maternais, a que nos convertamos deveras. No dia 13 de Julho de 1917, explica aos pastorinhos que se os homens, “(…) fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas…” E observa: “(…) virei pedir … a Comunhão reparadora dos Primeiros Sábados de cada mês”.

Esta mensagem amplia-se a 10 de Dezembro de 1925, em Pontevedra, quando Nossa Senhora confidencia à única vidente viva da Cova da Iria, Lúcia, mostrando-lhe o seu coração cheio de espinhos: “Olha, minha filha, o meu Coração cercado de espinhos, que os homens ingratos a todo o momento me cravam, com blasfémias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de me consolar e diz que a todos aqueles que, durante cinco meses seguidos, no primeiro sábado, se confessarem (*), recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem o Terço e me fizerem 15 minutos de companhia, meditando nos 15 Mistérios do Rosário com o fim de me desagravar, eu prometo assistir-lhes à hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação”.

Como não aproveitar esta carícia maternal de Maria? Procuremos seriamente corresponder ao que ela nos pede. Não é difícil. Deus é o Senhor do perdão e não da condenação. E a Virgem Santíssima transmite-nos este Seu empenho, convidando-nos e incumbindo-nos de uma tarefa simples e realizável, certamente com a esperança de que, após o seu cumprimento, se Deus quiser que continuemos nesta vida, sejamos melhores cristãos. Ou, se a nossa hora de partir tiver chegado, que Jesus, seu Filho e nosso juiz misericordioso, nos encontre nas melhores condições para Lhe prestar contas.

………………………

(*) Para o seu cumprimento, a Confissão pode ser feita no espaço de um mês em relação à data do 1º Sábado.

13 de setembro de 2006

São Mateus, Apóstolo e Evangelista

Sobre São Mateus sabemos três coisas: era um dos Doze Apóstolos, foi um dos Quatro Evangelistas e tinha sido um publicano.
O Evangelho de São Mateus foi o preferido nos primeiros séculos da Igreja e mesmo depois. É um Evangelho muito sóbrio, bem estruturado e sobretudo ligado a uma testemunha ocular daquilo que narra.
São Mateus descreve-nos a sua vocação: Jesus passava pelo posto de cobrança dos impostos e viu um cobrador chamado Mateus; chamou-o e Mateus levantou-se imediatamente e seguiu Jesus (cf. Mt 9,9). Mateus ficou tão contente que ofereceu uma festa em sua casa e convidou muitos dos seus companheiros de trabalho e amigos, publicanos como ele, e pessoas afastadas de Deus (cf. Mt 9,10).
Um publicano era um cobrador de impostos. Em teoria seria uma profissão como qualquer outra. Mas nos tempos de Jesus estes cobradores não eram justos e serviam-se frequentemente da força e de todos os meios ao seu alcance para obter o dinheiro dos impostos. Eram temidos e eram implacáveis. Por isso eram vistos como pecadores, mesmo pelo próprio Jesus (cf. Mt 5,46; 18,17).
Este episódio é também relatado pelos Evangelhos de São Marcos e de São Lucas, mas dão ao publicano o nome de Levi (cf. Mc 2,13; Lc 5,27). Fazem-no para não difamar um dos Doze. São Mateus, pelo contrário, reforça a ideia de ter sido um publicano: na lista dos Apóstolos menciona-se a si próprio com as palavras «e Mateus, o publicano» (Mt 10,3).
São Mateus não pretendia gabar-se de ter sido um publicano. Amava a verdade, isso sim. Mas, além disso, estava maravilhado com o milagre que Jesus tinha realizado nele. Mateus tinha sido chamado do pecado para a vida. Atrás da sobriedade do seu Escrito vemos muitas vezes que se esconde uma lágrima. Mal a podia segurar ao escrever o Evangelho.
Como ecoariam as palavras do Mestre no seu coração: «Eu não vim chamar os justos mas os pecadores» (Mt 9,13).

1 de setembro de 2006

Setembro cada vez se conta mais, no nosso país, como o tempo do recomeço da vida habitual de todos os cidadãos. Também na vida eclesial se pode dizer que ele se tornou o mês onde se reiniciam as actividades pastorais. Assim na nossa paróquia. Pela primeira vez, graças a Deus, com a Igreja renovada, o que é um motivo de profundo agradecimento ao Pai de toda a misericórdia, que assim nos permite viver uma existência mais normalizada em relação ao culto litúrgico.

Certamente que as actuais instalações são escassas e carentes para a vida de uma paróquia com a dimensão de Telheiras, pelo que, passada esta primeira etapa de obras, é necessário, com a prudência e a celeridade necessárias, começar a pensar na nova igreja. Vai exigir de todos nós, quando nos abalançarmos a tal cometimento, um fôlego e uma capacidade muito mais exigentes e pertinazes.

Vamos recomeçar o ano pastoral considerando a graça de Deus como motor principal das nossas actividades e das nossas intenções. Na sua ausência, tudo o que se fizesse seria inútil, porque sem o seu concurso faríamos obra humana e não divina. As comunidades paroquiais existem para esta última finalidade e não outra.

Por isso, o optimismo deve ser o nosso fundamento. É a força do Deus omnipotente que quer que nós ajamos, sob o Seu signo. Deus não perde batalhas. Ele é o Senhor de todas as coisas, incluindo da história humana, ainda que possa parecer que, por vezes, em face da actuação menos nobre de nós mesmos e dos nossos semelhantes, Ele prime pela ausência ou pela ineficácia. Criou-nos livres para que usemos bem a nossa liberdade, embora nós possamos voltar-Lhe as costas e usá-la de modo inadequado. No entanto, a mão de Deus não se esgota com as nossas fraquezas ou com as nossas más acções, porquanto Ele sabe retirar dos grandes males de que somos capazes de praticar bens muito superiores.

É o que nos ensina a Paixão e Morte de Jesus. Contemplando-a sem visão sobrenatural, a estadia de Cristo no Calvário afigura-se-nos um fracasso rotundo. É posto entre dois malfeitores como um condenado execrável, que não merece viver. Pregou o Amor incondicional entre os homens e nada mais conseguiu do que uma morte indecorosa no cadafalso mais reprovável do tempo e da sociedade em que viveu. Tal condenação por parte das autoridades religiosas judaicas e pela autoridade romana de Pôncio Pilatos, são a prova aparente do Seu falhanço.

A Cruz, porém, foi a chave da nossa Redenção. Ela reconquistou o que os nossos primeiros pais tinham perdido: a graça e a condição de filhos de Deus. E com ambas estas prerrogativas, a possibilidade de podermos voltar a pensar na felicidade do Céu.

Começa um novo ano pastoral. Tantas coisas boas que temos de agradecer ao Senhor na nossa paróquia. Confiemos na Sua ajuda e na Sua graça, já que “a tarefa que Seu Pai Lhe encomendou, está a realizar-se” (S. Josemaria, Cristo que Passa, n. 113). Recorramos ao auxílio maternal de Maria Santíssima, que, da Porta do Céu, nos vê e nos acarinha em todas as situações que nos esperam. Há só razões para estarmos confiantes e optimistas. Mesmo as nossas faltas, fraquezas e infidelidades – e as de quem nos cerca -, se tanto nos chocam e desanimam, encontram em Cristo o Coração manso e humilde, que perdoa até setenta vezes sete. Não Se assusta com elas, como o pai do filho pródigo em relação ao comportamento do filho rebelde, quando o vê arrependido e disposto a recomeçar o dia a dia junto da família onde nascera, se educara e rejeitara. A sua condição de pai esqueceu todas as afrontas e todos os ultrajes, porque onde impera o amor verdadeiro, o resto torna-se acessório. E é exactamente assim que Deus nos trata e nos ama.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

18 de agosto de 2006

Espírito de Serviço

As férias são uma das melhores ocasiões para se saborear a felicidade de pertencer a uma família. O tempo passado a passear, a jogar, a conviver com outras pessoas, faz-nos pressentir como será o Céu, onde poderemos gozar eternamente da própria Família de Deus sem nada que se oponha.

No entanto, esse clima não tem porque aparecer sozinho. Pode requerer algum esforço. E esse esforço traduz-se no espírito de serviço. O espírito de serviço é especialmente luminoso na mãe: ela não pensa em si mesma e apressa-se em tudo o que lhe parece que pode vir a tornar a vida mais agradável aos outros. As suas filhas aprendem dela rapidamente e sentem uma espécie de contágio do mesmo espírito, de modo que ajudam com prontidão e entusiasmo.

Mas é importante que este espírito seja vivido por todos. Existe uma arte muito cristã, e até poderíamos dizer que muito de Maria, em conseguir que outros sejam capazes de servir: uma sugestão - «serias capaz de lavar o carro?», «poderias ir despejar o caixote do lixo à rua?», «aposto que consegues pendurar este quadro na parede» - com alguma compensação, um «muito obrigado» sincero ou um comentário sobre o bem que ficou.

Quanto mais servimos mais saboreamos as férias. Por isso deve ser preocupação que todos sejam capazes de o fazer, que ninguém se feche no seu egoísmo onde se acabará por aborrecer. O espírito de serviço destrói o tédio.

13 de agosto de 2006

São Bartolomeu, Apóstolo

Sabemos pouca coisa deste Apóstolo. Parece que tinha dois nomes - Bartolomeu (filho de Ptolomeu) e Natanael, nome hebraico que pode significar «dádiva de Deus» - o que era comum na Palestina e mesmo entre os Judeus que viviam dispersos pelo Império. Paulo, por exemplo, que era de Tarso na Cilícia, também se chamava Saúl, porque os Judeus eram como que cidadãos de duas cidades: a civil que falava o grego, ou o latim ou o aramaico, e a religiosa que tinha herdado a Revelação em hebraico.
Bartolomeu aparece nas listas dos Doze que Jesus escolheu, logo a seguir a Filipe (cf. Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,14). E o Evangelho de São João confirma esta amizade entre os dois (cf. Jo 1,45-50). Embora Natanael fosse de Caná e Filipe de Betsaida, talvez pelos afazeres profissionais deste último, chegaram a ser bons amigos pelo que se depreende do diálogo entre eles. Filipe fala-lhe de «Jesus de Nazaré, Filho de José» como «Aquele de quem escreveu Moisés na Lei e os Profetas anunciaram» (Jo 1,45), e o outro reagiu cheio de sinceridade embora de modo um tanto brusco: «De Nazaré pode vir alguma coisa boa?» (Jo 1,46). Filipe devia conhecê-lo bem. Em vez de responder à letra e conduzir a conversa para a discussão, disse-lhe «Vem ver» (ib.). E Natanael foi.
Ao chegar onde estava Jesus, o Senhor fez dele este elogio: «Eis um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento» (Jo 1,47). E Natanael reagiu de novo ao seu modo: «De onde me conheces?» (Jo 1,48). Jesus mostra­lhe que o conhece de há muito e Natanael rende-se (cf. Jo 1,48-49).
Para nós pode ficar-nos o exemplo da simplicidade, da transparência deste homem. E de como essas virtudes agradam a Deus. Peçamos a São Bartolomeu que nos ajude a ser sempre sinceros, sobretudo connosco próprios, com Deus e com os outros.

1 de agosto de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Todo o mês de Agosto, na vida da Igreja, aponta para uma solenidade que a todos nos enche de especial satisfação: A Assunção de Nossa Senhora, que tem como data o dia 15. A ida para o Céu de Nossa Senhora em corpo e alma, de acordo com o ensinamento do Magistério, manifesta, por um lado, o grande amor que o Seu Filho Jesus lhe devotava, ao querê-la junto de Si tal como a conheceu na terra; mais, tal como foi escolhida, para gerar nas suas entranhas, por obra do Espírito Santo, o nosso Redentor. Mas significa também o grau altíssimo de santidade que ela alcançou, na sua vida terrena. Maria, Mãe de Deus, foi isenta de todo o pecado na sua concepção. Mas o grau de santidade aumentou constantemente no dia a dia da sua vida, desde o seu nascimento, nos anos da infância e da sua adolescência, ao casar com José, ao conceber Jesus, ao educá-Lo duma forma ímpar na companhia do seu esposo e, por fim, ao aceitar a nossa maternidade, na Cruz, para nos ajudar a ser mais semelhantes ao próprio Filho, modelo de todas as virtudes, que possuiu e viveu em plenitude.

A santificação da Virgem Santíssima obedeceu, fundamentalmente, àquilo que o Senhor reserva para cada um de nós: no nosso dia a dia, cumprindo as obrigações que cada um tem nos seus deveres de estado, profissionais e no mundo de relação.

Maria foi uma excelente Mãe, uma esposa dedicadíssima, uma dona de casa modesta e exemplar e tratou sempre o seu semelhante com a caridade e o carinho que Deus espera de um bom cristão. Lembremos, por exemplo, a ida até junto da sua parente, Isabel, a fim de a ajudar a encarar uma situação embaraçosa, ao conceber no seu seio o Percursor de Jesus, numa idade em que a mulher já não espera tal graça de Deus. Não poupou nenhum esforço para acudir a quem de si necessitava. Este foi sempre o procedimento de Nossa Senhora. Por isso, quando o Filho, pouco antes de falecer, lhe pede que seja mãe de todos os seus discípulos, ela não recusa e imediatamente começa a exercitar as suas funções maternais. Dum modo discreto e nada chamativo, quanto não deverá a fidelidade dos apóstolos à presença física da Mãe de Jesus nos dias complexos da sua Paixão e Morte, mantendo-os junto de si e evitando a debandada geral, que os acontecimentos tão dramáticos da 5ª e da 6ª Feira Santa produziram nas suas almas. Encontra-­se também com eles no dia do Pentecostes, quando o Espírito Santo surge de forma impetuosa e os leva a vencer o medo de anunciarem Jesus.

Maria é o paradigma do espírito de serviço. Faz sempre o que Deus lhe pede sem reservas. E duma maneira inteligente, quando solicita um esclarecimento para poder realizar melhor o que o Senhor quer. É este o verdadeiro significado da pergunta feita ao anjo que lhe anuncia a vontade que Deus tem de ela vir a ser a Mãe do Messias: "Como será isso, se eu não conheço homem?" (Luc 1, 35). Não sabe os passos exactos que deve dar por si mesma para concretizar o desígnio divino. E porque o quer cumprir da melhor forma, pergunta para se subordinar por inteiro ao que o Senhor lhe sugerir.

Temos a nossa Mãe no Céu, que pede incessantemente por todos e cada um dos seus filhos com verdadeiro amor maternal. Por isso, tantas vezes poderíamos testemunhar que, perante as dificuldades, quando recorremos ao seu auxílio e à sua intercessão, o que parecia um impossível torna-se uma tarefa mais fácil de realizar. Como escreve S. Josemaria: "Antes, só, não podias... - Agora, recorreste à Senhora, e, com Ela, que fácil!" Caminho, n. 513.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

18 de julho de 2006

Promover a Leitura

Aproximam-se as férias grandes. As férias são uma ocasião para descansar e para melhorar a nossa formação e a nossa cultura. Por isso são também uma ocasião para a leitura.

A leitura é uma tarefa mais árdua do que a visão de um filme ou de um programa de televisão, ou que um jogo se cartas ou de computador. É necessário obrigar os olhos a seguir linhas de letras, como estas que eles agora estão a seguir. Os olhos preferem imagens coloridas e que se movam. As letras são negras e quem se move são os olhos na leitura.

No entanto, a leitura tem grandes vantagens. Ao ler, o leitor está sempre em condições de parar e pensar. Ele é mais livre. Ao ler, o leitor não está limitado à imagem, mas tem acesso directamente à palavra, ao significado, à mensagem. Ele é mais verdadeiro. Ao ler, o leitor não usa outros sentidos, como o ouvido. Ele está concentrado e por isso elevado.

Vale a pena promover a leitura. Primeiro a nossa pessoal e depois a dos nossos familiares e amigos. Pode-se promover comprando livros, pedindo livros emprestados numa Biblioteca ou a amigos, perguntando sobre o livro que outro está a ler, comentando aquele que nós estamos a ler. Ler uma passagem escolhida de um livro é uma forma muito eficaz de abrir o apetite.

Entre os livros que podemos ler contam-se aqueles que os Santos escreveram, aqueles cujo conteúdo edifica a alma, aqueles que sabemos tratarem-se de livros que já fizeram bem a outras pessoas. É muito bom aconselhar-se antes de ler.

13 de julho de 2006

Santa Marta

Os poucos dados que os Evangelhos nos fornecem desta mulher permitem conhecer alguns pormenores do seu modo de ser.
São Lucas (cf. Lc 10,38-42) refere que Marta é uma dona de casa. Uma dona de casa piedosa e que crê em Jesus até ao ponto de O acolher em sua casa. Uma dona de casa zelosa que se preocupa por que tudo esteja agradável e acolhedor para quando o Senhor vier. A sua ânsia de servir, no entanto, tropeça com alguma intolerância ou rigidez, ou talvez o desejo excessivo pela perfeição. Marta tem uma irmã chamada Maria e esta está sentada aos pés de Jesus a escutá-l'O. Marta impacienta-se e quer que Jesus diga à sua irmã que a venha ajudar. Jesus tem que a corrigir.
São João (cf. Jo 11,1-44) por seu lado, narra que Marta tinha ainda outro irmão chamado Lázaro e que este adoece e morre. Marta apressou-se em avisar Jesus da doença e pedir-Lhe que viesse. Quando Jesus chegou já Lázaro estava sepultado há quatro dias. Marta vai ao seu encontro e lamenta-Se que o Senhor tenha chagado tarde demais. Mas Jesus diz que tenha fé, que o seu irmão há-de ressuscitar. Quando Jesus está diante da sepultura manda retirar a pedra que tapa a entrada e Marta aflige-se: «Senhor, já cheira mal! Já tem quatro dias!» (Jo 11,39). Jesus acalma-a e ressuscita o irmão.
Em ambos os casos admiramos em Santa Marta a sua energia e o seu espírito incansável de serviço. É uma mulher cheia de generosidade. Mas também nos apercebemos que chegou a ser santa na luta por se acalmar e não perder a cabeça quando os acontecimentos pareciam que a ultrapassavam. Talvez ela possa ser uma boa intercessora quando nos sentimos em situações parecidas.

1 de julho de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Reaberta a Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu ao culto, após cerca de um ano e meio de encerramento, coincidiu a sua abertura com um período final do ano pastoral e de trabalho.

Existe agora a tentação de se adiar para o próximo ano laboral as decisões que custam, tanto mais que o mês de Julho, para muitos de nós, já é realmente tempo de férias.

Convém, pois, que façamos um, exame de consciência incisivo sobre o valor do trabalho e do descanso na nossa vida

O homem, diz o Génesis (2, 15), foi posto no jardim do paraíso para o cultivar. O trabalho é, pois, um bem, uma função a que o ser humano, por vontade divina, está chamado a efectuar. Não se trata de "uma pena, ou de uma maldição ou castigo; os que assim falam não leram bem as Escrituras" (S. Josemaria Escrivá, Cristo que passa, n.47), mas de uma forma fundamental através da qual a pessoa realiza os desígnios divinos de contribui para o bem comum, empregando uma boa parte das suas energias e da sua criatividade para tornar mais humana e mais agradável a vida social e a sua própria existência. A relação do trabalho com a vontade de Deus parece óbvia. Trata-se de uma realidade santificadora e santificável. Santificadora, por tornar santo quem o faz com rectidão de intenção e com competência; santificável, por se tratar de uma tarefa nobre querida por Deus para a própria santificação do homem.

Contudo, nos nossos tempos de uma maneira especial e com alguma insistência, o trabalho humano situa-se numa perspectiva abusiva do seu sentido. Transformou-se numa espécie de ídolo ao qual se presta um culto indevido. A profissão subordina a nossa existência, subalternizando todos os outros valores e obrigações.

Por isso, não é raro que vendamos a alma ao trabalho, ou melhor, à profissão, sacrificando valores e obrigações igualmente primordiais, como os do culto devido a Deus, a atenção à família, a deferência que temos de prestar às pessoas das nossas relações, por dever de justiça e de caridade,.

Quando isto acontece, o homem perde dignidade e torna-se numa formiga laboriosa ou numa máquina de prestar serviços à entidade que lhe paga. Mal tem tempo para a família, Deus é acantonado para os momentos de ócio e à gente amiga reserva alguns possíveis instantes de pausa, sempre que possível.

Nesta perspectiva, quando a sua produtividade começa a decair, a própria empregadora se encarrega de o convidar a desistir da brega, ofertando-lhe uma reforma antecipada, na melhor das hipóteses. Já não serve para os seus fins. É mercadoria gasta e deteriorada, que convém mandar para a prateleira das coisas que não são rentáveis.

Mês de Julho. Vamos entrar em férias, tempo de descanso, que Deus quer para o homem. Não será bom pensarmos em todas estas realidades? Em que medida não estaremos já a vender a nossa alma ao trabalho? Damos a Deus o culto devido? Como me ocupo das minhas obrigações familiares? Tenho tempo para me dedicar aos meus amigos e de corresponder a todas manifestações que os laços de amizade exigem?

Que bom exame de consciência nos pode proporcionar o tempo de férias. Descansemos com Deus: tiraremos decerto muitas conclusões. E façamo-nos acompanhar sempre pela presença amável de Nossa Senhora, pois é nossa Mãe e ajudar-nos-á a encontrar as respostas mais adequadas para as nossas interrogações.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

18 de junho de 2006

Viver a Festa do Corpo de Deus

O mês de Junho está marcado pela Solenidade do Corpo de Deus, que se celebra na Quinta-Feira seguinte ao Domingo da Santíssima Trindade. Este ano calha no dia 15. Deixamos algumas sugestões que se podem viver em família.

A ideia de fundo é considerar a maravilha da entrega de Jesus na Eucaristia, onde, sob a aparência do pão, se contém o seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

A primeira prática é cuidar melhor a Missa dominical. Alguns pormenores no modo de vestir, de estar bem penteado e apresentado diante de Jesus, ajudam. E também pensar nas intenções pelas quais queremos pedir durante o Santo Sacrifício e, depois, na Comunhão.

Outra prática é a Visita ao Santíssimo Sacramento. Ao passar diante de uma igreja o pai ou a mãe, se virem oportuno, podem convidar os filhos a acompanhá-los a entrar e rezar diante do Sacrário, onde Jesus está sempre à nossa espera. Uma forma de realizar esta visita pode ser rezar as seguintes orações:

Graças e louvores se dêem a todo o momento Ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento. Pai Nosso, Avé-Maria, Glória (tudo isto é repetido três vezes)

No fim, pode-se acrescentar uma Comunhão Espiritual que é uma oração em que mostramos o desejo de comungar o Corpo de Jesus. Uma fórmula que usava São Josemaría é esta:

Eu quisera, Senhor, receber-Vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu vossa Santíssima Mãe, com o espírito e o fervor dos Santos.

Outro costume eucarístico é acompanhar a procissão que se realiza no dia do Corpo de Deus, pelas ruas da cidade. A Sagrada Hóstia pode ser vista na custódia. A custódia é uma peça de metal, normalmente em ouro ou prata, muito decorada, que transporta no centro a Eucaristia, que se pode ver através de um vidro. Ao acompanhar Jesus pelas ruas da nossa cidade podemos cantar e rezar com os outros e mostrar assim que O amamos e estamos agradecidos por ter ficado connosco.

13 de junho de 2006

São Josemaría, Presbítero, Fundador do Opus Dei

Josemaría Escrivá de Balaguer nasceu em Barbasto, Espanha, a 9 de Janeiro de 1902. Era o segundo de cinco irmãos, dos quais só ele era rapaz. Os seus pais eram exemplares e a sua infância decorreu dentro da normalidade de uma criança piedosa. Sonhava ser arquitecto.
Cedo, porém, Deus permitiu que as dificuldades chegassem. O negócio do pai conheceu a falência, por um desfalque, e a família ficou arruinada. Em simultâneo, faleceram em anos consecutivos as suas três irmãs mais novas, começando pela mais pequena. Quando Josemaría tinha treze anos os Escrivá mudam-se para Logronho reduzidos a quatro membros e a muito poucos haveres.
Josemaría conheceu então a heroicidade dos seus pais vivida com naturalidade. Continuaram a trabalhar e a espalhar ao seu redor um ambiente de alegria e serenidade.
Foi então que começou a pressentir o amor de Deus que o procurava. Um dia do Inverno de 1917/18, em que a cidade estava coberta por um forte nevão, viu as marcas dos pés descalços de um Carmelita. O seu coração estremeceu. Quis dar mais a Deus. Quis dar-se completamente e pensou pela primeira vez em ser sacerdote para estar mais disponível.
Pensou também nos seus pais e pediu a Deus que lhes desse ainda outro filho e que fosse rapaz. Santiago Escrivá nasceu a 28 de Fevereiro de 1919. Demoraria onze anos de intensa oração até saber aquilo que Deus queria dele: a 2 de Outubro de 1928 Josemaría, então um sacerdote de 26 anos, «viu» o Opus Dei.
Gastaria a sua vida até ao dia do seu falecimento, a 26 de Junho de 1975, nessa missão. E a Obra fundada por ele contava já mais de 50.000 membros nos vários continentes. Podemos pensar, no entanto, como foi importante para São Josemaría o ambiente que recebeu no seu lar e pedir-lhe que nos ajude a criar um semelhante no nosso.

1 de junho de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Todos devemos agradecer a Nossa Senhora da Porta do Céu por termos podido ver realizar-se um sonho tão desejado pelos fiéis de Telheiras.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

(Ver algumas imagens da Inauguração da Igreja Paroquial)

22 de maio de 2006

Viver o mês de Maria

O mês de Maio é tradicionalmente dedicado à Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Em todo o mundo os cristãos costumam honrar Nossa Senhora, vivendo esta filiação de muitos modos. Em família há alguns costumes que se podem implantar, com naturalidade, respeitando a legítima devoção de cada um e a sua forma pessoal de se relacionar com a Senhora.
Uma dessas devoções é o Terço. Maria, aparecida em Fátima, pediu-nos que o rezássemos diariamente, e que o rezássemos em família. Muitas vezes não será fácil pelo desencontro de horários (profissional, extra-escolar, doméstico, etc.). No entanto, desde que alguém tome a iniciativa, a uma hora mais ou menos fixa, por exemplo, a seguir ao jantar, de fazer o convite – «Vou rezar o Terço, queres rezar comigo?» – o costume pode arraigar. Pode-se rezar na cozinha, pode-se rezar na sala de estar, pode-se rezar num quarto, numa varanda, numa marquise, em viagem, onde quer que nos encontremos.
Outra das devoções é a das imagens de Nossa Senhora. Todos temos experiência de como o nosso coração é tão sensível às imagens. Uma imagem bem situada, numa parede, num nicho, num armário, feita de azulejo, ou de madeira, uma fotografia ou uma escultura, suaviza a nossa existência como a presença de uma mãe suaviza a vida de um filho.
Ainda outra devoção é a das visitas para lhe levar flores. Sabemos que Nossa Senhora é mulher, é «bendita entre as mulheres» (cf. Lc 1,42), e que lhe agradam estas pequenas manifestações de carinho e de delicadeza que se adequam ao seu carácter feminino. Podemos visitar as suas imagens em Santuários ou Ermidas, ou na própria igreja paroquial, que Lhe está dedicada, ou mesmo na nossa casa, no nosso quarto.
Não poderia deixar de mencionar a devoção de pedir a Nossa Senhora a virtude da Santa Pureza, através da recitação das três Avé Marias. "Virgem Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, aquietará o teu coração, quando te fizer sentir que é de carne, se recorreres a Ela com confiança" (São Josemaría, Caminho, 504).

13 de maio de 2006

São Filipe, Apóstolo

De Filipe quem nos dá mais informações é o Evangelista João. Era natural de Betsaida (cf. Jo 1,44), cidade situada no extremo Norte da Galileia, na fronteira com a Tetrarquia vizinha que era governada por um filho de Herodes o Grande também chamado Filipe. Este nome é grego e geralmente imortaliza o pai de Alexandre da Macedónia. Não admira, por isso, que uns gregos que queriam conhecer Jesus se tivessem dirigido em primeiro lugar a este Apóstolo (cf. Jo 12,20-21). Devia falar grego e talvez possuísse formação helenística. No entanto, os seus conhecimentos ultrapassavam a terra natal: Filipe era muito amigo de Natanael que procedia de Caná, no coração da Galileia (cf. Jo 1,45; 21,2). E o próprio Jesus parece já ter algum trato com ele antes de iniciar a sua vida pública pois logo que passa por ele, na Judeia, junto às margens do Jordão, quando mal terminara os quarenta dias no deserto, logo o chama para que O siga (cf. Jo 1,43). Esta multiplicidade de contactos – gregos, Natanael, de Caná, Jesus, de Nazaré – faz pensar num homem que se desloca com frequência.
Além disso, é a Filipe que Jesus pergunta: «Onde compraremos pão, para que estes possam comer?» (Jo 6,5). Encontram-se num sítio isolado e aproxima-se uma grande multidão. A resposta de Filipe é pronta – «Duzentos denários de pão não chegam para que cada um coma um bocadinho» (Jo 6,7) – e parece indicar um homem habituado a fazer contas. Filipe aparece-nos com o perfil de um comerciante, alguém de espírito muito terra a terra. Não admira que tenha dito a Jesus, na última ceia: «Senhor, mostra-nos o Pai que isso nos basta» (Jo 14,8). Poderia até ser um fornecedor de Jesus quando o Senhor trabalhava na sua oficina em Nazaré. Na Palestina escasseava a madeira; ela tinha que ser importada e a região ao Norte, o Líbano, era famosa pelos seus cedros.
Seja como for, Filipe é um Apóstolo que está longe de ser um místico. E, no entanto, a sua correspondência à graça e aos ensinamentos de Cristo, levaram-no a dar a vida pelo Mestre. A vida profissional, a vida de comércio, a vida empresarial, não nos afasta da santidade, desde que nós saibamos procurar o Senhor, nos Sacramentos, e também no nosso trabalho.

1 de maio de 2006


Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Numa paróquia cuja padroeira é Nossa Senhora, duas coincidências me ocorrem relativamente à reabertura da nossa igreja paroquial ao culto, no próximo Domingo da Ascensão, 28 de Maio, com a presença do Senhor Cardeal Patriarca.

Em primeiro lugar, que se realize num dia do mês dedicado especialmente à devoção à Virgem Santíssima.

Depois, que a padroeira seja Nossa Senhora da Porta do Céu e o dia aprazado para esse evento coincida com a solenidade da Ascensão do Senhor ao Céu. Poderá argumentar-se que quando Jesus para aí subiu, ela ainda se encontrava aqui na terra. No entanto, se O não acompanhou nessa altura, foi por que o próprio Filho a quis manter como Mãe dos Apóstolos e de todos os primeiros cristãos, a fim de exercer com a sua autoridade e com o seu amor maternal todo o processo de educação na fé, na esperança e na caridade que o próprio Jesus experimentou ao tornar-Se homem.

Deste modo, Maria cumpria aqui em baixo uma missão única, encomendada por Cristo. E quando se faz a vontade de Deus, está-se onde se deve, porque se faz o que a divina providência nos determina.

Podemos imaginar que a Mãe de Deus e nossa Mãe deverá rejubilar na Porta do Céu com a reabertura da sua igreja ao culto, depois de tanto tempo em obras e após tantos anos – quase dois séculos – onde houve acontecimentos menos gratos, motivados por razões que ela, uma vez mais, como intercessora de todos os homens, teve de pedir ao Filho e à Trindade para perdoar. Nossa Senhora, como todas as mães, quer ver os seus filhos bem situados na vida. E que melhor lugar do que o Céu para poder manifestar, mesmo aos filhos ingratos, o Amor incomparável da sua maternidade e, sobretudo, o da Trindade Santíssima. Além disso, já se viu alguma mãe verdadeira dizer mal dos seus filhos? Onde os outros vêem defeitos, ela encontra virtudes.

S. Josemaría Escrivá contava, a este propósito, que, quando numa reunião de senhoras amigas, um miudinho, filho de uma delas, metia o dedo no nariz, havia comentários negativos sobre esse gesto: "Olha o porcalhão!"; "Não o educam"?, etc. Mas a mãe daquela criança não perdia a oportunidade para observar: "Se calhar, ainda vai ser investigador!"

Quantas vezes não terá procedido assim Maria connosco no céu. As nossas mãos vazias de méritos eram preenchidas com o seu amor, a fim de que Jesus voltasse a olhar com misericórdia para os que passaram a ser filhos de Nossa Senhora desde a Cruz.

A presença do nosso Pastor diocesano nesse dia, será para todos nós um outro grande motivo de regozijo, porque unirá mais a paróquia a quem, por vontade de Deus, tem o encargo de nos orientar superiormente. Saibamos ser gratos por esta presença, rezando com mais intensidade pela sua pessoa e intenções.

Por fim, a própria população de Telheiras terá a alegria de ver, finalmente, a velha igreja restaurada com simplicidade, o que é sempre razão de satisfação e de apreço.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

25 de abril de 2006

São Marcos, Evangelista

Tinha também o nome de João e era oriundo de Jerusalém onde a sua mãe tinha uma casa na qual se reuniam os primeiros cristãos da cidade (cf. Act 12,12); segundo a Tradição foi discípulo do Senhor ainda na Palestina e talvez se identifique com o rapaz que, na noite da prisão de Jesus, sai à rua envolvido num lençol e foge quando é apanhado (cf. Mc 14,51-52); mais tarde foi companheiro da primeira viagem de São Paulo e São Barnabé, seu parente, mas ao chegar à Panfilia abandona-os e regressa a Jerusalém (cf. Act 13,13), pelo que Paulo, na segunda viagem, se recusa a tê-lo por companheiro e se separa de Barnabé, que prossegue a pregação com Marcos (cf. Act 15,37-39). Anos mais tarde, São Paulo, na prisão escreverá a Timóteo: «Toma contigo Marcos e trá-lo porque me é muito útil para o ministério» (2 Tm 4,11). Provavelmente São Paulo reconsiderou a sua opinião sobre João Marcos e reconheceu as suas qualidades particularmente notáveis durante a prisão do Apóstolo (cf. Col 4,10).
Segundo a Tradição, depois da morte de Pedro e Paulo em Roma (ca. ano 67) Marcos ainda haveria de fundar a Igreja de Alexandria, e teria sido ele quem traduziu para escrito a pregação do primeiro Papa, sendo assim o autor de um dos Evangelhos Canónicos, que é aquele que a Igreja lê nos domingos dos anos B, como 2006.
A figura de São Marcos fala-nos de uma fidelidade a Cristo feita talvez de alguns tropeços ou hesitações mas que se foi fortalecendo e amadurecendo cada vez mais. Assim seja também a nossa.

22 de abril de 2006

Viver o tríduo sacro em família

Estes dias Santos que vamos viver são particularmente ricos em graças de Deus. Aproveitá-los requer algum esforço mas a alma pode chegar a participar um pouco melhor da Morte e da Ressurreição de Nosso Senhor, centro da vida cristã. As sugestões que aqui se fazem pretendem ajudar essa participação frutuosa em família, sabendo que muitos estarão fora do seu lugar habitual de residência, aproveitando as férias escolares. De qualquer modo, mesmo estando longe, seria bom ajudar a viver estes dias especiais.
Quinta-Feira Santa: se possível, assistir à Missa da Ceia do Senhor e fazer algum tempo de adoração diante do Monumento, isto é, o local onde fica reservada Eucaristia depois da Missa até à distribuição da Comunhão do dia seguinte. Explicar o significado da Última Ceia de Jesus com os Apóstolos: a sua despedida, o mandamento do amor - «amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» -, a instituição da Eucaristia - «isto é o meu Corpo (...) este é o cálice do meu Sangue» - e a instituição do Sacerdócio - «Fazei isto em memória de Mim». Ao adorar Jesus no Monumento estamos a fazer-Lhe companhia na sua oração de agonia no Horto das Oliveiras
Sexta-Feira Santa: se possível, assistir às cerimónias; explicar o significado do beijar a Cruz e de a adorar: embora seja um instrumento de horrível tortura Ela foi, por força do amor com que Jesus A desejou, a forma de nos perdoar os pecados e de nos abrir o Céu. Se existe algum crucifixo em casa pode-se dar as beijar a todos, caso não se possa ir às cerimónias. É um dia para fazer alguns sacrifícios.
Sábado Santo: se possível, assistir à Vigília Pascal; explicar que Jesus está sepultado; é um dia de luto, mas também um dia para nos lembrarmos muito de Nossa Senhora, Ela continuava a acreditar em Jesus e na sua Ressurreição.
Domingo de Páscoa: se não se foi à Vigília ir à Missa. É o dia mais importante do ano para os cristãos: hoje Jesus ressuscitou, «A Vida pôde mais do que a morte» (São Josemaría, Santo Rosário 11). Explicar o significado do Círio Pascal (Luz que é Cristo que brilha nas trevas da morte), e das outras simbologias (o ovo, que indica fecundidade da nova Vida que Jesus possui, ou o cordeiro que recorda aquele que os Hebreus comeram ao sair do Egipto, e mais Jesus que é «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»).

1 de abril de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

"Cristo vive. Esta é a grande verdade que enche de conteúdo a nossa fé. Jesus, que morreu na cruz, ressuscitou, triunfou da morte, ressuscitou, do poder das trevas, da dor e da angústia. Não temais - foi a invocação com que um anjo saudou as mulheres que se dirigiam para o sepulcro. Não temais. Vindes buscar Jesus Nazareno, que foi crucificado. Já ressuscitou; não está aqui (Mc 16,6). Hæc est dies quam fecit Dominus, exsultemus et lætemur in ea: este é o dia que o Senhor fez, alegremo-nos (Salmo 118, 24)." (S. Josemaría Escrivá, Cristo que passa, n. 102).

No mês de Abril, pede-nos o Senhor que aliemos aos tempos sacrificados da Paixão do Senhor, a alegria imensa da Sua Ressurreição. O Domingo de Páscoa, após os dias de luto pesado de 6ª Feira e Sábado Santos (os nossos pecados, mesmo os já perdoados, foram a sua causa), sacode-nos por dentro e enche-nos de júbilo. Uma vez mais, verificámos como os compromissos de Cristo se cumprem. A Ressurreição, diz S. Paulo, é um dos motivos fundamentais da certeza da nossa fé: (...) se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, é também vã a nossa fé (1 Cor 15,14).

Sabemos, pelos textos evangélicos, que não foi fácil para os Apóstolos aceitar a realidade deste derradeiro milagre do Mestre. Parecia-lhes um disparate, uma ilusão, uma realidade que os alegraria tanto que não saberiam conter o seu contentamento. Dir-se-ia: "Era bom demais para que isso pudesse acontecer". Mas a realidade impôs-se e Cristo, Senhor da vida e da morte, ressuscitou. A partir de então, a Ressurreição erigiu-se, duma maneira informal e sem premeditação, como um dos centros mais comuns e apelativos da evangelização das primeiras gerações dos cristãos, a começar pelos apóstolos.

Para viver tão grande alegria é necessário protagonizar os momentos dolorosos do Calvário. A uma grande dor e a uma grande perplexidade sucede uma sensação indelével de satisfação: Cristo teve o poder sobre a Sua própria morte e o Seu regresso à vida corporal transforma-se em penhor de que também nós, homens como Ele, veremos o nosso corpo juntar-se à nossa alma no final dos tempos.

Uma piedosa tradição, que a arte cristã tantas vezes reproduziu, diz-nos que a primeira pessoa a quem Jesus apareceu ressuscitado foi a Sua Mãe. É justo que tenha sido assim. Maria surge à nossa consideração como a única criatura humana que jamais pôs em causa as promessas de Cristo. Por outro lado, sendo a caridade uma virtude ordenada, era lógico que o Filho aparecesse a quem mais O amou e a quem mais n’Ele confiou.

A Maria Santíssima peçamos a graça de viver muito bem estes dias únicos da Paixão e da Ressurreição do Senhor. No primeiro caso, a Mãe de Jesus poderá ser invocada como Nossa Senhora das Dores: ela acompanhará todos os nossos esforços por não fugirmos da Cruz Redentora e animar-nos-á a ser fortes, como o seu Filho, na dor e no sofrimento. Depois, ela será a nossa companheira no júbilo, ao vermos Cristo triunfar sobre a morte, que o demónio trouxe ao mundo com as suas mentiras e o seu incitamento ao pecado. E também nos ajudará a comunicar a nossa alegria a todos os seus filhos, que tantas vezes se esquecem destas verdades tão cativantes. Como Rainha dos Apóstolos, animar-nos-á a realizar uma evangelização profunda entre os nossos semelhantes, acudindo-lhes nas suas necessidades espirituais e materiais, sempre que for necessário.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

A Ceia de Emaús, Pinacoteca de Brera, Caravaggio - Milão (estampa XII)

1 de março de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Chegou o tempo da Quaresma. Tempo de reflexão, de exame profundo de consciência. Deus quer que nós nos convertamos e convida-nos a pensar a sério no que somos e no que devíamos ser. Sempre encontramos um fosso profundo entre estes dois aspectos concretos da nossa vida.

Deus não se assusta com esta realidade. Só o nosso orgulho poderá receá-la. A conversão é reconhecer diante do Senhor que somos muito pouca coisa. Devíamos, efectivamente, ser muito melhores. E para o conseguir contamos com as nossas capacidades e, fundamentalmente, com a graça de Deus.

Através dela recebemos toda a ajuda possível de que necessitamos, da parte divina, para nos santificarmos. Esquecemo-nos disto. Eis a razão que nos leva a sentir-nos sozinhos na luta. E nasce o desânimo, a preguiça e a tibieza, que nos faz concluir que, no meu caso, não há nada a fazer. Sou como sou e a luta não resulta.

A Quaresma proporciona-nos dois modelos opostos, onde vemos a graça frutificar e o ímpeto pessoal, que só conta com ele mesmo, sair derrotado. No primeiro caso, está Jesus, que Se deixa crucificar, porque Se abandona à vontade do Pai. No segundo, Pedro, que se compromete emotivamente a ir com Cristo até à morte e depois claudica cobardemente perante uma criadita de Caifás, sumo-sacerdote dos judeus.

Nosso Senhor vai até ao fim do sacrifício, porque quer salvar-nos e porque confia na ajuda de Deus. Como reza na cruz, como consegue não pensar em Si um só momento! Essas horas de dor compatibiliza-as com a doação completa de Si mesmo, sem regatear o mínimo sofrimento. É isso que o Pai Lhe pede e é por essa entrega total da Sua Pessoa que Ele Se entrega sem um protesto, sem um queixume e rezando constantemente.

Pedro, pelo contrário, valorosamente vai até à casa de Caifás, seguindo o Senhor. Mas aí perde a confiança n’Ele e nega-O por três vezes. Esquece-se da sua promessa, como nós nos esquecemos dos nossos bons propósitos. Provavelmente, não os fazemos na presença de Deus. São apenas fruto de um momento de vontade inflamado pela emotividade. Chega a hora da verdade e passam-nos ao lado todos os compromissos que assumimos. É a velha história da nossa vida, constantemente repetida como uma fotocópia pouco atraente.

Temos dois caminhos à nossa frente: confiar em Deus, dizer um acto de contrição bem sentido, reconhecendo a nossa condição de pecadores. Com o perdão, volta a graça de Deus a purificar a nossa alma. E restitui-lhe a força necessária para recomeçar com mais denodo e mais experiência. Em alguns casos, o recurso ao sacramento da Penitência pode ainda dar-nos mais paz e mais garantia da ajuda divina. O outro é o do pecador que se insurge contra esta sua condição e não a aceita. Arranja mil desculpas e fabrica para si mesmo o estatuto de alguém que não é responsável pelo que fez ou não fez e devia ter feito. .

Neste tempo de conversão quaresmal, abeiremo-nos com toda a confiança do perdão que o Pai nos concede no Sacramento da Penitência. Pode custar um pouco, mas a sua eficácia e a paz que dele se colhe são muito superiores a qualquer tentativa oca de nos defendermos inutilmente. Não queiramos buscar razões sem razão que a nossa imaginação fantasista é capaz de fabricar, sempre que se alia ao orgulho e a toda a reata de vícios que arrastamos.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

1 de fevereiro de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Com a recente publicação da Encíclica de Bento XVI, "Deus Caritas est" – Deus é Amor, vem a propósito lembrar que uma das mais maravilhosas expressões dessa capacidade humana se realiza na vida matrimonial, que dá origem à família.

É vontade de Deus que a maior parte dos seres humanos contraiam matrimónio, para aí se santificarem. O primeiro casal humano, Adão e Eva, homem e mulher, criados à imagem e semelhança do Criador (Gén. 1, 26-27) aparece aos olhos divinos como a condição fundamental para que a criação seja gerida pelo mesmo homem, através da procriação sucessiva, que havia de crescer, encher e dominar todas as criaturas (Gén 1, 28-30).

A família humana, cada uma delas, reflecte também aquilo que Deus é: uma família composta pelo Pai, origem de toda a paternidade, o Filho, origem de toda a filiação, e o Espírito Santo, o Amor de Deus perfeitíssimo, de que o homem é um espelho, quando, como diz Bento XVI na sua primeira Encíclica, vive a caridade, que "é o amor que renuncia a si mesmo a favor do próximo". Lembremo-nos, a este propósito, de tudo o que Cristo sofreu na Cruz, onde não pensou em Si, mas em todos e cada um e nós, que redimia.

A família que os homens criam pelo matrimónio, reflecte naturalmente o seu modelo familiar divino: unidade, indissolubilidade do vínculo estabelecido e amor entre os seus protagonistas, que são capazes de dar origem a novos seres. Deus cria, em primeiro lugar, e dá ao homem a faculdade de gerar prole, servindo-se de todas as potencialidades que Ele lhe doou no acto criador.

Os filhos são sempre uma manifestação da confiança que Deus tem na capacidade de os pais os criarem e os educarem. Prova evidente de que Deus quer a família como berço e lugar próprio para a criação e educação de seres humanos normais, virtuosos e santos, podemos descobri-la no nascimento de Jesus, o Verbo Encarnado, que veio ao mundo como criança inerme, entregue aos cuidados dos seus pais, Maria e José, que O alimentaram, O ensinaram a falar, a rezar, a relacionar-Se com os outros, a trabalhar, etc. Foi deste modo que Jesus, como diz o Evangelho, cresceu em "sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens" (Luc 2, 53).

Por todas estas razões é que quem é chamado ao matrimónio cumpre uma vocação, um chamamento divino, que quer que essas pessoas se santifiquem vivendo bem, com esforço e no dia a dia, as virtudes próprias de quem se casa e constitui família. Um lar cristão é, por isso, um alfobre de santificação para todos os seus elementos.

Rezemos intensamente pelas famílias e pelas autoridades que têm o direito de publicar as leis que as regem, a fim de que não prejudiquem a unidade e a estabilidade dos casais, não confundam caricaturas de famílias – uniões de facto, uniões de indivíduos do mesmo sexo, etc. - com a verdadeira família natural, que Deus formou e quis para o bem do homem e da sua dignidade. O matrimónio cristão é o paradigma da sua eficácia.

O vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

1 de janeiro de 2006

Caríssimos Paroquianos e Amigos de Telheiras:

Começa um novo ano e com ele uma nova possibilidade que Deus nos dá para nos santificarmos. A Sua vontade é esta e toda a nossa vida deve orientar-se para esse grande objectivo.

Com a graça que Ele nos dá duma forma magnânima – Deus sempre concede ao homem os dons com a prodigalidade dum Pai amoroso e generosíssimo -, espera de nós correspondência e disponibilidade. Quer que sejamos aqueles homens de boa vontade, que a corte de anjos aparecida aos humildes pastores de Belém na noite de Natal, anunciou, entre cânticos, para os animar a ir até ao presépio conhecer o Redentor.

Passada esta data de esperança, entramos em 2006 cheios de boas razões para cumprir os desígnios divinos.

Em primeiro lugar, ainda acicatados por toda a interpelação positiva do ICNE, que nos moveu a consciencializar a necessidade premente do cristão ser um instrumento de evangelização no meio em que se insere. Tudo o que se fez e as palavras de estímulo que o nosso Pastor nos transmitiu, desde o documento sobre "A Missão na cidade" à inesquecível consagração final a Nossa Senhora, na Praça dos Restauradores, são pontos de apoio para o alerta constante que o Senhor nos lança, convidando-nos a dar testemunho de Cristo vivo entre quem nos rodeia.

O dia a dia deve ser um constante incentivo para que os nossos companheiros de trabalho, de vizinhança, de relações habituais e de família, recebam de nós a corajosa mensagem de amor que Jesus ensinou a viver, com o Seu exemplo, a Sua palavra e a Sua entrega radical, aos apóstolos e aos discípulos que O acompanharam. Durante o ICNE, ouvimos dizer que o mais importante era não tanto o Congresso, mas as suas sequelas. Graças a Deus, temos verificado que quando os cristãos se mostram, mesmo tornando-se "sinais de contradição", aumenta o clima de intimidade com Deus, que se traduz numa maior frequência do preceito dominical e na busca dos Sacramentos, nomeadamente no da Reconciliação.

Outra razão reside certamente no acompanhamento cada vez mais surpreendente e vivo, de todas as palavras que tem proferido o novo Papa, Bento XVI, sucessor do já Servo de Deus, João Paulo II, como pastor universal da Igreja que Cristo fundou. Nós já conhecíamos a sua preclara inteligência como teólogo e pensador. Agora admiramo-nos com a sua energia pastoral, que se expressará brevemente com a publicação da sua primeira encíclica, já anunciada. Tudo isto é sinal de que o Espírito Santo actua na Igreja de que é alma viva e fonte de unidade; e também motivo para que nos unamos com a oração e os nossos afectos a quem o Senhor confiou a chefia, como sucessor de Pedro, da Sua Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

Por fim, continuará a mover-nos o desejo de que as obras da nossa Igreja Paroquial prossigam no bom ritmo que agora conhecemos, na esperança de que a comunidade de Telheiras, com a sua generosidade comprovada até ao momento, ultime o restauro do templo da sua padroeira, Nossa Senhora da Porta do Céu.

Do vosso pároco e amigo,
P. Rui Rosas da Silva

Sua Santidade, o Papa Bento XVI


D. José da Cruz Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa